Texto publicado no Ao Feminino e Além

A realidade às vezes é tão graciosa que em alguns momentos se esconde nos clichês mais batidos do conhecimento popular. Veja bem, não há nada que um clichê bem empregado e sob o controle certeiro e objetividade das evidências não possa demonstrar de forma interessante e clara. O último destes clichês que foi corroborado pode ser considerado uma comprovação para ser comemorada de algo que já era esperado, pois vai servir de argumento contra discurso conservador e fundamentalista que, baseado apenas em preconceito, possa vir a se colocar contra a adoção de filhos por casais do mesmo sexo. Um estudo recentemente publicado no periódico Demography, realizado pelo sociólogo Michael Rosenfeld, e que – segundo o próprio Rosenfeld – é o estudo com crianças cuidadas por pais do mesmo sexo com a maior amostra já coletada, demonstrou que o mais importante para um bom desenvolvimento e futuro sucesso educacional de uma criança não é a orientação sexual de seus pais, mas corroborou com aquilo que humanistas liberais já sabiam, sendo o tal clichê supracitado: Nada é mais importante que a família!
Ou melhor, o importante é ter uma família.
Uma família bem estruturada é fundamental para um bom desenvolvimento de uma criança, a saúde mental desta está altamente relacionada com o que acontece dentro das quatro paredes de seu lar, e isso pouco tem a ver com o quarto dos pais. Segundo Rosenfeld, filhos de uma relação “não tradicional” (assim ele chama no artigo) se saem tão bem quanto filhos de casais tradicionais em diversos fatores, como notas na escola ou sociabilidade, e muito melhor em diversos fatores do que crianças que vivem em orfanatos ou em famílias extremamente disfuncionais e desestruturadas durante o seu desenvolvimento. Em verdade, é preciso lembrar que pais que adotam uma criança – sejam eles “tradicionais” ou não – possuem uma grande tendência a estarem em um estágio da vida de pleno equilíbrio financeiro, educacional e, principalmente, um desejo imenso de se dedicar da forma mais plena àquela criança que entra em sua casa.
Este estudo só vem para fortalecer ainda mais o argumento em favor da ideia de que todos os indivíduos devem possuir direitos iguais, seja esse o direito a casa ou a ter um filho, pois estudos anteriores já haviam comprovado que crianças criadas por pais de mesmo sexo não “aprendem” a sexualidade e a orientação sexual parental – o que parece ser o medo de muita gente por aí. A cada evidência científica que surge, o argumento preconceituoso parece ruir aos poucos. Agora se tem mais uma certeza de que a sexualidade dos pais pouco vai interferir em relação aos cuidados educacionais de uma criança, talvez até o efeito ocorra de forma inversa, ajudando crianças a crescerem com um senso de respeito e liberdade que às vezes não é encontrado em famílias extremamente conservadoras e tradicionais.

Referência:
Michael J. Rosenfeld (2010). Nontraditional Families and Childhood Progress Through School Demography

7.9.11

Estrada Para a Consciência*

Postado por Marcus Vinicius Alves |


A seca durava já havia dez milhões de anos, e o reino dos terríveis lagartos terminara muito tempo atrás. No equador, no continente a que um dia se chamaria África, a batalha pela existência atingira um novo clímax de ferocidade, e o vencedor ainda não estava à vista. Naquela terra árida e seca, só os pequenos, os velozes ou os destemidos, conseguiam florescer ou até esperar sobreviver.

Os homens-macacos da savana não eram nada disto, e não estavam a florescer; aliás, já iam bem avançados na estrada para a extinção racial. Cerca de cinquenta deles ocupavam um grupo de cavernas sobranceiras a um valezinho ressequido, dividido por um rio parado, alimentado pelas neves das montanhas que ficavam a trezentos quilômetros para norte. Quando os tempos eram maus, o rio desaparecia completamente, e a tribo vivia à sombra da sede.
Tinham sempre fome, mas, naquela altura, quase morriam de inanição.

Quando a primeira e débil luz da madrugada entrou na caverna, Sentinela-da-Lua viu que o seu pai havia morrido durante a noite. Não sabia que o Velho era seu pai, pois tal relação estava muito para lá da sua compreensão, mas, ao olhar para o corpo magro, sentiu uma leve inquietação, antepassada da tristeza.

As duas crias já estavam a choramingar pedindo comida, mas calaram-se quando Sentinela-da-Lua lhes rosnou. Defendendo o bebé que não podia alimentar em condições, uma das mães devolveu-lhe um rugido zangado; mas ele nem sequer tinha energia para espancá-la pelo seu atrevimento.

Já fazia luz suficiente para partir. Sentinela-da-Lua pegou no cadáver enrugado e, inclinando-se, arrastou-o para a entrada da caverna. Uma vez no exterior, atirou o corpo para cima das costas e endireitou-se, único animal do mundo capaz de fazê-lo.

Entre os da sua espécie, Sentinela-da-Lua era quase um gigante. Tinha cerca de um metro e meio de altura, e, embora extremamente subalimentado, pesava mais de quarenta e cinco quilos. O seu corpo peludo e musculado estava a meio caminho entre o macaco e o homem, mas a sua cabeça encontrava-se já muito mais próxima do homem do que do macaco. A testa era baixa, e apresentava saliências por cima dos olhos, mas transportava inegavelmente nos seus genes a promessa de humanidade. Quando contemplava o hostil mundo do Plistoceno, o seu olhar continha já algo que ultrapassava as capacidades de um macaco. Naqueles olhos escuros e profundos lia-se o despertar de uma consciência - os primeiros sinais de uma inteligência que não poderia cumprir-se ainda por muito tempo, e que em breve talvez se extinguisse para sempre.

Como não havia sinal de perigo, Sentinela-da-Lua, ligeiramente embaraçado pelo seu fardo, começou a descer a encosta quase vertical que dava para a caverna. Como se houvessem estado à espera do seu sinal, os outros membros da tribo saíram dos seus lares, bastante mais abaixo na superfície rochosa, e dirigiram-se para as águas lamacentas do rio, para a primeira bebida da manhã.
Sentinela-da-Lua observou o outro lado do vale, tentando observar os Outros, mas eles não estavam à vista. Como não se viam, Sentinela-da-Lua esqueceu-os; era incapaz de ter em mente algo por muito tempo, ou mesmo focar a atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Primeiro, tinha de se desembaraçar do Velho - não era problema em que precisasse pensar muito. Houvera muitas mortes naquela estação, uma delas na sua própria caverna; bastar-lhe-ia abandonar o corpo no sitio onde pusera o novo bebê, no último quarto da lua, e as hienas fariam o resto. Estas já estavam à espera, no local onde o valezinho se abria e entrava na savana, quase como se soubessem que ele vinha. Sentinela-da-Lua deixou o corpo debaixo de um pequeno arbusto, - todos os ossos anteriores já haviam desaparecido -, e regressou apressadamente para junto da tribo. Nunca mais pensou no pai.

As suas duas companheiras, os adultos das outras cavernas e quase todos os jovens, comiam erva entre as árvores definhadas pela seca, vale acima, e procuravam bagas, raízes suculentas, folhas e dádivas inesperadas constituídas por lagartos ou roedores pequenos. Só os bebês e os velhos mais fracos eram deixados nas cavernas; se sobrasse alguma comida ao fim do dia, talvez fossem alimentados. Se não, as hienas teriam mais um dia de sorte. Mas aquele dia foi bom - embora, claro, Sentinela-da-Lua não possuísse uma verdadeira memória do passado, e não pudesse, portanto, comparar um tempo com o outro. Encontrara uma colmeia no tronco de uma árvore morta, e saboreara a iguaria mais deliciosa que o seu povo jamais conhecera; à tardinha, conduzindo o seu grupo para casa, ainda lambia os dedos de tempos a tempos. Claro que também recebera um razoável número de picadelas, mas mal reparara nelas. Estava o mais perto que podia esperar da satisfação - pois embora ainda tivesse fome, não se sentia realmente debilitado por ela. E isso era o máximo a que um homem-macaco podia aspirar.

A sua satisfação desapareceu quando chegou ao rio. Os Outros estavam lá. Iam lá todos os dias, mas isso não tornava as coisas menos aborrecidas. Eram cerca de trinta e não se distinguiam dos membros da tribo do próprio Sentinela-da-Lua. Quando o viram chegar, começaram a dançar, a abanar os braços e a guinchar, no seu lado do rio, e o povo de Sentinela-da-Lua respondeu-lhes do mesmo modo. E isso foi tudo o que aconteceu. Embora os homens-macacos lutassem várias vezes entre si, muito raramente as suas disputas resultavam em ferimentos graves. Como não possuíam garras nem dentes caninos adaptados à luta, e estavam bem protegidos com o pelo, quase nunca infligiam golpes sérios uns aos outros. Além disso, pouca energia lhes sobrava para comportamento tão improdutivo; rosnadelas e ameaças constituíam um modo muito mais eficiente de afirmarem os seus pontos de vista.

A confrontação durou cerca de cinco minutos; a exibição acabou então tão depressa como começara, e todos se puseram a beber copiosamente na água lamacenta. A honra fora satisfeita; cada um dos grupos frisara bem o direito que tinha ao seu próprio território. Depois de tratado assunto tão importante, a tribo afastou-se pelo seu lado do rio. A pastagem mais próxima ficava a mais de um quilómetro e meio das cavernas, e tinham de partilhá-la com uma manada de grandes animais parecidos com antílopes, que aceitavam muito mal a sua presença e não podiam ser combatidos, pois possuíam ferozes punhais nas cabeças. As armas naturais de que os homens-macaco não dispunham.

Portanto, Sentinela-da-Lua e os seus companheiros mastigavam bagas, frutos e folhas, e combatiam os espasmos da fome enquanto à sua volta, combatendo pelos mesmos pastos, estava uma potencial fonte de mais comida que a que alguma vez poderiam esperar comer. No entanto, os milhares de toneladas de carne suculenta, que deambulavam pela savana e através dos matagais, não se encontravam apenas fora do seu alcance; estavam também para além da sua imaginação. No meio da abundância, morriam lentamente à fome.

A última luz do dia viu a tribo regressar às suas cavernas sem incidentes. A fêmea ferida que ficara arrulhou de prazer quando Sentinela-da-Lua lhe deu o ramo coberto de bagas que trouxera, e atacou-o avidamente. Não era lá grande alimento, mas ajudá-la-ia a sobreviver até a ferida que o leopardo lhe fizera estar sarada, e ela poder voltar a procurar comida por si própria.

Uma lua cheia erguia-se por cima do vale, e um vento gelado soprava das montanhas distantes. Ia ser uma noite muito fria - mas o frio, tal como a fome, não era assunto para grandes preocupações; fazia parte da vida.

Sentinela-da-Lua mal se mexeu quando os guinchos e gritos vindos de uma das cavernas mais baixas ecoaram pela encosta, e não precisou ouvir o rugido do leopardo para saber exatamente o que estava acontecendo. Lá em baixo, o velho Pelo Branco e a sua família combatiam e morriam na escuridão, e o pensamento de que talvez pudesse ajudar nunca atravessou a mente de Sentinela-da-Lua. A desapiedada lógica da sobrevivência excluía tais fantasias, e nem uma voz de protesto se levantou da encosta atenta. Todas as cavernas ficaram silenciosas, pois não queriam por sua vez atrair o desastre.

O tumulto foi morrendo; Sentinela-da-Lua ouviu então o som de um corpo sendo arrastado por cima das pedras. Mas durou apenas alguns segundos; depois, o leopardo abocanhou a sua presa. Sem mais ruídos, afastou-se silenciosamente, carregando a sua vítima nos dentes.

O leopardo não representaria qualquer perigo durante um dia ou dois, mas podia haver outros inimigos por aí, tirando partido do Pequeno Sol frio que só brilhava à noite. Às vezes, e desde que fosse dado o alerta, os gritos e berros chegavam para pôr em fuga os predadores menores. Sentinela-da-Lua rastejou para fora da caverna e trepou para um pedregulho que estava ao lado da entrada, onde se agachou vigiando o vale.

De todos os seres que alguma vez haviam caminhado na Terra, os homens-macacos eram os primeiros a olhar de frente para a lua. E, embora não pudesse se lembrar, quando era pequeno Sentinela-da-Lua costumava esticar-se todo e tentar tocar naquela face fantasmagórica que se erguia acima das montanhas. Nunca o conseguira, e agora já era suficientemente crescido para saber o porquê. Era mais que óbvio que primeiro teria de subir a uma árvore muito alta. Contemplava o vale, observava a lua, e estava permanentemente à escuta. Dormitou uma ou duas vezes, mas sempre com os sentidos alerta - despertaria ao menor som. Apesar de já ter vinte e cinco anos, continuava na posse de todas as suas faculdades; se tivesse sorte e evitasse acidentes, doenças, predadores e inanição, talvez sobrevivesse mais dez anos.

A noite ia-se arrastando, fria e clara, sem mais alarmes, e a lua erguia-se lentamente por entre constelações equatoriais que os olhos humanos nunca contemplariam. Nas cavernas, entre períodos de sono irregular e vigílias temerosas, geravam-se os pesadelos de gerações futuras.

Um ofuscante ponto de luz, mais brilhante que qualquer estrela, atravessou lentamente o céu.

* Este texto é uma adaptação do capítulo “Estrada para a Extinção” do livro “2001: Uma Odisséia no Espaço” de Athur C. Clark, e foi utilizado para permitir – de uma forma lúdica – conjecturas acerca de como poderia ser a cognição humana primordial.

Por André Rabelo e Felipe Novaes*


A rejeição contemporânea da natureza humana tem a ver com o medo da desigualdade, do racismo, da guerra e da violência, visto que durante o século XX algumas explicações biológicas foram (mal) forjadas por pessoas para justificar idéias eugenistas e racistas.

Portanto, tais receios não são totalmente injustificáveis, visto que movimentos como o nazismo, por exemplo, ficaram conhecidos por fazer uso de explicações supostamente biológicas (como a noção de raça superior que deveria dominar), de uma forma totalmente deturpada para cometer atrocidades.


O problema é que estas preocupações que se pautam exageradamente no passado acabam ignorando a proposta atual da utilização de explicações biológicas, que é diferente da que foi feita, de forma distorcida e desonesta, no passado por certas figuras políticas.

A própia biologia se encarregou de demonstrar que somos todos primos, unidos pela mesma árvore da vida, sendo que diferenças superficiais como a cor da pele ou o formato dos olhos não podem dizer quais são os nossos potenciais nem as nossas características fundamentais, muito menos a nossa função social. Dois avanços importantes na teoria genética ajudaram a desmisitifcar o determinismo genético (Gould, 1991): a idéia de herança poligênica e a falta de diferenciação genética entre humanos. Essas duas idéias podem ser resumidas, respectivamente, da seguinte forma: as características humanas são o resultado da participação de vários genes juntamente com um “exército de efeitos interativos e ambientais” (Gould, 1991); as diferenças genéticas entre indivíduos das diversas raças humanas são extremamente pequenas, ou seja, não existem “genes raciais” que diferenciem uma raça da outra.

A antipatia à explicações biológicas, ironicamente uma “herança” do debate entre o que era inato ou aprendido, surgiu principalmente por conta de idéias como o darwinismo social, o determinismo genético e a frenologia.

O darwinismo social foi um pensamento desenvolvido inicialmente por Robert Spencer, que defendia a aplicação da idéia de “sobrevivência dos mais aptos” às instituições sociais (Otta e Yamamoto, 2009), justificando assim, de alguma forma, a desigualdade social como sendo um resultado natural do sucesso dos mais aptos. Esta concepção foi uma utilização distorcida e superficial da teoria da evolução de Darwin, mas que ganhou a simpatia de determinados setores da sociedade interessados em justificar a desigualdade e políticas preconceituosas como a eugenia e a higienização social.

A forma brutal como a natureza funciona não deve ser o modelo no qual devemos basear nossa sociedade, e a teoria da evolução de Darwin não propôs que devessemos nos inspirar na natureza para construir uma sociedade. Argumentar que algo é bom porque é natural é uma falácia naturalista, visto que as questões factuais com as quais a teoria de Darwin lidava nada tinham a informar sobre questões morais nem poderiam provar a validade de qualquer julgamento de valor (Evans e Zarate, 1999).

O determinismo genético foi uma visão que muitos biólogos tiveram do papel dos genes nas características fenotípicas e no comportamento das pessoas, e que hoje em dia não encontra apoio na comunidade científica. Muitos etólogos e psicobiólogos acreditavam que os animais herdavam de seus ancestrais padrões fixos de resposta e que a hereditariedade seria a principal origem até mesmo de comportamentos mais complexos.

A briga entre etólogos e psicólogos behavioristas se amenizou quando ambos começaram a perceber que seus modelos eram corroborados por várias evidências, o que indicava que a suposta “oposição excludente” entre o aprendido e o genético não era tão verdadeira. Etólogos entenderam que comportamentos poderiam ser altamente flexíveis e modificáveis, ao passo que behavioristas passaram a compreender que existem predisposições em muitos organismos para associar determinados estímulos, além de existirem fortes restrições biológicas aos estímulos que podem ser condicionados.

Como os exemplos citados no início da Parte 1 deixam claro, atualmente os biólogos não estão propondo que genes determinam o destino das pessoas, tamanha é a influência do ambiente e da nossa capacidade de adaptação. Diferentes características terão diferentes influências genéticas, e uma grande parte das características humanas poderá se expressar de diferentes formas a depender do seu ambiente.

O campo de estudo da epigenética, por exemplo, vem se consolidando como importante avanço na biologia molecular ao investigar como padrões de expressão genética de um indivíduo podem ser modificados pelo ambiente e transmitidos para seus descendentes. Esse campo de pesquisa evidencia que os biólogos tem investigado seriamente os efeitos do ambiente de desenvolvimento dos organismos e que, portanto, o determinismo genético é uma visão ingênua, antiga, insuficiente e desatualizada do entendimento biológico humano.

A frenologia foi apropriada pelo senso comum para classificar as pessoas em violentas e bondosas, de acordo com protuberâncias no crânio. Nessa época, muitos estudiosos foram contra a idéia porque era bem exótico pensar que um tecido gelatinoso como o cérebro exercesse pressão suficiente contra o crânio ao ponto de formar elevações. Mas como a idéia da frenologia encontrou um solo fértil, ela fez mais sucesso. Outro exemplo é “a anatomia de um assassino”, criada pelo italiano Cesare Lombroso.

Essas e outras idéias hoje não possuem mais aceitação na comunidade científica, mas ainda assim as ciências humanas guardaram um profundo rancor de tudo que tem biologia no nome ou está associado à ela. Isso as impede de reconhecer as conclusões tiradas de pesquisas biológicas, se esquecendo que o homem também possui uma biologia, e não só uma história. É preciso reconhecer as dimensões de atuação orgânica. Uma das linhas de pesquisa mais emblemáticas desse caso é a que estuda os gêmeos.

Uma série de estudos indicam que gêmeos idênticos criados separadamente são muito parecidos, gêmeos idênticos criados juntos são mais parecidos do que gêmeos fraternos criados juntos e irmãos biológico são mais parecidos do que irmãos adotivos (Bouchard, 1994, 1998; Bouchard e McGue, 1990; Lykken et al., 1992; Plomin, 1990; Plomin, Owen e McGuffin, 1994; Strmswold, 1998, 2001). Por outro lado, a relação entre o QI e a personalidade de adultos que quando pequenos foram criados juntos como irmãos adotivos é insignificante (Plomin, 1990).

Uma pesquisa curiosa sobre o assunto mostra que se você tem um irmão gêmeo idêntico que se divorciou, você possui 18 vezes mais chance de se divorciar também. Já no caso de irmãos fraternos, a probabilidade cai para 2 vezes somente (MgGue e Lykken, 1992). Esse é um exemplo claro de como a genética possui correlação com o comportamento. Mas isso não significa que haja uma correlação causal com o ato do divórcio. Não existe um gene do divórcio, mas existem certos fatores influenciados pela genética que se correlacionam com a possibilidade maior ou menor de alguém ser apto a uma vida a dois. Alguns desses fatores é o temperamento, a agressividade e a sede por dominância. Esse tipo de relação é chamada de covariação-gene-ambiente.

Não precisamos temer um surto psicótico mundial ou a ascenção de um novo regime ditatorial e racista só por reconhecer que como espécie, as pessoas compartilham uma natureza. Aceitarmos que o comportamento violento, por exemplo, não é apenas uma criação histórica, poderia nos ajudar a compreender de forma mais completa este comportamento e, conseqüentemente, poderia resultar em meios mais eficazes de reduzir o comportamento violento. O mesmo aconteceria com certas injustiças sociais, como a humilhação que certos grupos, etnias e raças sofrem (como a exploração de mão-de-obra infantil, tratamento humilhante sofrido contra as mulheres em países machistas como o Irã; a mutilação de órgãos sexuais em rituais religiosos).

Supor que o ser humano é uma tábula rasa pode incentivar ou ignorar atitudes como a tolerância ao tratamento miserável que é dado à mulher em certos países, mutilações e comportamentos em geral que infringem dor às pessoas. O argumento de que temos que respeitar culturas diferentes, pois cada uma é singular, acaba a partir do momento em que o sofrimento é causado, visto que dor não é apenas uma criação cultural. Afinal, não importa a cultura, ninguém gostará de ser ferido nem menosprezado de forma cruel, por mais que aprenda a se submeter e não questionar os sofrimentos aos quais é imposto.

Podemos concluir o entendimento que surgiu do debate entre inato e aprendido da seguinte forma: as bases genéticas dos comportamentos e o ambiente onde o organismo vive fazem parte de um único processo, o desenvolvimento. Portanto, aspectos biológicos e de aprendizagem do comportamento não são de forma alguma excludentes ou suficientes cada um em si, mas sim duas dimensões totalmente interligadas do processo de desenvolvimento de um organismo.


ResearchBlogging.org
Referências:
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Bouchard TJ Jr (1998). Genetic and environmental influences on adult intelligence and special mental abilities. Human biology, 70 (2), 257-79 PMID: 9549239

Bouchard, T., & McGue, M. (1990). Genetic and Rearing Environmental Influences on Adult Personality: An Analysis of Adopted Twins Reared Apart. Journal of Personality, 58 (1), 263-292 DOI: 10.1111/j.1467-6494.1990.tb00916.x

Evans, D., & Zarate, O. (1999). Introducing evolutionary psychology. Cambridge, United Kingdom: Icon Books.

Gould, S. J. (1991). A falsa medida do homem. São Paulo, Martins Fontes.

Lykken, D., McGue, M., Tellegen, A., & Bouchard, T. (1992). Emergenesis: Genetic traits that may not run in families. American Psychologist, 47 (12), 1565-1577 DOI: 10.1037//0003-066X.47.12.1565

McGue, M., & Lykken, D. (1992). Genetic influence on risk of divorce. Psychological Science, 3 (6), 368-373 DOI: 10.1111/j.1467-9280.1992.tb00049.x

Otta, E. & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Plomin, R. (1990). The role of enhiritance in behavior. Science, 248, pp. 183-248.

Plomin, R. (1995). Nature and nurture an introduction to human behavioral genetics. The Japanese Journal of Human Genetics, 40 (1), 153-154 DOI: 10.1007/BF01874080

Plomin, R. & Bergeman, C. (1991). The nature of nurture: Genetic influence on enviromental measures. Behavioral and Brain Sciences 14, 373-427.

Plomin, R. & McClearn, G.E. (1993). Nature, Nurture and Psychology. Washington: American Psychological Association.

Plomin, R., Owen, M., & McGuffin, P. (1994). The genetic basis of complex human behaviors Science, 264 (5166), 1733-1739 DOI: 10.1126/science.8209254

Rachels, J. (1991). Created from animals: The moral implications of Darwinism. New York: Oxford University Press.

Stromswold, K. (1998). Genetics of Spoken language disorders. Human Biology, 70, pp. 297-324.

Stromswold, K. (2001). The Heritability of Language: A Review and Metaanalysis of Twin, Adoption, and Linkage Studies. Language, 77 (4), 647-723 DOI: 10.1353/lan.2001.0247



* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING. André Rabelo é estudante de graduação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Além de ser editor do Blog Ciência - Uma Velha no Escuro, é colaborador do Blog de Astronomia do astroPT e do Bule Voador.

Por Felipe Novaes e André Rabelo*


Desde a Grécia antiga até os dias de hoje, uma idéia tem tido grande influência na discussão acerca da natureza humana – a dicotomia entre comportamentos inatos e aprendidos ou explicações biológicas e culturais do comportamento, o que ficou conhecido com o debate nature or nurture, natureza ou criação, inato ou aprendido.


Este debate acalorado teve seu auge na metade do século passado e seu período mais crítico durou cerca de 20 anos, apesar de muitos ambientes acadêmicos ainda enfrentarem este fantasma, fruto de uma antiga disputa que misturou posições ideológicas e políticas com científicas.

De um lado, sociobiólogos e etólogos afirmavam que grande parte dos comportamentos eram inatos; do outro, pesquisadores das ciências sociais e psicólogos behavioristas defendiam que a maior parte dos comportamentos (ou todos) eram aprendidos.


Geralmente, as ciências humanas, sociais e comportamentais adotavam, e ainda adotam em muitos círculos acadêmicos, uma idéia próxima da tábula rasa, conceito criado por John Locke, que afirma que o ser humano nasce como uma folha de papel em branco a ser preenchida pelas experiências. Essa idéia já deveria ter sido revisada desde que, nos últimos anos, repetidas evidências tem apontado diversos aspectos do ser humano como tendo fortes bases biológicas.

Locke
A dicotomia entre inato e aprendido foi sendo vagarosamente substituída por uma visão interacionista entre ambos – depois de perceberem que além do preto e do branco pode existir o cinza também, os estudiosos do ser humano puderam avançar consideravelmente no entendimento de como predisposições biológicas influenciam o comportamento humano e como o ambiente pode afetar a expressão de características genéticas, além de quando essa expressão poderá ocorrer (Dovidio et al., 2006).

Um dos autores do presente texto já descreveu em textos anteriores algumas evidências empíricas corroborando a idéia de que os seres humanos possuem determinadas tendências humanas inatas, “aqui” e “aqui”. Além disso, Dovidio da dois exemplos para ilustrar a relação entre pedisposições e o ambiente de um organismo: psicólogos do desenvolvimento conhecem, já há algum tempo, as diferenças individuais no temperamento de bebês (e.g. mais chorões ou calmos) desde o momento em que nasceram praticamente; também sabe-se hoje que determinados genes vinculados diretamente à atividade cerebral e à certos processos fisiológicos são ativados ou desativados por eventos ambientais.


Um outro exemplo é a linha de pesquisa sobre emoções humanas e suas expressões faciais desenvolvida pelo psicólogo Paul Ekman, que, inspirado nos estudos iniciais de Charles Darwin acerca da expressão de emoções em animais e em seres humanos, encontrou em seus estudos de povos primitivos que a expressão das emoções básicas (raiva, alegria, tristeza, desprezo, medo, surpresa e nojo) são praticamente as mesmas na espécie humana (Ekman, Sorenson e Friesen, 1969; Ekman, 2003), ainda que culturas diferentes possam dar nomes diferentes e acrescentar à sua expressão pequenas sutilezas; o que Ekman chama de emblemas e ilustradores. Todavia, ainda hoje muitos cientistas da área de humanas rejeitam essas pesquisas e chamam Ekman de preconceituoso e racista.

Apesar de esses esclarecimentos terem sido absorvidos por alguma parte da comunidade científica, a negação da natureza humana ainda é algo comum em muitas universidades no mundo, como o psicólogo Steven Pinker ilustra e explora em um de seus livros, Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana. Conforme Pinker (2004):
"O tabu da natureza humana não só põe antolhos nos pesquisadores mas também faz de qualquer discussão sobre o tema uma heresia que precisa ser aniquilada. Muitos autores, de tão desesperados para desabonar toda insinuação de uma constituição humana inata, jogam a lógica e a civilidade pela janela. Distinções elementares – entre “alguns” e “todos”, “provável” e “sempre”, “é” e “tem de ser” – são sofregamente menosprezadas a fim de que a natureza humana seja pintada como uma doutrina extremista e, com isso, os leitores sejam conduzidos para longe dela.
A análise de idéias é comumente substituída por difamações políticas e pessoais. Esse envenenamento da atmosfera intelectual privou-nos dos instrumentos para analisar questões prementes sobre a natureza humana, justamente quando novas descobertas científicas as tornam críticas."
Antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos e psicanalistas se figuram como os mais ardentes negadores de explicações biológicas acerca do comportamento humano. Para muitos deles, o comportamento pode ter uma base inata, mas o processo de aprendizagem é muito mais importante na hora de explicar o comportamento das pessoas. Também existem concepções mais radicais do ser humano beirando um reducionismo cultural: tudo que o ser humano faz é determinado por sua aprendizagem cultural, as culturas variam de forma quase infinita, caótica e de acordo com nenhum padrão, sendo que até mesmo urinar ou defecar são apenas práticas culturalmente aprendidas.

Lembro ainda hoje de uma aula que tive (Felipe) na faculdade, sobre psicologia do desenvolvimento. Um aluno tinha feito alguma pergunta sobre esse debate nature or nurture e a professora falou algo interessante. Para ela, a biologia e a cultura atuam entrelaçadamente de forma que é um tanto complicado distinguir os dois.

Até aí tudo bem, mas ela prossegue dizendo que “por exemplo, a necessidade de beber água é determinada por fatores culturais. Hoje os médicos afirmam qu devemos beber 2 L de água por dia, mas eu mesma só bebo um copo de água por dia, quando chego em casa de noite; e nunca morri por isso! Lá na Índia existem aqueles monges que são capazes de permanecer dias sem beber água e também não morrem por isso.” Isso foi chocante. Ou o caso de um outro porfessor meu que afirmou que a pressão arterial e seu valor ótimo é cultural, ou seja, podem existir culturas em que seus habitantes possuem uma pressão alta se comparada ao nível recomendado atualmente em nossa sociedade, mas que vivem normalmente sem ter nenhum prejuízo na saúde por conta disso.

Antes mesmo da presença marcante das ciências naturais no debate, como a genética comportamental e a neurociência, esse aspecto já havia sido explorado de alguma forma pelo psicólogo e médico suíço Carl Jung, por exemplo. Ele percebeu que existem diversos símbolos e conceitos de mitologias de povos diferentes, mas que são muito semelhantes. De fato, vemos certas estruturas presentes largamente por aí, tal como o arquétipo do herói, por exemplo, que rege a jornada de heróis como Jesus, Buda, Hércules, Ulisses e outros heróis mitológicos, independente de haver fundo histórico em suas narrativas. Um de nós já escreveu sobre as semelhanças entre histórias contadas de Buda e Jesus “aqui” e “aqui”.

Hoje em dia compreende-se que a pergunta “é inato ou aprendido” é, além de mal formulada, inútil e retrógrada, pois se baseia numa suposta oposição excludente entre o que é inato ou aprendido, quando de fato os dois conceitos não são opostos, e muito menos excludentes.

Toda essa resistência em considerar as evidências não resultou de pesquisas sistematicamente conduzidas que chegaram à outras conclusões, mas principalmente de ideologias que pretendem fundar e modificar a história Linkhumana, selecionando as conclusões “politicamente corretas” às quais os cientistas podem chegar. Algo como “vocês cientistas não devem chegar à essas conclusões, olhem o que poderão estar estimulando”.

Existe nesse pensamento uma noção muito desinformada do que é a pesquisa científica: cientistas fazem pesquisas onde, através de um teste bem elaborado, podem obter mais de um resultado, que acabe corroborando ou não suas hipóteses. Porém, o resultado que será obtido no teste deve estar fora do seu controle de manipulação, portanto não faz parte da pesquisa científica escolher o resultado de algo.

Segunda parte.


ResearchBlogging.org Dovidio et al. (2006). The social psychology of prosocial behavior. New York: Lawrence Earlbaum.
Ekman, P. (2003). Emotions revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York: Times Books.
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Pinker, S. (2004). Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana. São Paulo: Companhia das Letras.


* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING. André Rabelo é estudante de graduação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Além de ser editor do Blog Ciência - Uma Velha no Escuro, é colaborador do Blog de Astronomia do astroPT e do Bule Voador.

18.6.11

Deixem Que as Crianças Perguntem

Postado por Colaboradores |

Por André Souza*

Nós seres hu
manos gostamos de saber o porquê de tudo. Quem de nós nunca conversou com uma criança curiosa em saber por que o céu á azul, ou por que a luz acende quando apertamos o interruptor? Em outras palavras, desde cedo queremos sempre saber a causa das coisas. E mais interessante ainda, já aos três anos já explicamos as causas das coisas, ou o porquê que as coisas acontecem (pergunte a uma criança de três anos por que o céu é azul e tenho certeza que terá uma explicação bem pláusível -- pelo menos para ela).

Explicar o porquê que as coisas acontecem é, na verdade, uma atividade intelectual muito boa e importante para o desenvolvimento da criança. Vários estudos mostram, por exemplo, que as crianças aprendem matemática muito mais facilmente quando "explicam" um conceito, em oposição a quando elas apenas "lêem" ou "escutam" uma explicação sobre esse conceito. Por isso é importante que desde cedo incentivar o ato de criar explicações.

Basicamente, existem dois tipos de eventos que as crianças podem explicar. Um evento que é consistente com o conhecimento anterior que a criança já possui e um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento que a criança tem. Um exemplo: imagine que uma criança veja você apertar o interruptor para acender a luz do quarto. Como ela já viu você fazendo isso várias vezes antes, é parte do conhecimento prévio dela que a luz vai acenda. Isso é um acontecimento consistente com o conhecimento prévio da criança. Imagine, no entanto, que ao apertar o interruptor, a televisão ligue. Isso é um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento prévio da criança.

Um estudo recente publicado esse ano no periódico Child Development pelos pesquisadores Cristine Legare, Susan Gelman e Henry Wellman investigou que tipo de acontecimento (consistente ou inconsistente) incentiva mais explicações das crianças. Nesse estudo, as crianças viam uma caixa que se acendia (ou não) quando uma outra peça era colocada em cima dela. Os pesquisadores mostravam para a criança duas dessas caixas e mostravam como as caixas funcionavam (por exemplo, se colocar o cubo azul sobre a caixa ela acende, mas se colocar uma outra peça, ela não acende). Logo após a apresentação das duas caixas, as crianças tinham a oportunidade de fazer as caixinhas funcionarem. No entanto, quando elas tentavam, uma das caixinhas não funcionava de acordo com o que elas viram antes.

O estudo mostrou que as crianças se interessaram muito mais pelos acontecimentos inconsistentes do que com os acontecimentos consistentes. Ou seja, preferiam explicações que tinham haver com o acontecimento inconsistente. E mais ainda. Os acontecimentos inconsistentes foram muito mais propícios a receber uma explicação causal por parte da criança. Em outras palavras, as crianças ficaram muito mais interessadas na "causa" do acontecimento inconsistente do que do acontecimento consistente.

O que isso quer dizer? Bom, muitos pais -- principalmente mães :-) -- tem uma mania muito feia de "preparar" o ambiente da criança o suficiente para que ela nunca encontre uma situação ou acontecimento que seja inconsistente com o que ela ja sabe. Para muitos pais, as crianças se sentem mal e não gostam de situações inconsistentes e adversas. E com isso controlam também as chances que as crianças têm de viver situações que incentivem explicações de natureza mais causal. O interessante de explicações causais é que elas, muitas vezes, não se baseiam apenas em característica superficiais (aparências), o que leva as crianças a buscarem as essências dos acontecimentos que vivenciam. Buscar essências acaba sendo uma característica intelectual importante na vida adulta.

É muito importante saber e entender a importância que nossos comportamentos diários com nossas crianças acabam, de uma forma ou de outra, influenciando o desenvolvimento intelectual e social delas.

E para aqueles que eu tenho certeza que ficaram curiosos para saber por que o céu é azul, aqui vai a explicação: existe um fenômeno conhecido como Rayleigh Scattering, que basicamente é uma forma de espalhamento da luz e de outras ondas eletromagnéticas. A luz do sol é formada por várias cores diferentes -- com ondas de diferentes tamanho --, mas devido à algumas substâncias presentes na nossa atmosfera, cores com ondas mais curtas (ex.: azul) são 'espalhadas' mais facilmente do que cores com ondas mais largas. Mas tenho certeza que vai te dar um pouco de trabalho para explicar isso para seu filho de 4 anos! :-)

Referência
Legare CH, Gelman SA, & Wellman HM (2010). Inconsistency with prior knowledge triggers children's causal explanatory reasoning. Child development, 81 (3), 929-44 PMID: 20573114

* André L. Souza é doutorando em Psicologia Cognitiva pela Universidade do Texas em Austin e escreve para o blog Cognando.

Por Flávia Lopes*


Esse post veio do blog "Conversas de Criança" da Flávia e segue uma linha de textos que ela já havia escrito, e assim, para manter a fidelidade do escrito por ela, nada foi alterado. Caso você se interesse em saber o que fora antes abordado pela autora, o link do blog segue ao final do texto.
Marcus V. Alves

A ideia do tema de hoje surgiu ao participar de uma defesa de trabalho de conclusão de curso.
Primeiro quero parabenizar minha aluna Ana Paula Fest Müller pelo excelente trabalho (Um olhar horizontalizado acerca da tutoria de resiliência: um estudo de caso)!
Mesmo que estes livros sejam apropriados para os adultos a aplicação do tema é de fundamental importância para o desenvolvimento infantil. A resiliência permite ao sujeito se adaptar às situações que apresentem fatores de risco e assim, superar as adversidades.

Uma pausa para “explicar” esta palavrinha: resiliência

A palavra vem do latim “resilio”, que significa voltar ao estado natural. O conceito oriundo da Física que se refere à propriedade de que são dotados alguns materiais, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse sem ocorrer ruptura. É aplicado ao comportamento humano com o objetivo de permitir que sejam adotadas mudanças nas atitudes para proporcionar melhoria na qualidade de vida das pessoas mesmo em situações do dia-a-dia de cobranças, prazos, pressões, muita tensão e estresse.
E por que pensar na resiliência como importante para o desenvolvimento infantil?
Algumas crianças podem apresentar problemas em seu desenvolvimento relacionados ao comportamento e/ou à um desequilíbrio emocional, e esses problemas ocorrem por uma falta de habilidade para enfrentar eventos estressantes e de risco comuns no seu dia-a-dia.
Podemos considerar também, de acordo com Cyrulnik que é por meio das relações sociais que a criança pode estabelecer um processo de equilíbrio entre os fatores de risco e de proteção. É também pelos vínculos seguros que são basicamente construídos no período da infância, que a possibilidade de se ter uma rede de apoio é construída. Essas redes, por sua vez, fortalecem a criança ou o adulto e permitem que ele alcance o equilíbrio entre os fatores de risco e proteção.
Então, se nós adultos pudermos conduzir as situações de adversidade enfrentadas pelas crianças de forma realista, proporcionando apoio e fazendo com que elas percebam seus limites e potencialidades, estaremos capacitando-as para enfrentar e superar as adversidades e o mais importante, transformando positivamente essas situações.
Mas, é importante lembrar que trabalhar com a criança a positividade das situações adversas não significa transformar essa criança em invulnerável. Ao enfrentar uma situação de risco, todos, crianças ou adultos, saíram do enfrentamento com algum dano, porém com uma visão positiva de reconstrução.
Seguem os exemplos
Como exemplos de resiliência podemos pensar em Maria Callas, da forma como foi citado no livro de Cyrulnik. Nascida em Nova York, filha de imigrantes gregos que devido a dificuldades econômicas, teve que regressar à Grécia com sua mãe em 1937, foi uma menina consumida por carências afetivas morando em depósito de crianças imigradas.
Podemos pensar também em Steve Jobs que fundou a Apple aos 20 anos, empresa composta por duas pessoas e que funcionava na garagem da casa dos pais de Jobs e se transformou, em dez anos, numa empresa com 10.000 colaboradores. Jobs foi demitido da própria empresa aos 30 anos, mas, devido a seu espírito empreendedor, ou melhor da sua resiliência, fundou a NeXT e também comprou de George Lucas a Pixar Animation Studios transformando no maior estúdio de animação do mundo. No seu discurso em 2005 para os formandos da Stanford University compartilha três ótimas histórias de vida, de sua adoção até o câncer que enfrentou.


* Flávia Lopes é Graduada em Psicologia pela Faculdade Ruy Barbosa e Mestre em Avaliação Psicológica pela Universidade São Francisco - Itatiba. Escreve no blog Conversas de Criança.

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