A correria das cidades, a falta de tempo para realizar todas as tarefas requeridas diariamente, o afastamento das pessoas com que se convive, o embotamento afetivo e a presença cada vez mais intensa de estímulos distratores tem feito vir à tona um número expressivo de casos em que pessoas se encontram inquietas e incapazes de focar sua atenção, e assim, a mídia vai considerando esta incapacidade como um possível mal do século. Veja esse vídeo:







Achei esse vídeo interessante, é de um grupo que resolveu filmar uma série chamada “Fala que eu não te escuto”, nele, um dos integrantes pede informações para as pessoas e aproveita emendando frases absurdas em sua fala. Frases estas que acabam passando despercebidas. No vídeo as perguntas vão progressivamente sendo feitas com mais clareza, mais altas e, inclusive, com auxílios visuais, como tirar a camisa para tentar fazer o estímulo ser mais perceptível. Mesmo assim as pessoas se atém somente em responder à pergunta feita. Seria esse apenas um sinal de desinteresse com o dito após a pergunta ou uma incapacidade relacionada ao processamento corrente da própria pergunta feita e que interfere a apreensão de informações que seriam possivelmente irrelevantes?



A atenção pode ser definida como a alocação preferencial de recursos cognitivos para eventos que sejam mais relevantes para o indivíduo, é um tipo de processamento que permite a seleção de estímulos, e se caracteriza como o nome dado ao caráter direcional e à seletividade dos processos mentais organizados. A atenção não é mediada por uma única região cerebral, e nem pelo cérebro como um todo, mas por redes neurais, sendo uma delas difusa, que se caracteriza pela atenção global, ocorrendo no Tálamo e nos dois hemisférios cerebrais, e a focal, possuindo especialização espacial, se localizando em regiões frontais e parietais, principalmente no hemisfério direito do cérebro.



A atenção, ao permitir o processamento de uma quantidade limitada de informações de forma qualitativamente independente, pode ser dividida em subtipos, como a atenção seletiva, onde ocorre o foco em um estímulo de cada vez. A atenção seletiva ocorre quando há a seleção de parte de estímulos disponíveis para o processamento, onde as outras informações disponíveis ficariam então ‘suspensas’, direcionando o foco para estímulos relevantes em detrimento de distratores – tanto internos (que seriam traços de memória), quanto externos (como exemplo, no vídeo, a fala ignorada pelas pessoas). A atenção seletiva pode modular o processamento de informação antes mesmo de serem apresentadas tarefas ou estímulos, sendo crucial para a eficiência da tarefa posterior. Ou seja, quando um carro se aproxima de um indivíduo parado na rua, já se inicia uma preparação para a tarefa que está por vir – pois a pessoa previamente deve supor que alguma informação será pedida - e assim, o processamento direcionado para a resolução da tarefa, uma seleção que exclui qualquer informação desnecessária. Outra característica do processo atencional é que nele ocorre também uma alternância no direcionamento do foco dos estímulos, poderíamos supor que se o nome dessas pessoas fosse chamado ela tenderia a prestar atenção novamente ao que falava o indivíduo, mesmo que somente em algumas informações, ou, por exemplo, se ao invés de um homem sem camisa, estivesse na direção do veículo uma mulher, pois tal quadro é muito mais incomum.

Diversas funções cognitivas dependem da atenção. A incapacidade de selecionar estímulos e prestar atenção neles acaba por influenciar também o esquecimento, pois a atenção é altamente relacionada com a memória, a recordação de informações necessitam antes que estas tenham sido percebidas de forma precisa, com atenção. Ademais, esta incapacidade favorece o automatismo, ou seja, onde as pessoas agem sem ter um controle consciente das suas ações, devido, por exemplo, a ter um grande número de estímulos disponíveis e pouco tempo para selecioná-los. 

Outro fator que age diretamente na atenção é o interesse e a necessidade do indivíduo, pois estes motivam e guiam a seleção dos estímulos, como exemplo temos o dito pelas mães sobre os filhos que conseguem prestar atenção em um videogame ou um programa de televisão, mas não às suas “sugestões” de arrumar o quarto ou nas instruções básicas do manual materno de como evitar morrer por hipotermia ao usar o casaco ao sair de casa (em qualquer horário, com qualquer temperatura). Diversas desordens psiquiátricas sofrem déficits atencionais, como exemplo, o famoso Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No TDAH o que acontece não é uma incapacidade de selecionar os estímulos mais interessantes para si, mas sim o impedimento da 'inibição ativa' de estímulos, ou seja, a criança ou adulto não consegue impedir que estímulos distratores façam com que ela perca a atenção em uma tarefa, por mais motivadas que estejam a conseguir esse foco. Essa é uma compreensão importante do TDAH, pois como é um transtorno infantil e muitas vezes relacionado com um mau desempenho escolar, acabam-se criando justificativas plausíveis, porém irreais, para a desatenção que acomete esses indivíduos, como a pobreza, diferenças entre classes sociais, uma má relação familiar, entre outros. A atenção é sim influenciada por diversos fatores, tanto ambientais quanto internos, tanto sociais quanto fisiológicos, e mesmo o sistema de crenças e a memória dos sujeitos, mas os déficits atencionais encontrados em crianças e adultos com TDAH estão presentes em famílias de qualquer classe social, com crianças bem ou mal estimuladas, e em famílias estruturadas ou não. Todos esses pontos podem agravar um caso de TDAH, mas não causá-lo.



Voltando ao vídeo, ele seria um retrato do desleixo com o ouvir ou é uma apresentação da forte concorrência entre o processamento requerido com o pedido de informação e a capacidade de atenção? Em texto anterior, foi falado sobre a categorização que ocorre entre as pessoas e como uma indisponibilidade atencional facilita pensamentos estereotipados, igualmente, com a sobrecarga do processamento ao realizar diversas tarefas, o resultado é uma seleção de estímulos que acaba por não se considerar as frases ditas posteriormente. No vídeo do "Fala que eu não te escuto" a tarefa interfere na possível aquisição das outras informações. 

Só mais um vídeo, esse de uma campanha antiga e você já deve conhecer, mas vale a pena vê-lo de novo:




Resumindo, a Atenção é importante e existe por ter sido um processo que durante a evolução foi fundamental para a sobrevivência, permitindo o foco em informações mais pertinentes para esta, e até hoje pode ser a linha que garante que algumas vidas sejam salvas ou pelo menos não sejam tiradas, como em acidentes de trânsito. Ou quando nós formos explodir uma bomba no Ibirapuera algum dia...



Hã? 


 ResearchBlogging.orgBenczik, E; & Casella, E. B. (2007). Atenção. Alguns Domínios da Avaliação Psicológica.
 
Coutinho, G.; Mattos, P.; & Abreu, N. (2010). Atenção. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed.

Karatekin, C. (2001). Developmental disorders of attention. In C. A. Nelson & M. Luciana (Eds.), Handbook of Developmental Cognitive Neuroscience (pp. 561-576). Cambridge, MA:  MIT Press.


Fundada em 1930 por Konrad Lorenz e Nikolas Tinbergeen, a Etologia é uma área do conhecimento relativamente nova. O foco das questões da ciência etológica é o comportamento animal e suas nuances. A Etologia visa observar o comportamento animal – humano ou não – a partir de princípios que coadunem com as ideias básicas advindas da teoria da evolução, na lógica da função adaptativa dos comportamentos e da seleção destes comportamentos por meios naturais. Para a Etologia, então, o comportamento é produto e instrumento do processo evolutivo, sendo selecionado em função ao que se refere à capacidade de sucesso reprodutivo que surge da existência dele e possui um alto grau de determinação genética.

O Etólogo ao se deparar com um comportamento tende a fazer quatro perguntas que são fundamentais para o entendimento do comportamento animal em pelo menos parte de toda a sua complexidade. As perguntas feitas comumente pelos estudiosos são: a) Qual é a função do comportamento estudado? (do ponto de vista adaptativo); b) Qual a causa deste comportamento? (fatores causais próximos); c) Como tal comportamento se desenvolve ao longo da vida do indivíduo? (ontogênese); e, por fim, d) Como o comportamento se desenvolveu no decorrer da história evolucionária? (filogênese).

O alvo dos estudos feitos por pesquisadores da etologia podem tomar formas tão diferentes quanto a imensa variedade dos animais presentes do planeta. Os cientistas do comportamento animal tendem a estudar uma gama de tópicos só comparável ao leque da própria psicologia, pois podem em suas pesquisas enfocar desde o comportamento sexual de pequenos animais e insetos até as funções executivas de primatas, buscando com esse conhecimento, entender um pouco mais destes seres com quem a humanidade convive, e assim, entender também um pouco mais sobre os caminhos evolutivos que parecem ter direcionado cada espécie a ser o que se apresenta hoje, inclusive o ser humano.

Em paralelo ao surgimento da Etologia na década de 30, a Psicologia vivia o auge da abordagem comportamentalista e assim este novo olhar acabou por ser fortemente influenciado pelo ideal behaviorista de estudo científico, que visava estipular como objeto do estudo experimental da psicologia o comportamento observável e os processos referentes à interação destes, a partir de experimentos bem delineados, que imputava às respostas comportamentais uma relação causal com estímulos previamente apresentados e a consequente confluência ambiental resultante da ação primeva. Mesmo assim, embora o estudo do comportamento animal por anos tenha se atido à observação inexorável de respostas comportamentais para estímulos diversos e suas consequências, nunca se limitou a fazer perguntas que extrapolassem o escopo teórico e a limitação  tecnológica vivida pela psicologia da época. Ao observar cada espécie em sua particularidade a Etologia acabou por dar ênfase às especificidades de cada uma e ao estudo do ambiente natural onde tais peculiaridades ocorrem, sendo assim, de forma alguma poderia ser estudada que não segundo uma maior flexibilidade metodológica.

O estudo da cognição animal se limitava tanto quanto o estudo das capacidades cognitivas humanas sob a égide do raciocínio comportamentalista, todavia, como exemplo de diversas pesquisas que pretendiam entender um pouco mais sobre este aspecto – na época ainda de improvável comprovação – é possível lembrar pesquisas feitas por teóricos direcionados a qualquer uma das duas disciplinas, tanto a Psicologia quanto a Etologia se permitiam conjecturar sobre as capacidades da cognição humana. Embora alguns pioneiros na testagem da capacidade e atuação cognitiva de animais não sejam especificamente denotados como estudos de etologia, pois tinham como pretensão teórica testar hipóteses referentes a diferentes saberes da psicologia com perspectivas comparativas como aprendizagem, memória e outros, é possível estabelecer uma grande relação de conhecimento que advém destes estudos, e que reflete no desenvolvimento de teorias acerca dos processos mentais de animais não humanos. 

Um dos primeiros etólogos, laureado com um prêmio Nobel, Konrad Lorenz, estudou além de comportamentos agressivos nos animais – posteriormente analisando a ocorrência deles em humanos – também a intensidade da primeira formação mnemônica de aves e que se constitui duradoura para toda a vida, processo esse chamado de estampagem (imprinting), onde alguns pássaros ao nascer tendem a seguir o primeiro ser móvel que observam. As peculiaridades desse processo de estampagem ainda não foram totalmente descobertas mesmo nos tempos atuais, sendo encontradas em diversos tipos de animais, e servido de interconexão com processos do desenvolvimento em humanos. 

Lorenz sendo seguido pelos seus "filhos"

Além de Lorenz, outros estudos podem ser lembrados, mesmo antes da criação da Etologia. Em 1925, divergências sobre como as capacidades de aprendizagem humanas eram apresentadas na época foram testadas pelo psicólogo Wolfgang Köller, um dos mais famosos psicólogos da teoria da forma, buscando ir de encontro a teorias conexionistas de Thorndike que estavam em voga e utilizando como participantes de seus estudos chimpanzés, assim representando a possibilidade da cognição humana a partir dos processos mentais destes primatas. Os estudos de Thorndike focavam na capacidade dos animais de aprenderem a partir da tentativa e erro e da recompensa ganha após uma ação aprendida, para demonstrar a existência de processos que não os quais intricados nas teorias conexionistas, Köller desenhou um experimento onde para alcançar um determinado alimento, o chimpanzé participante de sua pesquisa deveria mover uma caixa de forma que pudesse subir nela a ponto de obter sua recompensa. O observado por Köller foi que, após uma série de tentativas frustradas, o animal parecia se resignar à impossibilidade de obter o seu prêmio, sentando distante e observando a sua situação, apenas para posteriormente voltar à ação e em uma tentativa apenas conseguir ser bem sucedido. O que se entendeu desse experimento foi que, possivelmente, enquanto estava sentado o animal teria chegado à solução do seu problema, obtido um insight, indo de encontro ao que seria proposto pela lei da tentativa-e-erro.

O psicólogo behaviorista e teórico da aprendizagem Edward Tolman em 1948 lançou uma série de estudos que visavam discordar do autor idolatrado por psicólogos comportamentalistas, B. F. Skinner. Tolman acreditava que a aprendizagem não poderia existir apenas sob a lógica do condicionamento instrumental, mas também existia sem a ocorrência de qualquer consequência significante após a ação feita. Para Tolman, era preciso também considerar as intenções e objetivos de um sujeito ao realizar um comportamento, além da capacidade filogenética para aprender naturalmente. 

Para analisar tal hipótese, ele usou de diversos experimentos, em um deles, em um labirinto em forma de T, era concedido aos ratos um reforço apenas se fosse à direção de um dos dois braços (ex. direita). Após uma série de ocorrências, o experimentador trocava a posição inicial do rato, invertendo a posição também de onde estaria a recompensa. Sendo assim, caso o rato permanecesse indo para a posição anteriormente reforçada (ex. direita), a aprendizagem seria apenas motora ou condicionada instrumentalmente, mas caso passasse a ir para o outro lado (ex. esquerda), onde o reforço agora se encontrava, a aprendizagem do animal teria se dado não apenas pelos movimentos feitos e reforçados, mas pela sua capacidade de compreender o espaço ao redor, ao mapa cognitivo do ambiente que havia construído, o que de fato ocorreu. A essa aprendizagem por meio de mapas cognitivos se deu o nome de aprendizagem latente, pois parecia que as informações apreendidas pelos organismos não surgiriam apenas por meio de consequentes reforçadores, mas também pela intencionalidade de utilizá-la.

Os estudos em cognição animal – chamados de Etologia Cognitiva – hoje avançaram de forma considerável, a partir do avanço metodológico que veio com a Revolução das Ciências Cognitivas nas áreas de estudo do comportamento; tecnológico, a partir da criação de computadores, testes e aparelhos de análise potente de circuitos neurais; e de aporte teórico, com a formação da Psicologia Evolucionista. Essa é uma área que ainda se reserva para muitas descobertas futuras e que possui retornos interessantes para a humanidade, como a criação de radares mais perceptivos a partir de estudos com a formação de mapas cognitivos em morcegos com a sua ecolocalização ou mesmo a possibilidade de embasar descobertas comparativas sem o medo de errar por muito, como o recente estudo do brasileiro Miguel Nicolelis, que em nível basal só é possível com o conhecimento de como funciona a maquinaria neural de seus “colaboradores” – como ele mesmo chama – os animais que participam em sua pesquisa.

Lorenz, Tolman e outros em seu tempo, e cada vez mais pesquisadores nos dias atuais vão dando suas contribuições com mais e mais evidências de que a cognição complexa e multifacetada presente em humanos também se faz – qualitativamente diferente, de certo – presente nos outros animais e que este é, com toda a certeza, um campo frutífero e de grande importância não só por parte de biólogos, como psicólogos, mas além de tudo, para a ciência.


ResearchBlogging.org Paz, J. M. G. (2001). Psicologia e Etoprimatologia Cognitiva. Revista de Humanidades e Tecnologia.  

Vieira, M. L. (2005). Contribuições da Etologia para a compreensão do Comportamento Humano. Disponível em http://mbox.cfh.ufsc.br/~lpe/etologia.htm



Imagine essa situação:

[Uma pessoa ao sair de sua casa em direção ao trabalho se depara com a porta da casa vizinha aberta, nela, uma senhora muito idosa faz a faxina, imediatamente a pessoa pode supor que aquela é a nova empregada de seus vizinhos (dois estudantes universitários que dividem o apartamento), uma senhora que provavelmente mora muito longe e se sustenta com dificuldade em um trabalho árduo e que não deve gostar. No trajeto para o seu trabalho o semáforo se ilumina em vermelho e ao parar o carro a pessoa é abordada por um senhor com o rosto surrado, quase que instantaneamente há a aplicação de rótulos verbais e o senhor é identificado como um mendigo, pedinte, esfomeado e, consequentemente, se imagina a vida terrível que ele vive, mas também que é preciso tomar cuidado com o que ele pode fazer naquela situação. Fecha-se a janela do carro. Depois de dirigir por algum tempo, sempre tomando cuidado com o trânsito, lotado de motoristas provavelmente egoístas, mal educados, irritadiços e dissonantes, a pessoa chega ao seu trabalho e encontra uma vaga no estacionamento, quando está prestes a entrar com o seu carro na vaga ouve um grito de alerta e prontamente pisa no freio, e vê pelo retrovisor um rapaz sinalizando que este estaria estacionando errado, o rapaz está vestido de azul, vermelho e branco. O motorista agora sabe se tratar provavelmente de um flanelinha que provavelmente em pouco tempo o pediria certa quantia de dinheiro para olhar o seu carro e que, caso não fosse atendido, poderia danificá-lo, com uma última olhada para o rapaz, o motorista prontamente identifica as cores da camisa dele como sendo do Esporte Clube Bahia, time popular do nordeste e de onde ele provavelmente veio para tentar a vida em outra região. Com tais informações assumidas, o motorista decide estacionar em outro local, mais seguro e protegido. Ao chegar em seu escritório se depara com uma jovem muito bonita, loira e de corpo escultural andando por ali e logo supõe se tratar na nova secretária do chefe. E durante o resto do seu dia esta pessoa caminha por diversos locais, restaurantes, lojas, salas e vai encontrando e categorizando pessoas, criando e confirmando expectativas sobre como essas podem e devem agir.]

Dados do IBGE afirmam que grande parte da população brasileira é residente de centros urbanos, então é possível perscrutar a influência dessa vida urbana na forma que as pessoas se comportam, e mais, como se dão esses comportamentos, com destaque para o processo de categorização e estereotipização diária, desenvolvendo um raciocínio acerca da influência desses processos na vida cotidiana.

Já que argumentos cognitivistas afirmam que o mundo complexo em que vivemos exige o uso de sistemas de aprendizagem complementares, seria então fundamental para a vida como conhecemos nos centros urbanos um uso ainda mais acentuado destas do que no campo, devido à quantidade de informações que se recebe nas cidades. Há, então, a capacidade de entender a realidade de duas formas diferentes, uma que torna os indivíduos capacitados a aprender e lidar com o previsível, e outra que seria caracterizado por uma grande plasticidade, sendo capaz de analisar diferentes variáveis, se comportando de forma mais adequada a elas.

O pensamento categórico permite que se perceba as pessoas que acaba de se conhecer a partir de crenças gerais e antigas armazenadas na memória, e permitindo que nós já tenhamos expectativas sobre o que nos espera. A possibilidade de podermos ter os pensamentos orientados pelas categorias que são construídas com a história de vida permite que lidemos tanto com situações corriqueiras como ir a um shopping à procura de algum item e sabermos que vamos encontrar auxílio com um vendedor assim que o identificamos, quanto com situações raras, mas previsíveis em decorrência da experiência de como lidar com semelhantes, como ir ao mesmo shopping e, ao não encontrar o vendedor, pedir auxílio a alguém que aparente poder ajudar. Tal processamento permite também lidar com situações totalmente divergentes do que se teria uma prévia ideia, como, por exemplo, ir novamente ao shopping e encontrar um vendedor que se comporte totalmente fora dos padrões habituais, sendo agressivo com clientes que pedissem sua assistência. Sendo assim, cria-se rótulos verbais para a classificação de indivíduos como membros de um grupo que então – a partir da estrutura de conhecimento a respeito da categoria ativada – permite uma série de inferências de julgamento e impressões sobre a categoria (algumas certas, mas uma parcela significativa baseada em julgamentos estereotipados).

Assim, pode-se perceber que é natural e, em alguns casos, extremamente valioso que automaticamente categorizemos grupos sociais e comportamentos de outrem, construindo um repertório de conduta e reação. O raciocínio categórico parece fundamental para a sobrevivência, pois permitiu desde épocas remotas ao homem tratar o novo e o inesperado a partir de crenças mais gerais e antigas.

Todavia, esse raciocínio não se encontra além de controvérsias. Estudos revelam que apesar dos centros urbanos gerarem uma forte categorização, as representações estereotipadas se manifestam de forma menos intensa nos centros urbanos de maior tamanho. Uma possível resposta para esse problema é que provavelmente por serem fonte de uma enorme rede de possibilidades de contradição de estereótipos, a vida urbana apesar de incitar os pensamentos estereotipados pela necessidade de criar esquemas de comportamento para diferentes pessoas, acaba por também propiciar oportunidades infinitas de contato com pessoas diferentes, algumas que confirmam os estereótipos, e outras tanto que destoam do pensamento categorizado. Utilizando a mesma personagem do início do texto, vamos supor que no outro dia ela:

[Ao sair de sua casa em direção ao trabalho se depara com a porta da casa vizinha novamente aberta, mas agora vê a senhora conversando alegremente com um dos vizinhos que a chama de “vó”, ao trocar poucas palavras com eles, se descobre que a senhora estava ali para fazer uma pequena visita a seu neto, mas organizada – e preocupada – como é, resolveu arrumar a bagunça do neto e do colega. No trajeto para o seu trabalho o semáforo novamente se ilumina em vermelho, mas ao parar, o senhor que o abordara anteriormente se mostra dono de uma voz invejável e a única coisa que quer é ser um cantor profissional, dando-lhe um panfleto para seu próximo evento. Depois de dirigir por algum tempo, seu carro começa a apresentar problemas mecânicos, e imediatamente alguns motoristas solícitos param ao seu lado e o ajudam, resolvendo o problema em um instante. Ao chegar ao seu trabalho, esta pessoa encontra a mesma vaga no estacionamento do outro dia, e quando está prestes a estacionar ouve novamente um grito de alerta e prontamente pisa no freio, pelo retrovisor o mesmo rapaz do outro dia sinaliza e se aproxima, informando que aquela vaga está localizada abaixo de uma árvore podre e muito próxima de deixar seus galhos no carro de alguém e que por isso ninguém estava estacionando ali. O rapaz se apresenta como um fiscal que está alertando aos motoristas enquanto não se tomam providências e seu uniforme azul, vermelho e branco, quem diria, é o padrão da empresa que derrubará a árvore, ele na verdade nem gosta de futebol. Ao chegar ao escritório, refletindo sobre tantas descobertas, a nossa personagem acaba por encontrar mais uma grande surpresa, a jovem muito bonita, loira e de corpo escultural está falando a todos os funcionários e se apresentando como a nova CEO da empresa, diretamente superior a seu chefe. E assim, nossa personagem passa o resto do seu dia categorizando e se surpreendendo com as novas informações encontradas.]

Como visto, é possível encontrar durante a vida oportunidades não só para confirmar os estereótipos, como também para ir de encontro ao raciocínio estereotipado. Entretanto, afirmar que o ser humano tende a inibir o raciocínio categórico seria um erro, ocorre exatamente o contrário, mesmo com algumas evidências que vão de encontro a elas, não costumamos ser flexíveis nas crenças estereotipadas, uma vez que alguém é inserido em alguma categoria estereotipada, dificilmente há reflexão sobre o assunto.

E quais seriam as condições que disparariam o raciocínio categórico? Provavelmente, ele surge quando falta ao indivíduo percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas requeridas durante as interações sociais, ainda assim, não necessariamente um indivíduo que viva em uma cidade vai estereotipizar mais ou menos do que um que viva no ambiente rural, o que fará a diferença será muito mais a qualidade do que a quantidade das informações e dos contatos interpessoais nos quais ele vai obter informações sobre os grupos sociais. Assim, se entende que apesar do efeito do ambiente em que se vive, o contexto em que as informações serão entendidas será de importância impar para um pensamento menos estereotipado e mais justo acerca das pessoas.
 

ResearchBlogging.org  
Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição, 13 (3), 280-287

18.4.11

O tálamo, esse desconhecido.

Postado por Marcus Vinicius Alves |

Um aspecto de fundamental importância no estudo psicológico é a relação do indivíduo com o ambiente, e tal relação depende intensamente de como sentimos e percebemos o meio em que vivemos. Enquanto a sensação pode ser compreendida como a codificação de estímulos externos por meio de receptores sensoriais, a percepção é a capacidade de organizar uma representação interna compreensível do mundo externo a partir destes estímulos codificados. Poucos se oporiam ao argumento de que, entre o estímulo físico externo ao corpo e a final compreensão deste estariam envolvidos órgãos que em sua estrutura possuem receptores que possibilitam a sensação do estímulo (i.e., papilas gustativas da língua, cones e bastonetes dos olhos etc.) e o córtex cerebral, interpretando os dados anteriormente codificados e enviados, fazendo-os alcançar à consciência. O que talvez ainda não faça parte do conhecimento geral é que, posicionado no encéfalo, está um componente muito importante para que todo o funcionamento desse processo se dê da forma mais assertiva possível, o tálamo.

O tálamo é constituído de duas massas de substância cinzenta, dispostas de cada lado, na porção látero-dorsal do diencéfalo, acima do sulco hipotalâmico. Suas duas grandes massas de tecido nervoso possuem um formato ovoide e são unidos pela aderência intertalâmica. A informação recebida a partir da excitação por estímulos do meio externo dos receptores sensoriais – células adaptadas para captar a energia física do meio ambiente e transformá-la em energia neural, um processo chamado transdução – segue para essa estrutura que serve de relé para os estímulos sensoriais.

Comumente chamado de “secretária do cérebro”, o tálamo reorganiza todos os estímulos sensoriais (com exceção dos olfatórios) e os traduz, os enviando para as suas devidas áreas corticais a fim de serem interpretados. Sendo assim, entende-se que sem ele, mesmo interpretar tais sentidos seria um empreendimento de grande dificuldade para o córtex cerebral. Além disso, há a compreensão de que, para algumas sensações, o tálamo ocupa um lugar ainda mais importante, por exemplo, quando a sensação é de dor, tato ou relacionada à temperatura, existe mesmo uma interpretação talâmica. Essa espécie de interpretação primária, mas de razoável influência, foi demonstrada em experimentos com pacientes que sofreram lesões em áreas corticais relacionadas com as sensações táteis e revelaram que, embora em tais casos as sensações táteis deveriam estar completamente ausentes, ainda havia uma pequena interpretação ocorrendo, sendo ela de dor, peso ou forma dos objetos. Havia claro, perda considerável dos detalhes que normalmente estão presentes nessas tarefas, mas o fato de haver uma percepção talâmica confirma ainda mais a importância dessa estrutura.

O tálamo possui diversas outras conexões que fazem com que ele tenha então funções diferentes das já citadas sensoriais. As outras funções mais conhecidas do tálamo se relacionam com a motricidade, tendo conexões em que transporta informações do globo pálido e do cerebelo para o lobo frontal, ao comportamento emocional – fazendo parte do sistema límbico – já que tem seus núcleos anteriores se relacionando com o hipotálamo e seu núcleo dorso-medial com a área pré-frontal, e mesmo participação no sono, tendo em vista que alguns de seus núcleos se projetam de forma difusa pelo córtex, se conectando ao sistema ativador reticular ascendente (SARA), importante para a regulação do sono e da vigília.

Os estudos de uma síndrome interessante permitiu revelar a importância do tálamo para os aspectos sensoriais que nos permitem extrapolar a partir do que é sentido do mundo real para o mundo percebido, conhecida como síndrome talâmica. A síndrome talâmica surge em decorrência de afecções do tálamo, geralmente fruto de lesões de vasos, o que reflete em um grande desnivelamento das sensações. Tais alterações dramáticas são geralmente sensações de dor espontânea e pouco localizada, que se irradia por toda a metade do corpo oposta à posição do tálamo comprometido. Apesar de mais difíceis, alguns quadros dessa síndrome são referentes a outros estímulos sensoriais, como por exemplo, térmicos ou táteis. Um paciente pode, a partir de uma pequena estimulação, começar a sentir uma ardência pelo corpo, tais alterações sensoriais são desagradáveis e dificilmente caracterizadas pelos pacientes.

Na literatura aparecem casos de pacientes que já não podiam ouvir músicas ou sons muito altos, pois estes terminavam por desencadear um efeito onde novamente sensações desagradáveis por metade do corpo surgiam. A explicação para esse efeito intenso pode ser entendido como fruto de alterações nos mecanismos e circuitos intratalâmicos ou tálamo-corticais, enquanto os outros permaneceriam intactos. Tentativas de tratamento da síndrome talâmica por cirurgia têm sido bem sucedidas.

O tálamo se encontra então em posição peculiar no caminho que leva à nossa compreensão do mundo, embora pouco conhecido e citado em meios que não os científicos, seus aspectos de organização, tradução e interpretação de sensações são fundamentais para a completude dos processos que levam as mínimas alterações ambientais à percepção consciente. Além disso, deve-se ao tálamo a triagem diligente de muitos dos estímulos sensoriais, selecionando quais devem seguir para o córtex e quais poderão ser esquecidos, assim, nem tudo que é sentido é, por fim, percebido. Enquanto lê esse texto, o seu tálamo ativamente seleciona informações importantes acerca das cores da página, dos sons ouvidos ao fundo, entre outros estímulos, a sua secretária está ativamente ajustando a compreensão do mundo ao seu redor, então, na próxima vez em que pensar sobre como você está se sentindo, lembre-se, o tálamo sentiu primeiro.


ResearchBlogging.orgHerrero, M., Barcia, C., & Navarro, J. (2002). Functional anatomy of thalamus and basal ganglia Child's Nervous System, 18 (8), 386-404 DOI: 10.1007/s00381-002-0604-1


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