Pais homossexuais: que diferença isso faz?
Estrada Para a Consciência*
De todos os seres que alguma vez haviam caminhado na Terra, os homens-macacos
eram os primeiros a olhar de frente para a lua. E, embora não pudesse se
lembrar, quando era pequeno Sentinela-da-Lua costumava esticar-se todo e tentar
tocar naquela face fantasmagórica que se erguia acima das montanhas. Nunca o conseguira, e agora já era suficientemente crescido para saber o
porquê. Era mais que óbvio que primeiro teria de subir a uma árvore muito alta. Contemplava o vale, observava a lua, e estava permanentemente à escuta. Dormitou uma ou duas vezes, mas sempre com os sentidos alerta -
despertaria ao menor som. Apesar de já ter vinte e cinco anos, continuava na
posse de todas as suas faculdades; se tivesse sorte e evitasse acidentes,
doenças, predadores e inanição, talvez sobrevivesse mais dez anos.Inato X Aprendido (Parte 2)
A rejeição contemporânea da natureza humana tem a ver com o medo da desigualdade, do racismo, da guerra e da violência, visto que durante o século XX algumas explicações biológicas foram (mal) forjadas por pessoas para justificar idéias eugenistas e racistas.
A briga entre etólogos e psicólogos behavioristas se amenizou quando ambos começaram a perceber que seus modelos eram corroborados por várias evidências, o que indicava que a suposta “oposição excludente” entre o aprendido e o genético não era tão verdadeira. Etólogos entenderam que comportamentos poderiam ser altamente flexíveis e modificáveis, ao passo que behavioristas passaram a compreender que existem predisposições em muitos organismos para associar determinados estímulos, além de existirem fortes restrições biológicas aos estímulos que podem ser condicionados.Stromswold, K. (2001). The Heritability of Language: A Review and Metaanalysis of Twin, Adoption, and Linkage Studies. Language, 77 (4), 647-723 DOI: 10.1353/lan.2001.0247
* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING. André Rabelo é estudante de graduação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Além de ser editor do Blog Ciência - Uma Velha no Escuro, é colaborador do Blog de Astronomia do astroPT e do Bule Voador.
Inato x Aprendido (parte 1)
Este debate acalorado teve seu auge na metade do século passado e seu período mais crítico durou cerca de 20 anos, apesar de muitos ambientes acadêmicos ainda enfrentarem este fantasma, fruto de uma antiga disputa que misturou posições ideológicas e políticas com científicas.
Geralmente, as ciências humanas, sociais e comportamentais adotavam, e ainda adotam em muitos círculos acadêmicos, uma idéia próxima da tábula rasa, conceito criado por John Locke, que afirma que o ser humano nasce como uma folha de papel em branco a ser preenchida pelas experiências. Essa idéia já deveria ter sido revisada desde que, nos últimos anos, repetidas evidências tem apontado diversos aspectos do ser humano como tendo fortes bases biológicas.
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| Locke |
Um dos autores do presente texto já descreveu em textos anteriores algumas evidências empíricas corroborando a idéia de que os seres humanos possuem determinadas tendências humanas inatas, “aqui” e “aqui”. Além disso, Dovidio da dois exemplos para ilustrar a relação entre pedisposições e o ambiente de um organismo: psicólogos do desenvolvimento conhecem, já há algum tempo, as diferenças individuais no temperamento de bebês (e.g. mais chorões ou calmos) desde o momento em que nasceram praticamente; também sabe-se hoje que determinados genes vinculados diretamente à atividade cerebral e à certos processos fisiológicos são ativados ou desativados por eventos ambientais.
Um outro exemplo é a linha de pesquisa sobre emoções humanas e suas expressões faciais desenvolvida pelo psicólogo Paul Ekman, que, inspirado nos estudos iniciais de Charles Darwin acerca da expressão de emoções em animais e em seres humanos, encontrou em seus estudos de povos primitivos que a expressão das emoções básicas (raiva, alegria, tristeza, desprezo, medo, surpresa e nojo) são praticamente as mesmas na espécie humana (Ekman, Sorenson e Friesen, 1969; Ekman, 2003), ainda que culturas diferentes possam dar nomes diferentes e acrescentar à sua expressão pequenas sutilezas; o que Ekman chama de emblemas e ilustradores. Todavia, ainda hoje muitos cientistas da área de humanas rejeitam essas pesquisas e chamam Ekman de preconceituoso e racista.
Apesar de esses esclarecimentos terem sido absorvidos por alguma parte da comunidade científica, a negação da natureza humana ainda é algo comum em muitas universidades no mundo, como o psicólogo Steven Pinker ilustra e explora em um de seus livros, Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana. Conforme Pinker (2004):
"O tabu da natureza humana não só põe antolhos nos pesquisadores mas também faz de qualquer discussão sobre o tema uma heresia que precisa ser aniquilada. Muitos autores, de tão desesperados para desabonar toda insinuação de uma constituição humana inata, jogam a lógica e a civilidade pela janela. Distinções elementares – entre “alguns” e “todos”, “provável” e “sempre”, “é” e “tem de ser” – são sofregamente menosprezadas a fim de que a natureza humana seja pintada como uma doutrina extremista e, com isso, os leitores sejam conduzidos para longe dela.
A análise de idéias é comumente substituída por difamações políticas e pessoais. Esse envenenamento da atmosfera intelectual privou-nos dos instrumentos para analisar questões prementes sobre a natureza humana, justamente quando novas descobertas científicas as tornam críticas."
Até aí tudo bem, mas ela prossegue dizendo que “por exemplo, a necessidade de beber água é determinada por fatores culturais. Hoje os médicos afirmam qu devemos beber 2 L de água por dia, mas eu mesma só bebo um copo de água por dia, quando chego em casa de noite; e nunca morri por isso! Lá na Índia existem aqueles monges que são capazes de permanecer dias sem beber água e também não morrem por isso.” Isso foi chocante. Ou o caso de um outro porfessor meu que afirmou que a pressão arterial e seu valor ótimo é cultural, ou seja, podem existir culturas em que seus habitantes possuem uma pressão alta se comparada ao nível recomendado atualmente em nossa sociedade, mas que vivem normalmente sem ter nenhum prejuízo na saúde por conta disso.
Antes mesmo da presença marcante das ciências naturais no debate, como a genética comportamental e a neurociência, esse aspecto já havia sido explorado de alguma forma pelo psicólogo e médico suíço Carl Jung, por exemplo. Ele percebeu que existem diversos símbolos e conceitos de mitologias de povos diferentes, mas que são muito semelhantes. De fato, vemos certas estruturas presentes largamente por aí, tal como o arquétipo do herói, por exemplo, que rege a jornada de heróis como Jesus, Buda, Hércules, Ulisses e outros heróis mitológicos, independente de haver fundo histórico em suas narrativas. Um de nós já escreveu sobre as semelhanças entre histórias contadas de Buda e Jesus “aqui” e “aqui”.
Hoje em dia compreende-se que a pergunta “é inato ou aprendido” é, além de mal formulada, inútil e retrógrada, pois se baseia numa suposta oposição excludente entre o que é inato ou aprendido, quando de fato os dois conceitos não são opostos, e muito menos excludentes.
humana, selecionando as conclusões “politicamente corretas” às quais os cientistas podem chegar. Algo como “vocês cientistas não devem chegar à essas conclusões, olhem o que poderão estar estimulando”.
Segunda parte.
Ekman, P. (2003). Emotions revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York: Times Books.
Ekman P, Sorenson ER, & Friesen WV (1969). Pan-cultural elements in facial displays of emotion. Science (New York, N.Y.), 164 (3875), 86-8 PMID: 5773719
Pinker, S. (2004). Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana. São Paulo: Companhia das Letras.
* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING. André Rabelo é estudante de graduação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Além de ser editor do Blog Ciência - Uma Velha no Escuro, é colaborador do Blog de Astronomia do astroPT e do Bule Voador.
Deixem Que as Crianças Perguntem
Por André Souza*
Nós seres hu
manos gostamos de saber o porquê de tudo. Quem de nós nunca conversou com uma criança curiosa em saber por que o céu á azul, ou por que a luz acende quando apertamos o interruptor? Em outras palavras, desde cedo queremos sempre saber a causa das coisas. E mais interessante ainda, já aos três anos já explicamos as causas das coisas, ou o porquê que as coisas acontecem (pergunte a uma criança de três anos por que o céu é azul e tenho certeza que terá uma explicação bem pláusível -- pelo menos para ela).
Explicar o porquê que as coisas acontecem é, na verdade, uma atividade intelectual muito boa e importante para o desenvolvimento da criança. Vários estudos mostram, por exemplo, que as crianças aprendem matemática muito mais facilmente quando "explicam" um conceito, em oposição a quando elas apenas "lêem" ou "escutam" uma explicação sobre esse conceito. Por isso é importante que desde cedo incentivar o ato de criar explicações.
Basicamente, existem dois tipos de eventos que as crianças podem explicar. Um evento que é consistente com o conhecimento anterior que a criança já possui e um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento que a criança tem. Um exemplo: imagine que uma criança veja você apertar o interruptor para acender a luz do quarto. Como ela já viu você fazendo isso várias vezes antes, é parte do conhecimento prévio dela que a luz vai acenda. Isso é um acontecimento consistente com o conhecimento prévio da criança. Imagine, no entanto, que ao apertar o interruptor, a televisão ligue. Isso é um acontecimento que é inconsistente com o conhecimento prévio da criança.
Um estudo recente publicado esse ano no periódico Child Development pelos pesquisadores Cristine Legare, Susan Gelman e Henry Wellman investigou que tipo de acontecimento (consistente ou inconsistente) incentiva mais explicações das crianças. Nesse estudo, as crianças viam uma caixa que se acendia (ou não) quando uma outra peça era colocada em cima dela. Os pesquisadores mostravam para a criança duas dessas caixas e mostravam como as caixas funcionavam (por exemplo, se colocar o cubo azul sobre a caixa ela acende, mas se colocar uma outra peça, ela não acende). Logo após a apresentação das duas caixas, as crianças tinham a oportunidade de fazer as caixinhas funcionarem. No entanto, quando elas tentavam, uma das caixinhas não funcionava de acordo com o que elas viram antes.
O estudo mostrou que as crianças se interessaram muito mais pelos acontecimentos inconsistentes do que com os acontecimentos consistentes. Ou seja, preferiam explicações que tinham haver com o acontecimento inconsistente. E mais ainda. Os acontecimentos inconsistentes foram muito mais propícios a receber uma explicação causal por parte da criança. Em outras palavras, as crianças ficaram muito mais interessadas na "causa" do acontecimento inconsistente do que do acontecimento consistente.
O que isso quer dizer? Bom, muitos pais -- principalmente mães :-) -- tem uma mania muito feia de "preparar" o ambiente da criança o suficiente para que ela nunca encontre uma situação ou acontecimento que seja inconsistente com o que ela ja sabe. Para muitos pais, as crianças se sentem mal e não gostam de situações inconsistentes e adversas. E com isso controlam também as chances que as crianças têm de viver situações que incentivem explicações de natureza mais causal. O interessante de explicações causais é que elas, muitas vezes, não se baseiam apenas em característica superficiais (aparências), o que leva as crianças a buscarem as essências dos acontecimentos que vivenciam. Buscar essências acaba sendo uma característica intelectual importante na vida adulta.
É muito importante saber e entender a importância que nossos comportamentos diários com nossas crianças acabam, de uma forma ou de outra, influenciando o desenvolvimento intelectual e social delas.
E para aqueles que eu tenho certeza que ficaram curiosos para saber por que o céu é azul, aqui vai a explicação: existe um fenômeno conhecido como Rayleigh Scattering, que basicamente é uma forma de espalhamento da luz e de outras ondas eletromagnéticas. A luz do sol é formada por várias cores diferentes -- com ondas de diferentes tamanho --, mas devido à algumas substâncias presentes na nossa atmosfera, cores com ondas mais curtas (ex.: azul) são 'espalhadas' mais facilmente do que cores com ondas mais largas. Mas tenho certeza que vai te dar um pouco de trabalho para explicar isso para seu filho de 4 anos! :-)
Referência
Legare CH, Gelman SA, & Wellman HM (2010). Inconsistency with prior knowledge triggers children's causal explanatory reasoning. Child development, 81 (3), 929-44 PMID: 20573114
* André L. Souza é doutorando em Psicologia Cognitiva pela Universidade do Texas em Austin e escreve para o blog Cognando.
Os patinhos feios: A Resiliência.
Por Flávia Lopes*
Marcus V. Alves
* Flávia Lopes é Graduada em Psicologia pela Faculdade Ruy Barbosa e Mestre em Avaliação Psicológica pela Universidade São Francisco - Itatiba. Escreve no blog Conversas de Criança.
O efeito da guerra na mente infantil
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