Texto publicado no Ao Feminino e Além

A realidade às vezes é tão graciosa que em alguns momentos se esconde nos clichês mais batidos do conhecimento popular. Veja bem, não há nada que um clichê bem empregado e sob o controle certeiro e objetividade das evidências não possa demonstrar de forma interessante e clara. O último destes clichês que foi corroborado pode ser considerado uma comprovação para ser comemorada de algo que já era esperado, pois vai servir de argumento contra discurso conservador e fundamentalista que, baseado apenas em preconceito, possa vir a se colocar contra a adoção de filhos por casais do mesmo sexo. Um estudo recentemente publicado no periódico Demography, realizado pelo sociólogo Michael Rosenfeld, e que – segundo o próprio Rosenfeld – é o estudo com crianças cuidadas por pais do mesmo sexo com a maior amostra já coletada, demonstrou que o mais importante para um bom desenvolvimento e futuro sucesso educacional de uma criança não é a orientação sexual de seus pais, mas corroborou com aquilo que humanistas liberais já sabiam, sendo o tal clichê supracitado: Nada é mais importante que a família!
Ou melhor, o importante é ter uma família.
Uma família bem estruturada é fundamental para um bom desenvolvimento de uma criança, a saúde mental desta está altamente relacionada com o que acontece dentro das quatro paredes de seu lar, e isso pouco tem a ver com o quarto dos pais. Segundo Rosenfeld, filhos de uma relação “não tradicional” (assim ele chama no artigo) se saem tão bem quanto filhos de casais tradicionais em diversos fatores, como notas na escola ou sociabilidade, e muito melhor em diversos fatores do que crianças que vivem em orfanatos ou em famílias extremamente disfuncionais e desestruturadas durante o seu desenvolvimento. Em verdade, é preciso lembrar que pais que adotam uma criança – sejam eles “tradicionais” ou não – possuem uma grande tendência a estarem em um estágio da vida de pleno equilíbrio financeiro, educacional e, principalmente, um desejo imenso de se dedicar da forma mais plena àquela criança que entra em sua casa.
Este estudo só vem para fortalecer ainda mais o argumento em favor da ideia de que todos os indivíduos devem possuir direitos iguais, seja esse o direito a casa ou a ter um filho, pois estudos anteriores já haviam comprovado que crianças criadas por pais de mesmo sexo não “aprendem” a sexualidade e a orientação sexual parental – o que parece ser o medo de muita gente por aí. A cada evidência científica que surge, o argumento preconceituoso parece ruir aos poucos. Agora se tem mais uma certeza de que a sexualidade dos pais pouco vai interferir em relação aos cuidados educacionais de uma criança, talvez até o efeito ocorra de forma inversa, ajudando crianças a crescerem com um senso de respeito e liberdade que às vezes não é encontrado em famílias extremamente conservadoras e tradicionais.

Referência:
Michael J. Rosenfeld (2010). Nontraditional Families and Childhood Progress Through School Demography


O Dida, como é mais conhecido o professor Francisco Dyonisio C. Mendes, é atualmente professor de psicologia evolucionista (PE) na Universidade de Brasília (UnB). A sua carreira acadêmica está diretamente associada ao programa de psicologia experimental da Universidade de São Paulo (USP), no qual ele fez a maior parte da sua pós-graduação sob a orientação do professor César Ades.
Apesar de possuir um especial interesse e atuação na etologia ao longo de sua carreira, o professor Dida, assim como muitos outros etólogos brasileiros, tem se aproximado cada vez mais da psicologia evolucionista e desenvolvido projetos especialmente situados nesta área. Ele explorou com clareza algumas questões, muitas vezes mal compreendidas, sobre o estudo dos animais na perspectiva evolucionista nesta ótima entrevista cedida gentilmente por ele. Além disso, acreditamos que muitos comentários do Dida acerca da realidade que pesquisadores brasileiros enfrentam para conduzir suas pesquisas soarão familiares a muitos.

Dida, você pode nos contar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você está desenvolvendo em seu grupo de pesquisa atualmente e sobre os projetos que estão a caminho?
Cheguei há dois anos na UnB, e mantive o tema geral de pesquisa que desenvolvia antes na PUC-GO: evolução da flexibilidade comportamental.  No momento temos um grupo de pesquisa sobre evolução humana que inclui dois projetos de mestrado. O Vinícius estuda como a experiência prévia de relacionamentos influencia a forma com que homens e mulheres sentem ciúmes. O outro projeto, da Ana Flávia, é sobre dieta – investiga a relação entre neofobia alimentar (aversão a alimentos novos) e doenças como a diabetes e obesidade mórbida.
               Também pesquisamos o comportamento de um primata muito interessante sob o ponto de vista da flexibilidade comportamental – o macaco-prego. Este macaco se adapta a uma grande variedade de ambientes devido a sua capacidade de explorar de formas inovadoras – chega a usar pedras e outros objetos como ferramentas para conseguir alimentos, por exemplo. Há dois projetos de mestrado em andamento. Murilo está realizando experimentos para estabelecer se o uso de ferramentas pode diminuir o estresse e melhorar as relações sociais de macacos em cativeiro. Já o Túlio pesquisa a influência do fornecimento de alimentos por humanos na forma com que os macacos se alimentam e se comportam socialmente.
            A caminho temos um projeto da Thalita, em parceria com a Dra Clotilde Tavares do ICB, e o Dr. Sérgio Leme, sobre as interações entre os macacos-prego e humanos que visitam o Parque Nacional de Brasília. Além de investigar a flexibilidade destes macacos (como se adaptam à presença humana), o projeto irá ajudar o Parque a "controlar" o número de conflitos entre os macacos e humanos, já que os macacos às vezes roubam e ameaçam os visitantes.
       Tenho ainda algumas parcerias, como, por exemplo, um projeto que iniciei com o Dr. César Ades da USP, que infelizmente faleceu recentemente, e que estou dando continuidade com o Dr. Didier Demolin da IT-Grenoble (França), sobre a comunicação vocal de outro primata brasileiro, o muriqui. Este projeto é uma retomada de minha pesquisa de doutorado, e temos planos de enviar alunos para dar continuidade ao estudo. Participo também de um grupo de pesquisa do CNPq chamado “Etologia Cognitiva”, coordenado pelos Drs. Eduardo Ottoni e Patrícia Izar (USP) – o principal interesse é o uso de ferramentas por macacos-prego. Com o Dr. Sérgio Leme, aqui do PPB, colaboro com trabalhos sobre estresse e enriquecimento ambiental, como, por exemplo, em um projeto sobre estresse e eficiência dos cães farejadores da Polícia Federal de Brasília.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
     Eu “cismei” que ia estudar comportamento animal aos 12 anos de idade, e deixei meus pais loucos com isso =); na época quase ninguém falava em ecologia e meio ambiente, muito menos em etologia ou PE. Meu interesse então era apenas os animais (não humanos), e fui falar com o Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha da USP, um pioneiro da etologia no Brasil. Ele ficou meio surpreso com meu interesse meio precoce, mas me deu ótimas dicas e alguns anos mais tarde fui estudar fora, nos EUA. Na Universidade meu interesse pelos animais foi se tornando cada vez mais comparativo, ou seja, comecei a me intrigar pela complexidade do comportamento humano e sua relação com o comportamento de outros animais. Acabei me formando em Antropologia Física, e me especializando em primatas não-humanos, o que inevitavelmente me fez pensar em como o comportamento pode ser complexo e flexível. Com o tempo fui acomodando também pesquisas sobre a flexibilidade do comportamento humano, e acabei ingressando no grupo de “Psicologia Evolucionista” brasileiro. Hoje, a maioria das pesquisas de que participo tem esse aspecto comparativo entre o comportamento humano e o de outros animais, com ênfase na evolução da flexibilidade comportamental.

A ideia de flexibilidade comportamental é compatível com a perspectiva evolucionista?
“Evolução da flexibilidade” é realmente uma expressão que pode gerar certa desconfiança, já que por muito tempo se acreditou que a evolução de fatores biológicos, como a genética e a ação de hormônios, levariam inevitavelmente a comportamentos pouco flexíveis, com pouca ou nenhuma influência do meio ambiente. Mas isso é lenda... Nem genes, nem ambiente determinam sozinhos o comportamento, e a interação entre estes fatores pode ou não gerar flexibilidade.
     Para entendermos a evolução do comportamento humano temos que entender como a evolução gerou nossa enorme capacidade de nos adaptar, de forma flexível, a diferentes contextos ambientais e sociais. Nosso cérebro, principal responsável pela nossa flexibilidade comportamental, é fruto da evolução biológica, mas é enorme e desenvolve lentamente, de acordo com os estímulos que recebe do ambiente. A forma exata com que ele vai produzir pensamentos, emoções e comportamentos depende, portanto, da interação entre os genes que a pessoa herdou e o ambiente em que ela vive, e esta interação é bastante complexa. Por exemplo, Einstein certamente tinha genes muito favoráveis a um cérebro eficiente – genes que permitiram estruturas cerebrais saudáveis, muitas sinapses, boa mielinização das células, etc... Mas todas estas estruturas não teriam desenvolvido se não tivessem sido reforçadas pela experiência ao longo de sua vida, com os estímulos e contextos adequados. Se ele não tivesse nascido e crescido em um ambiente estimulante, provavelmente não chegaria à teoria da relatividade.
     Esta relação entre genes, sistema nervoso e ambiente do indivíduo tem uma história evolutiva. O sistema nervoso de uma minhoca, por exemplo, muda pouco em função de sua experiência de vida, e por isso o comportamento destes animais é pouco flexível. Por outro lado, a genética de animais mais próximos aos humanos, como os macacos, golfinhos e outros mamíferos gera um sistema nervoso mais “plástico”, capaz de modificar bastante em função dos estímulos que recebe, e por isso estes animais também têm comportamento mais flexível. Resumindo, nossa inteligência e flexibilidade comportamental são frutos de uma história evolutiva que merece ser estudada.

Qual é a importância de estudos com animais para compreender o comportamento humano?
     Este é outro assunto que costuma gerar polêmica. Quando um pesquisador compara o comportamento humano com o de outro animal, sempre há quem veja os resultados com ceticismo e reclama que nós humanos somos diferentes. Em parte isto é verdade: somos realmente diferentes... Mas as reclamações não fazem sentido - todas as espécies são únicas de alguma forma, não só os humanos. A ideia do método comparativo não é mostrar que duas espécies são iguais, muito menos mostrar que somos exatamente como os animais. O método consiste em descobrir o que as espécies animais têm em comum e em que diferem, e entender o porquê das semelhanças e diferenças. No caso do ser humano, as comparações devem levar em conta o fato que a evolução nos concedeu um cérebro “enorme” e consequentemente uma inteligência superior que nos permite passar informações através de uma linguagem simbólica e de valores culturais, por exemplo. Apesar disso, a cultura e a inteligência não anulam as influências biológicas, que são fruto de uma história muito mais antiga do que a “curta” história de evolução cultural. Quanto mais estudamos os animais, mais entendemos como a evolução gera uma grande diversidade de padrões comportamentais, e podemos aplicar isto para qualquer espécie, inclusive a humana.

Compartilhamos muitas coisas com outros animais, mas ainda assim “somos únicos”?
Humanos, chimpanzés e bonobos são muito parecidos entre si do ponto de vista genético, e as três espécies compartilham vários padrões de comportamento. Por exemplo, expressam as emoções básicas, como o medo, a raiva, a surpresa, a felicidade e a tristeza de forma bastante semelhante, usando os mesmos músculos. Nas três os filhotes nascem muito despreparados e passam muitos anos sob o cuidado intenso de adultos, e desenvolvem suas habilidades motoras e psicossociais lentamente. Por outro lado, há diferenças marcantes entre estas espécies. Os bebês humanos geralmente são cuidados por ambos os pais dentro de um núcleo familiar, já nossos “primos” primatas são cuidados principalmente pelas mães, dentro de uma sociedade com vários machos e fêmeas promíscuos. Os chimpanzés costumam resolver os conflitos com brigas e hierarquias, os bonobos com sexo, e os humanos de forma bastante variada, incluindo guerras entre países; nos chimpanzés os machos são os dominantes, nos bonobos são as fêmeas, e nos humanos há controvérsias =). Em outras palavras, conhecer o comportamento do chimpanzé ajuda, mas não é suficiente pra explicar o comportamento nem mesmo de seus parentes mais próximos, o bonobo e o ser humano. Como disse anteriormente, é preciso entender como funciona a evolução para entender não só as semelhanças, como também as diferenças. No caso dos humanos, algumas das diferenças que temos com nossos parentes mais próximos tem a ver com o fato que há cerca de 6 milhões de anos  nossos ancestrais passaram a habitar ambientes mais abertos e inóspitos, enquanto a linhagem dos bonobos e chimpanzés permaneceram em ambientes de florestas, e só passaram a habitar ambientes diferentes há muito pouco tempo.

Como se dá está interação complexa entre as nossas predisposições genéticas e a cultura? Você poderia dar um exemplo de como isso acontece?
Acho que o comportamento reprodutivo humano é um bom exemplo desta interação entre as influências da biologia, da inteligência e da cultura. A evolução nos deu diversos mecanismos biológicos para lidar com a tarefa biológica da reprodução. Na adolescência nosso corpo muda em função destes mecanismos biológicos, e de repente passamos a reagir a estímulos e nos comportar de uma forma totalmente nova. Por exemplo, passamos a nos interessar pelo sexo oposto, que antes parecia não tão interessante assim; começamos a emitir sinais não verbais de interesse e paquera que são iguais em todo o mundo; desde cedo somos atraídos por características do sexo oposto que indicam bons genes (simetria, pele bonita, saúde etc.). Há também evidências de algumas diferenças universais entre homens e mulheres adultos em relação ao que procuram em seus parceiros ideais: os homens se preocupam mais com a beleza física do que as mulheres; as mulheres são em geral mais exigentes e se preocupam mais com qualidades relacionadas à capacidade de gerar recursos (escolaridade, nível socioeconômico, ambição). Estes são exemplos que indicam um papel importante da biologia na reprodução humana, e há explicações evolucionistas para a origem dos mecanismos biológicos reprodutivos, como argumenta o psicólogo evolucionista David Buss (ver, por exemplo, o livro traduzido para o português: Paixão Perigosa).
     Por outro lado, a biologia só gera tendências que precisam desenvolver ao longo da vida. Várias áreas da Psicologia mostram como o ambiente familiar, o meio social e os valores culturais modelam estas tendências durante o desenvolvimento do indivíduo. Aprendemos a nos conter quando é preciso, e como usar os sinais biológicos de forma mais eficiente. Também procuramos características em nossos parceiros, como o companheirismo e interesses similares, que ajudam o convívio, quando o interesse é um relacionamento duradouro. Pessoas religiosas querem se casar com pessoas religiosas. Estes são apenas exemplos que ajudam a entender porque tanto homens como mulheres variam muito na forma com que são atraídos pelo sexo oposto, e porque mudamos a forma de nos comportar e procurar parceiros conforme aprendemos com o ambiente.

A PE tem ganhado espaço no Brasil, mas ainda é uma abordagem nova por aqui. Como você vê a situação atual da PE brasileira e a relação dela com outras áreas da psicologia?
A PE é uma área relativamente nova da psicologia, nasceu nos EUA há poucas décadas. No Brasil formou-se um grupo de pesquisa da ANPEPP em 2004, liderado pela Dra Maria Emília Yamamoto da UFRN. O grupo tem crescido bastante desde então. Hoje somos mais de 20 pesquisadores de diferentes Instituições de Ensino Superior que colaboram entre si em diversos projetos. Alguns, como os Drs. Eduardo Ottoni, Patrícia Izar, e o saudoso César Ades da USP, a Dra. Suemi Tokumaru da UFES, e o Dr. Mauro Vieira da UFSC, começaram na etologia; outros, como as Dras. Maria Lúcia Seidl-de-Moura da UERJ, Eulina Lordelo da UFBA, Ângela Donato Oliva da UFRJ, e Regina Brito da UFPA, vieram de outras áreas da psicologia, em particular da psicologia do desenvolvimento.
  Eu acredito que a PE ganha muito quando agrega conceitos e métodos de diferentes áreas. Queremos entender a relevância da evolução para compreender como os humanos pensam e se comportam, mas não podemos ignorar o que outras áreas têm a oferecer, em particular as contribuições da psicologia cognitiva, da psicologia social, da psicologia do desenvolvimento e mais recentemente das neurociências. Podemos fornecer teorias sobre a origem evolutiva, as funções adaptativas e a influência de fatores biológicos no comportamento, mas como vimos acima, isto não é suficiente para explicar a complexidade do ser humano. Entender a evolução e biologia humana sem dúvida é necessário, não deixamos de ser animais porque nos tornamos, nos últimos 10.000 anos, capazes de dominar a natureza... mas precisamos também levar em conta as outras dimensões do ser humano, como a cognição, a sociabilidade e a cultura. Melhor ainda, precisamos entender como estas dimensões interagem com a dimensão biológica, como genes e ambiente andam juntos para gerar nosso comportamento altamente flexível.

É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Para ser um pesquisador em psicologia, é preciso ser professor de uma instituição de ensino superior, de preferência uma que tenha um programa de pós-graduação. Há algum tempo, isto significava principalmente dar aulas e fazer pesquisa. Hoje, acredito que duas mudanças atrapalham um pouco a pesquisa. Primeiro, ser professor virou um emprego multitarefas – ensino na graduação e na pós, pesquisa, extensão, administração, orientação de alunos, representações em comissões, divulgação na mídia, inúmeras reuniões burocráticas... Segundo, há uma ênfase muito grande na quantidade, e menos na qualidade. Isto quer dizer que para ser bem avaliado, o professor tem que fazer muito de cada uma dessas tarefas. Em minha opinião, é a pesquisa que sofre mais com estas demandas. Fazer pesquisa de boa qualidade requer tempo e dedicação – tempo para acompanhar a literatura especializada, para planejar e executar a coleta, para analisar, tempo para pensar! No fim, boa parte dos bons pesquisadores brasileiros trabalham bem mais do que 40 horas semanais, e estão sempre correndo contra o tempo com os prazos de editais e relatórios.

Existem mudanças que facilitariam o seu trabalho?
Não sei como mudar essa situação em curto prazo, só acho muito estranho que para ser professor universitário passamos muito tempo no mestrado e no doutorado aprendendo basicamente a fazer pesquisa, e depois lutamos para poder orientar e conduzir pesquisas no tempo que nos sobra entre reuniões e outra tarefas. Bom, não posso reclamar muito, porque estou em uma universidade muito boa, aonde a pesquisa é valorizada e os alunos são muito bons e interessados em pesquisa. A gente “sofre” um pouquinho, mas consegue levar os projetos adiante.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
  Meu pai gostava muito de uma parábola de um escritor argentino, Constancio C. Vigil, sobre um velho sábio que era famoso pelos conselhos infalíveis que dava aos mais jovens. O velho sempre pedia segredo a respeito da conversa e sempre dava o mesmo conselho: “simplifica meu filho, simplifica”. Ninguém sabia que o velho já era completamente surdo e, portanto, nem fazia ideia de quais eram os problemas daqueles que o procuravam; mas isso não importava, porque o conselho sempre funcionava.
  Acho que a simplicidade e soluções simples podem realmente ter grande utilidade pra muitas coisas, inclusive na pesquisa. Isto não implica em fechar os olhos para as complexidades do mundo, mas sim ter a capacidade de olhar o fenômeno tal e qual ele se apresenta. César Ades, por exemplo, dizia a seus alunos que antes de retorcer uma ou mais teorias para explicar o comportamento dos sujeitos de pesquisa, tínhamos que prestar atenção ao que os animais (sujeitos) nos diziam com seu comportamento, mesmo que eles nos decepcionassem um pouco pela simplicidade. Pensar assim é geralmente útil pra se chegar a boas hipóteses e métodos para testá-las... se a realidade for mais complexa, nos aproximamos dela passo a passo, eliminando primeiro explicações mais simples.   

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Nosso grupo de PE na ANPEPP publicou recentemente um livro pela editora Guanabara Koogan, que acredito ser um bom texto inicial para quem tem interesse em conhecer a área.

Otta, E., & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!

30.3.12

O enigma da experiência x memória

Postado por Marcus Vinicius Alves |


O psicólogo prêmio Nobel Daniel Kahneman deu uma palestra para o TED -  série de conferências sobre tecnologia, ciência e desenvolvimento - sobre as diferenças entre o que ele chama de "eu (self) da experiência" e o "eu (self) da lembrança", nomes arbitrários, claro, utilizados para poder ilustrar uma grande diferença que ocorre no nosso dia a dia em relação às experiências que temos e as "histórias" (ou recordações) que possuímos delas a partir de detalhes, como o resultado final, o valor da experiência etc. Relembrando muito a teoria da Dissonância Cognitiva e das Falsas Memórias.





Helmuth Krüger
No início deste ano de 2012, a Universidade Católica de Petrópolis (UCP) abriu um programa de pós-graduação em psicologia, com a área de concentração em cognição social. Foi com muita alegria e entusiasmo que o André e eu recebemos esta notícia, assim como alguns psicólogos sociais brasileiros interessados nesta subárea! Recomendamos a estudantes interessados na área que busquem informações sobre este programa aqui.
O diretor do programa, o professor Helmuth Krüger, nos concedeu uma entrevista discutindo questões relacionadas à cognição social no Brasil e à psicologia de maneira mais ampla, nos fornecendo um panorama de um profissional que vivenciou boa parte da construção da psicologia brasileira e que agora investe seus esforços na consolidação da cognição social no Brasil.
O professor Krüger é formado em filosofia e em psicologia pela Universidade do Estado da Guabanabara (atual UERJ), é mestre em psicologia aplicada e doutor em psicologia pela Fundação Getúlio Vargas – FGV e por mais de vinte anos foi professor efetivo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Universidade Gama Filho. Sem dúvidas o Professor Helmuth Krüger é um dos grandes nomes da psicologia nacional, além de ter orientado uma grande geração de pesquisadores da psicologia social comprometidos com a ciência e a ética na psicologia. Para mais informações sobre o trabalho do professor Krüger, dê uma olhada no currículo dele aqui.

Helmuth, você poderia nos falar brevemente sobre os projetos de pesquisa que você tem conduzido no seu grupo de pesquisa?

Na UCP realizamos estudos e pesquisas sobre temas diversos da psicologia contemporânea. Entretanto, os meus interesses têm sido voltados para a cognição humana, destacando a cognição social. Assim, nos últimos 3 anos investiguei, com a colaboração de dois bolsistas de Iniciação Científica (CNPq), “Crenças de estudantes de Psicologia”, ”Formação de primeiras impressões de pessoas” e “Socialização e identidade transcultural”. Além dessas pesquisas, escrevi alguns textos de natureza teórica, destacando-se os abaixo referidos, que foram publicados em 2011:
“Ideologias, sistemas de crenças e atitudes”. In: Camino, L. et al. (2011). Psicologia Social: Temas e teorias. Brasília: Technopolitik.
“Ética e psicoterapia”. In: Range, B. (2011). Psicoterapia cognitivo-comportamental: Um diálogo com a Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed.

E quais são os projetos de pesquisa para o futuro?

No momento, estamos a realizar uma pesquisa sobre “Flexibilidade pessoal e estrutura lógica de sistemas de crenças”. Esta pesquisa será experimental, havendo quatro hipóteses a corroborar, resultantes da combinação da flexibilidade pessoal (alta e baixa) e estrutura lógica de sistemas de crenças (forte e fraca). Na fase atual, ocupamo-nos com a elaboração de uma escala de flexibilidade pessoal, tomando a contribuição de Milton Rokeach como referência.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa e quais as linhas de pesquisa em cognição social de seu maior interesse? 

De modo geral, posso dizer que os meus interesses de estudo e de pesquisa são o resultado natural de minhas experiências intelectuais e profissionais, sendo as relacionadas ao magistério as mais marcantes. Contudo, devo reconhecer que esses interesses também decorrem dos meus estudos no domínio da Filosofia. De fato, antes de realizar minha formação em psicologia, obtive minha licenciatura em Filosofia, em 1964. No momento, venho estudando a influência de fatores não conscientes na cognição social. Trata-se de um tópico que cada vez mais vem chamando a atenção de estudiosos. Mas, neste ponto, cabe observar que os processos inconscientes destacados para fins de investigação na cognição social não se confundem com a interpretação psicanalítica, uma vez que no caso da cognição social se trata muito mais daquilo que há quatro décadas vem sendo referido como “inconsciente cognitivo”.

Você considera que a comunidade da psicologia social no Brasil é aberta à cognição social ou há alguma resistência?

Há muita heterogeneidade na pesquisa e na prática da psicologia no Brasil e, até certo ponto, tal situação pode ser qualificada como sendo positiva, principalmente devido ao fato de que ela favorece o debate. A homogeneidade não produz esse efeito. No entanto, a acentuação das diferenças pode se fazer à custa da consistência teórica e do rigor empírico, afetando, neste caso, negativamente a psicologia. De outro lado, a considerar sua pergunta, não consigo identificar, até o momento, qualquer reação adversa à pesquisa da cognição social no Brasil. É bem provável que ao menos duas circunstâncias estejam a contribuir para este estado de coisas: o fato da cognição social ser uma abordagem da psicologia social de recente introdução no Brasil; e, o destaque concedido a esse assunto no plano internacional, favorecendo a formação de crenças socialmente compartilhadas a respeito de sua relevância. Havendo manifestações críticas à cognição social, elas muito provavelmente serão baseadas em dois argumentos: o que ressaltará a origem notadamente estadunidense, por conseguinte, estrangeira, desse tópico, que sob uma ótica política seria considerado de escasso interesse para projetos de intervenção em comunidades brasileiras socialmente desfavorecidas; e, o que retomará, de um modo ou de outro, os pronunciamentos já antigos das limitações dos métodos experimentais na psicologia.

Em sua opinião, qual é a importância da pesquisa empírica em cognição social e como você vê que ela poderia ser operacionalizada nas universidades brasileiras?

A investigação científica (tomando-a como expressão de significado amplo, englobando estudos teóricos e pesquisas empíricas e experimentais) pode ser realizada sob três perspectivas: a estritamente teórica; a empírica, destituída de fundamentos teóricos consistentes; e, a combinação destas duas, resultando em investigações de caráter teórico-empírico e teórico-experimental. A melhor delas é esta última. É a melhor porque combina a exigência da organização lógica das hipóteses ou, se for o caso, tratando-se de pesquisas de superior maturidade científica, da consistência da teoria, e a coerência factual dos elementos informativos de procedência empírica. De imediato, as exigências a atender a fim de promover tais pesquisas tendo por foco temas da cognição social são essencialmente duas: conhecimento sobre esta matéria e treinamento em pesquisa. Tais exigências podem ser atendidas em universidades brasileiras.

Você observou a psicologia no Brasil florescer e se modificar ano após ano e ainda hoje permanece publicando, ensinando e orientando alunos. O que o motiva a prosseguir o seu trabalho?

Eu poderia dissertar sobre o significado desta pergunta, mas se assim viesse a proceder certamente iria compor uma resposta monótona, por ser muito pessoal. Assim, com o objetivo de abreviar a resposta, observo apenas que concordo com a declaração de Johann Heinrich Pestalozzi (1746 – 1827), inserida em sua obra “Aforismos sobre o Homem”: “Aquele que sabe e não ensina é o pior pecador de todos”. Acrescentaria apenas: “aquele que (racionalmente baseado) supõe saber”.

É possível dizer que hoje a psicologia no mundo é mais consolidada em termos de paradigma, indo de encontro ao que às vazes é dito em sala de aula, chamando a psicologia de uma protociência ou ciência pré-paradigmática? 

As expressões `protociência`, `ciência pré-paradigmática` e `paradigma` tiveram ampla circulação na década de 1960, tendo sido empregadas por Mario Bunge e Thomas Kuhn, dentre outros autores, cujas obras eram muito lidas e discutidas naquela época. Atualmente, são menos empregadas, embora possam, dependendo do argumento, revelar sua utilidade. A meu ver, a psicologia, tanto como ciência quanto como profissão, tem como uma de suas principais características a dispersividade. De fato, não consigo visualizar um futuro para ela que venha a ser marcado pela unidade temática, metodológica e de práticas profissionais. Nem mesmo o significativo desenvolvimento atual da psicobiologia, da psicologia fisiológica, da psicologia genética, da psicologia evolutiva, bem como das relações cada vez mais estreitas entre ela e as neurociências, oferecem a esperança de obtenção de maior homogeneidade neste ramo das ciências contemporâneas. No meu entendimento, em grande parte a situação ora considerada resulta do fato de não encontrarmos acordo quanto aos pressupostos filosóficos da psicologia, especialmente os relacionados à concepção que formamos a respeito de nossa natureza e condição no mundo. Em síntese, não dispomos de teorias gerais na psicologia. Não há, apenas para ilustrar, uma teoria geral da motivação, das emoções e da aprendizagem. Na realidade, teorias psicológicas são teorias de médio alcance.

É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?

Não, mas também não é tão fácil assim. Para profissionais desejosos de se dedicar à investigação científica, a condição institucional que mais lhes favoreceria neste sentido seria a da docência em universidades públicas ou particulares, que estejam mobilizadas para a busca de conhecimento. A ciência, qualquer que seja o seu ramo, é muito valorizada na atualidade, pois, o conhecimento dela derivado, embora possa ser utilizado para fins política e eticamente condenáveis, contribui na ampliação de nossa liberdade, possibilitando-nos a crítica e a rejeição de superstições, crendices e preconceitos, quer dizer, torna-nos menos ignorantes.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?

Pensando bem, conselho propriamente não me recordo de haver recebido. Obtive sugestões, tendo sido uma delas muito importante para o direcionamento de ao menos parte de minhas motivações para o estudo e a pesquisa na psicologia. Refiro-me às palavras muito expressivas do Professor Eliezer Schneider (1916 – 1998), dirigidas a mim, na oportunidade em que iniciava as minhas atividades docentes na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1971. Naquela ocasião, pensava em dedicar-me a temas da psicologia geral, como aprendizagem e motivação, e complementarmente, à filosofia da psicologia, mas tinha sido indicado para lecionar a disciplina psicologia social no curso de ciências sociais. Essa indicação não me deixou particularmente satisfeito. O professor Schneider, tendo tomado conhecimento de minha insatisfação, observou que as minhas experiências familiares e o biculturalismo delas resultante, tal como havia ocorrido com ele, as quais foram vivenciadas (tanto por mim quanto por ele) em relações sociais bastante complexas, deveriam deixar-me mais interessado em estudar, pesquisar e ensinar psicologia social. Só posso dizer que levei muito em conta o que ouvi do professor Schneider.

Quais são as suas expectativas em relação ao futuro da psicologia brasileira?

Boas. Podem ser melhores se houver mais cuidado no processo de formação de psicólogos no Brasil. Refiro-me em especial a aspectos relacionados à formação científica, que demandam muita atenção à análise conceitual, à amplitude de conhecimento, necessária à obtenção de uma visão intelectual mais ampla de nossa condição no mundo, às competências cognitivas, às habilidades técnicas necessárias à pesquisa e à intervenção e à disposição de submeter o conhecimento, assim como a nossa própria experiência, ao escrutínio de nossa reflexão. No momento, há cerca de 250.000 psicólogos no Brasil, mas podemos perguntar, tomando como referência padrões internacionais, qual é a contribuição teórico-científica de psicólogos brasileiros? Segundo o CNPq, atualmente, a contribuição científica conjunta da psicologia e da psiquiatria deste país no plano internacional alcança apenas 0,62%. Esta média é bastante inferior à média de toda a contribuição científica brasileira no plano internacional, que é 2,1%.

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?

Para iniciantes, recomendaria a leitura de alguns capítulos da seguinte obra:
CAMINO, Leôncio; TORRES, A. R.; LIMA, M. E.; & PEREIRA, M. E. (2011). Psicologia Social: Temas e teorias. Brasília: Technopolitik.
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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!

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