Maria Emília Yamamoto pode ser considerada uma das “mães” da psicologia evolucionista brasileira. Pioneira na área, ela hoje é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e tem participação fundamental na promoção e no desenvolvimento da psicologia brasileira, especialmente da psicologia evolucionista (PE). Ela editou em co-autoria com a professora Maria Seidl o livro Psicologia evolucionista, primeiro manual brasileiro da área.
Assim como o Dida, a Maria Emilia veio da etologia, mas sua carreira foi se direcionando cada vez mais também para a PE. A professora Maria Emilia se tornou uma porta-voz da área e tem divulgado o seu trabalho em diversos congressos, palestras e eventos. Ela gentilmente nos cedeu uma entrevista rica, na qual foram discutidos diversos assuntos que ela, assim como muitos pesquisadores no mundo todo, tem tentando relacionar na sua pesquisa, como a evolução, a prosocialidade, a religião e a moralidade.

Maria Emilia, você pode nos contar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você está desenvolvendo em seu grupo de pesquisa atualmente e sobre os projetos que estão a caminho?
Meu principal interesse de pesquisa é o comportamento cooperativo sob uma ótica evolucionista. Investigo os moduladores desse comportamento, principalmente sob o ponto de vista próximo. Entre esses moduladores encontram-se, principalmente, as variáveis sociais, como a influência de grupos de pertinência, a vigilância, a ocorrência de punições e sanções, a trapaça. Há muitos anos a Psicologia vem mostrando que nós, humanos, somos não apenas animais sociais, mas também animais grupais. Por essa razão, é fácil induzir o favorecimento de grupos com os quais nos identificamos e a hostilidade em relação àqueles que consideramos como rivais. Nossas pesquisas e aquelas de outros pesquisadores sugerem que essas predisposições têm suas raízes em nosso passado ancestral, que favoreceu a aptidão daqueles que as possuíam. Atualmente, embora o ambiente seja muito diferente daquele experimentado por nossos ancestrais, várias dessas predisposições permanecem e influenciam nosso comportamento. Em função de nossa predisposição em nos filiarmos a grupos, os marcadores sociais associados a eles, sejam os de escolha, como religião, time de futebol, ou aqueles próprios ao indivíduo, como etnia e naturalidade, afetam nossas escolhas de parceiros de associação e cooperação.
Uma questão anterior àquela da associação diz respeito à classificação que fazemos dos indivíduos e que resulta na atribuição de pertinência a grupos. Estamos trabalhando essa questão usando a variável etnia e contrapondo-a à questão de coalizão de grupo, e nossos resultados até o momento sugerem que a composição étnica e social do local em que as pessoas vivem afetam essa classificação.
Ainda no tema de comportamento pró-social, avaliamos a cooperação com o grupo em crianças, em situação de jogos públicos. Investigamos a influência de variáveis tais como tamanho de grupo, vigilância e feedback positivo e negativo no comportamento pró-social.
Outro tema que investigamos bastante até alguns anos atrás e estamos retomando é o do comportamento alimentar. O que comemos é fortemente influenciado pelo nosso passado evolutivo, caracterizado por escassez ou, pelo menos, irregularidade da disponibilidade de alimentos. Essas condições deram oportunidade para um tipo de comportamento que Rozin chama do dilema do onívoro, que consiste na relutância em experimentar alimentos novos, pois alimentos novos no nosso passado ancestral podiam ser tóxicos, mas, por outro lado, a tentação de incorporar novos itens à dieta, frente à escassez regular ou sazonal de alimentos. Atualmente, a probabilidade de ingerirmos alimentos tóxicos entre os disponíveis é muita baixa, mas muitos indivíduos apresentam uma reação neofóbica a alimentos não familiares, e recusam-se a ingeri-los. Investigamos quais as condições que favorecem essa reação e quais a atenuam. Ainda dentro do comportamento alimentar, a obesidade é um comportamento frequente e induzido, entre outros fatores, por nossa tendência a preferir alimentos calóricos, principalmente aqueles ricos em gordura e açúcares, novamente uma predisposição moldada em ambientes nos quais esses tipos de alimentos eram escassos. É claro que hoje, com supermercados à disposição isto não é mais verdade, e a facilidade em conseguir esse tipo de alimentos resulta em obesidade e em doenças que Nesse e Williams chama de doenças da civilização. Estamos retomando esta linha atualmente com o objetivo de investigar o craving, e seus fatores desencadeantes.
Como o altruísmo faz sentido a partir da ótica evolucionista? Não seria evolutivamente mais vantajoso agir apenas em nosso favor?
Esta foi uma questão que preocupou tanto ao Darwin, que ele chegou a acreditar que ela seria o fim de sua teoria. Ela começou a ser resolvida por Hamilton, que propôs a seleção de parentesco, que diz que ajudamos nossos parentes porque isto equivale, dependendo de quantos parentes são ajudados e de nosso grau de parentesco com eles, a ajudar a nós mesmos. Isto acontece porque, do ponto de vista evolutivo, quando falamos em altruísmo estamos nos referindo a capacidade de passar nossos genes para a próxima geração. Portanto, podemos ser altruístas do ponto de vista moral (ou próximo) e ao mesmo tempo egoístas do ponto de vista evolutivo (ou distal). É o que acontece quando ajudamos nossos parentes.
Mais tarde, Trivers apresenta a hipótese do altruísmo recíproco, que explica o comportamento altruísta dirigido a não parentes. Segundo esta teoria, em espécies com longo tempo de vida e boa capacidade de memória, como é o caso dos humanos, haveria a possibilidade de prestar favores a indivíduos não aparentados na expectativa de uma retribuição futura. A capacidade de memória nos permitiria lembrar e reencontrar nossos devedores, e o longo tempo de vida, oportunidades de cobrar nossas dívidas. Dessa maneira, como na seleção de parentesco, ao ajudar outros estaríamos ajudando a nós mesmos.
Porém, nem só da retribuição direta vive o homem. Na realidade, vivemos em grande parte de nossa reputação, ou do altruísmo indireto, que nada mais é do que praticar uma boa ação na frente de uma audiência interessada. Vários estudos têm demonstrado (dentre os quais os excelentes trabalhos de Milinski) que ao exibir nossa boa vontade e disposição para cooperar, atraímos a boa vontade e a cooperação de outros, que reagem a nossa boa reputação.
É importante destacar que a maior parte dessas ações não são planejadas de forma maquiavélica ou calculista. Embora alguns indivíduos possam se aproveitar de nossa tendência a cooperar com parentes, a retornar favores e boas ações ou a cooperar com aqueles que temos em alta conta, na maior parte das vezes agimos assim porque consideramos que essa é a maneira correta de agir. Ou seja, seguimos predisposições que foram selecionadas durante nosso passado evolutivo e reforçadas pelas regras da vida social, razão pela qual somos o que Wright chama de animais morais. Ao agir dessa forma, ao nos comportarmos altruisticamente, favorecemos outras pessoas, somos éticos, mas também aumentamos as chances de sermos, nós mesmos, os receptores do altruísmo de outros. Portanto, nosso altruísmo é em grande parte egoísta, do ponto de vista biológico.
Alguns autores argumentam que a religião, e que, em especial, os rituais religiosos, surgiram, entre outros motivos, como uma solução para o problema social da não cooperatividade (e.g. trapaceiros), como os proponentes da teoria da sinalização dispendiosa (costly signaling theory). Nesse sentido, qual é a relação entre a religião e a cooperação?
Há dois argumentos, na abordagem evolucionista, para o aparecimento da religião na espécie humana: a hipótese adaptacionista, descrita em sua pergunta, e a hipótese do spandrel, que sugere que a religião é um subproduto da mente evoluída.
A primeira hipótese faz todo sentido, pois uma das questões mais complicadas da vida social, até hoje, é evitar que outros se aproveitem de sistemas sociais que deveriam beneficiar apenas seus membros. Uma boa parte das normas sociais, até os dias atuais é dedicada a estabelecer obrigações e prever punições aos que não as cumprem. Nossos ancestrais provavelmente tiveram que lidar com esses mesmos problemas e a religião pode ter cumprido uma função adaptacionista ao estabelecer rituais de entrada e de manutenção tão custosos, que só valeria a pena cumpri-los caso houvesse um real comprometimento. Trapaceiros evitariam passar por experiências dolorosas ou de privação incluídas nesses rituais, e isto permitiria selecionar aqueles que realmente estariam identificados com o grupo.
A segunda hipótese sugere que a religião é um subproduto do crescimento exacerbado do cérebro humano, que deu margem ao desenvolvimento de mecanismos que favoreceriam o desenvolvimento de explicações sobrenaturais. Mais especificamente, Pascal Boyer, em seu livro Religion Explained, sugere o desenvolvimento de mecanismos tais como: o de detecção de agentes, que levaria a imaginar agentes por trás de eventos difíceis de ser explicados, como relâmpagos e trovões, e à proposição de suas causas a agentes sobrenaturais; à melhor memória para eventos minimamente contra intuitivos, o que estaria de acordo com deuses antropomórficos à semelhança dos humanos, porém mais poderosos; e mecanismos de prevenção de perigo, que poderiam ter levado ao desenvolvimento de rituais religiosos como forma de prevenir males futuros.
Evidências têm sido obtidas para as duas hipóteses, porém não foi possível, até o momento, descartar nenhuma delas. Fala a favor da hipótese adaptacionista o fato de que grupos religiosos, especialmente aqueles que são mais estritos e/ou minoritários, demonstrarem alto grau de cooperação entre seus membros. Porém, outros grupos, não religiosos, também mostram disposição para cooperar, até mesmo grupos não estruturados, como o de ateus.
Portanto, existe claramente uma relação entre religião e cooperação, porém essa relação não é universal. Há grupos religiosos mais “frouxos”, nos quais a pertinência ao grupo não age necessariamente como referência para seus seguidores, e, por outro lado, há grupos não religiosos que mostram essa disposição, como grupos políticos (a história recente da União Soviética seria um exemplo interessante de analisar).
Prefiro pensar que a religião e cooperação estão relacionadas, da mesma maneira como a cooperação pode ser favorecida em outros grupos, não religiosos. Isto fala muito mais a favor de, como espécie, mostrarmos uma tendência a fazer parte de grupos do que a sermos religiosos.
Você tem investigado recentemente alguns aspectos relacionados à moralidade, à formação de grupos e à cooperação em crianças. Você poderia comentar um pouco sobre essa sua pesquisa e sobre como estes fenômenos sociais interagem?
Desde que a Psicologia começou a se interessar pelo comportamento moral a questão de quando ele aparece, durante o desenvolvimento, esteve presente. Somos naturalmente morais ou aprendemos a nos comportar moralmente? Na realidade, estudos recentes sugerem que as duas coisas acontecem. Os trabalhos de Paul Bloom, Karen Wynn e sua equipe na universidade de Yale, mostram que existe um senso moral desde muito cedo. Dois pontos a destacar aqui: primeiro, isto é muito diferente do que a Psicologia tradicional tem afirmado sobre o desenvolvimento da moralidade, sugerindo que nascemos animais amorais (ver, por exemplo, Piaget e Kohlberg); em segundo lugar, estas descobertas poderiam sugerir que a socialização não é importante no desenvolvimento da moralidade. Na realidade, como eu havia mencionado antes, os dois aspectos se complementam.
Todos, independente do tipo de criação que recebemos ou da cultura na qual vivemos, temos, desde muito cedo, algum senso do certo e do errado, do justo ou do injusto. No entanto, a cultura e a criação constroem sobre e modelam esta nossa predisposição. A moralidade, tal como a conhecemos e que a maioria de nós exerce, é uma síntese de predisposições biológicas e da socialização. Ela está solidamente fundada em um aparato básico que faz com que os bebês, nos estudos citados acima, prefiram os bichinhos e objetos que ajudam e são gentis em relação aos que atrapalham ou são maus. Mas a moralidade é mais do que isso – ela também é o produto da nossa cultura e de normas que são comunitariamente acordadas.
Nesse sentido, o que entendemos por comportamento moral ou altruísta na perspectiva evolucionista, pode ser bastante diverso daquilo que se chama comportamento moral em outras áreas ou disciplinas. Estamos interessados nos impactos desses comportamentos sobre a aptidão individual, e por essa razão, comportamentos que são genuinamente morais ou altruístas do ponto de vista ético podem não o ser do ponto de vista evolutivo. Crianças e outros indivíduos indefesos ou desprotegidos são frequentemente o alvo de comportamentos de ajuda e solidariedade. Crianças, principalmente aquelas que parecem mais desprotegidas, fracas ou aquelas que têm características infantis mais pronunciadas, frequentemente induzem comportamentos de ajuda e proteção. Porém, isto acontece principalmente quando o protetor é um adulto. Resultados iniciais de um estudo que estamos desenvolvendo sugerem que crianças mais velhas não se mostram tão complacentes em relação a crianças mais jovens. Portanto, este é um padrão de comportamento que se desenvolve ao longo da vida e sofre o efeito da socialização, como enfatizei acima.
Investigamos também se crianças de 6 a 11 anos cooperavam com seu grupo, abrindo mão de uma recompensa imediata em favor de uma recompensa maior mais tarde. Descobrimos que elas tem maiores chances de fazer isto quando algumas circunstâncias estão presentes, como um grupo pequeno e mais vigilante, umfeedback relativo ao comportamento do grupo, entre outras. Tal como adultos, crianças avaliam as condições presentes, e decidem qual a melhor estratégia.
Finalmente, investigamos também o efeito do grupo de pertinência sobre a generosidade. Vimos que grupos religiosos ou ateus tendem a ser mais generosos com seu pares, e igualmente generosos (ou pouco generosos) com outros indivíduos. A ideia de fazer o bem sem olhar a quem, tão cara a algumas religiões, não parece se manter – fazer o bem sim, porém com uma seleção muito cuidadosa de quem recebe o benefício. Este é um comportamento de favorecimento do grupo, bastante estudado em psicologia social. Acrescentamos uma explicação mais ampla, baseada no modo de vida ancestral, quando nossos ancestrais dependiam de seu grupo para sobrevivência e temiam estranhos. Considero que esta abordagem complementa as explicações dadas pela psicologia social, inserindo na equação as predisposições biológicas, que irão modular a expressão do comportamento.
Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
Fiz minha formação pós-graduada na área de comportamento animal. Meu interesse pelo estudo do comportamento animal foi despertado ainda na graduação. Trabalhei muitos anos com saguis, peixes e golfinhos. Na realidade, as perguntas que fazemos em relação aos humanos, na abordagem evolucionista, são as mesmas que fazemos para as outras espécies. Claro que há, eu não diria complicadores, mas especificidades. Folley diz que somos apenas mais uma espécie única, e eu não poderia concordar mais. Pelo fato de ser psicóloga e orientar vários psicólogos, a ampliação de minha área de trabalho incluindo humanos foi uma coisa natural. Continuo até hoje interessada em estudar saguis, que são animais extremamente interessantes, e faço também alguns trabalhos com peixes.
É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Esta resposta é necessariamente comparativa. Eu vivi os anos difíceis da pesquisa no Brasil, quando os recursos eram poucos e o trabalho, principalmente na área de humanas e sociais, pouco valorizado. Hoje temos recursos, temos laboratórios temos reconhecimento e, principalmente, temos uma mudança de mentalidade no que diz respeito a pesquisa. Ela deixou de ser considerada, pelos nossos dirigentes, como um artigo supérfluo e de luxo, principalmente nas ciências humanas e sociais. É claro que há dificuldades inerentes ao trabalho do pesquisador, mas essas dificuldades todos nós enfrentamos.
Existem mudanças que facilitariam o seu trabalho?
Claro! Fazer pesquisa em uma universidade pública tem muitas vantagens, mas lidamos com a lentidão paquidérmica da burocracia estatal. Costumo dizer que às vezes é mais difícil gastar os recursos do que consegui-los. Outro entrave são os comitês de ética, formados for pessoas bem intencionadas mas mal informadas, que equiparam estudos altamente invasivos e potencialmente danosos com estudos que utilizam um questionário. Além disso, algumas vezes acreditam que devem dizer ao pesquisador que metodologia utilizar sem sequer conhecer a área de trabalho em exame. Isto tem atrasado e prejudicado imensamente o trabalho do pesquisador em ciências humanas.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
Mais do que conselhos, o que me ajudou foram exemplos de conduta. De meu orientador, que nunca teve medo de arriscar e sair de sua zona de conforto, para tocar uma investigação inovadora e de resultados altamente incertos. De meus colegas, que nos tempos mais difíceis persistiram fazendo pesquisa e tentando publicar, contra todos os empecilhos.
Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Eu recomendaria o livro que editei junto com a professora Emma Otta, da USP,Psicologia Evolucionista. Porém (e coloque isto na conta das dificuldades), com a edição completamente esgotada, a editora nos avisou que não irá reimprimir o livro por não haver um retorno comercial adequado. Felizmente, há vários outros livros, a maioria traduzidos, interessantes e valem a pena ser lidos, como os de Frank de Waal, Matt Ridley e outros. Claro que se o interesse é mais acadêmico, há necessidade de recorrer aos papers, que são mais atualizados e rigorosos. Publicamos em 2010 um dossiê na revista Estudos de Psicologia que também pode servir de referência a quem quer um primeiro contato com a área.
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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!


O Dida, como é mais conhecido o professor Francisco Dyonisio C. Mendes, é atualmente professor de psicologia evolucionista (PE) na Universidade de Brasília (UnB). A sua carreira acadêmica está diretamente associada ao programa de psicologia experimental da Universidade de São Paulo (USP), no qual ele fez a maior parte da sua pós-graduação sob a orientação do professor César Ades.
Apesar de possuir um especial interesse e atuação na etologia ao longo de sua carreira, o professor Dida, assim como muitos outros etólogos brasileiros, tem se aproximado cada vez mais da psicologia evolucionista e desenvolvido projetos especialmente situados nesta área. Ele explorou com clareza algumas questões, muitas vezes mal compreendidas, sobre o estudo dos animais na perspectiva evolucionista nesta ótima entrevista cedida gentilmente por ele. Além disso, acreditamos que muitos comentários do Dida acerca da realidade que pesquisadores brasileiros enfrentam para conduzir suas pesquisas soarão familiares a muitos.

Dida, você pode nos contar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você está desenvolvendo em seu grupo de pesquisa atualmente e sobre os projetos que estão a caminho?
Cheguei há dois anos na UnB, e mantive o tema geral de pesquisa que desenvolvia antes na PUC-GO: evolução da flexibilidade comportamental.  No momento temos um grupo de pesquisa sobre evolução humana que inclui dois projetos de mestrado. O Vinícius estuda como a experiência prévia de relacionamentos influencia a forma com que homens e mulheres sentem ciúmes. O outro projeto, da Ana Flávia, é sobre dieta – investiga a relação entre neofobia alimentar (aversão a alimentos novos) e doenças como a diabetes e obesidade mórbida.
               Também pesquisamos o comportamento de um primata muito interessante sob o ponto de vista da flexibilidade comportamental – o macaco-prego. Este macaco se adapta a uma grande variedade de ambientes devido a sua capacidade de explorar de formas inovadoras – chega a usar pedras e outros objetos como ferramentas para conseguir alimentos, por exemplo. Há dois projetos de mestrado em andamento. Murilo está realizando experimentos para estabelecer se o uso de ferramentas pode diminuir o estresse e melhorar as relações sociais de macacos em cativeiro. Já o Túlio pesquisa a influência do fornecimento de alimentos por humanos na forma com que os macacos se alimentam e se comportam socialmente.
            A caminho temos um projeto da Thalita, em parceria com a Dra Clotilde Tavares do ICB, e o Dr. Sérgio Leme, sobre as interações entre os macacos-prego e humanos que visitam o Parque Nacional de Brasília. Além de investigar a flexibilidade destes macacos (como se adaptam à presença humana), o projeto irá ajudar o Parque a "controlar" o número de conflitos entre os macacos e humanos, já que os macacos às vezes roubam e ameaçam os visitantes.
       Tenho ainda algumas parcerias, como, por exemplo, um projeto que iniciei com o Dr. César Ades da USP, que infelizmente faleceu recentemente, e que estou dando continuidade com o Dr. Didier Demolin da IT-Grenoble (França), sobre a comunicação vocal de outro primata brasileiro, o muriqui. Este projeto é uma retomada de minha pesquisa de doutorado, e temos planos de enviar alunos para dar continuidade ao estudo. Participo também de um grupo de pesquisa do CNPq chamado “Etologia Cognitiva”, coordenado pelos Drs. Eduardo Ottoni e Patrícia Izar (USP) – o principal interesse é o uso de ferramentas por macacos-prego. Com o Dr. Sérgio Leme, aqui do PPB, colaboro com trabalhos sobre estresse e enriquecimento ambiental, como, por exemplo, em um projeto sobre estresse e eficiência dos cães farejadores da Polícia Federal de Brasília.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
     Eu “cismei” que ia estudar comportamento animal aos 12 anos de idade, e deixei meus pais loucos com isso =); na época quase ninguém falava em ecologia e meio ambiente, muito menos em etologia ou PE. Meu interesse então era apenas os animais (não humanos), e fui falar com o Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha da USP, um pioneiro da etologia no Brasil. Ele ficou meio surpreso com meu interesse meio precoce, mas me deu ótimas dicas e alguns anos mais tarde fui estudar fora, nos EUA. Na Universidade meu interesse pelos animais foi se tornando cada vez mais comparativo, ou seja, comecei a me intrigar pela complexidade do comportamento humano e sua relação com o comportamento de outros animais. Acabei me formando em Antropologia Física, e me especializando em primatas não-humanos, o que inevitavelmente me fez pensar em como o comportamento pode ser complexo e flexível. Com o tempo fui acomodando também pesquisas sobre a flexibilidade do comportamento humano, e acabei ingressando no grupo de “Psicologia Evolucionista” brasileiro. Hoje, a maioria das pesquisas de que participo tem esse aspecto comparativo entre o comportamento humano e o de outros animais, com ênfase na evolução da flexibilidade comportamental.

A ideia de flexibilidade comportamental é compatível com a perspectiva evolucionista?
“Evolução da flexibilidade” é realmente uma expressão que pode gerar certa desconfiança, já que por muito tempo se acreditou que a evolução de fatores biológicos, como a genética e a ação de hormônios, levariam inevitavelmente a comportamentos pouco flexíveis, com pouca ou nenhuma influência do meio ambiente. Mas isso é lenda... Nem genes, nem ambiente determinam sozinhos o comportamento, e a interação entre estes fatores pode ou não gerar flexibilidade.
     Para entendermos a evolução do comportamento humano temos que entender como a evolução gerou nossa enorme capacidade de nos adaptar, de forma flexível, a diferentes contextos ambientais e sociais. Nosso cérebro, principal responsável pela nossa flexibilidade comportamental, é fruto da evolução biológica, mas é enorme e desenvolve lentamente, de acordo com os estímulos que recebe do ambiente. A forma exata com que ele vai produzir pensamentos, emoções e comportamentos depende, portanto, da interação entre os genes que a pessoa herdou e o ambiente em que ela vive, e esta interação é bastante complexa. Por exemplo, Einstein certamente tinha genes muito favoráveis a um cérebro eficiente – genes que permitiram estruturas cerebrais saudáveis, muitas sinapses, boa mielinização das células, etc... Mas todas estas estruturas não teriam desenvolvido se não tivessem sido reforçadas pela experiência ao longo de sua vida, com os estímulos e contextos adequados. Se ele não tivesse nascido e crescido em um ambiente estimulante, provavelmente não chegaria à teoria da relatividade.
     Esta relação entre genes, sistema nervoso e ambiente do indivíduo tem uma história evolutiva. O sistema nervoso de uma minhoca, por exemplo, muda pouco em função de sua experiência de vida, e por isso o comportamento destes animais é pouco flexível. Por outro lado, a genética de animais mais próximos aos humanos, como os macacos, golfinhos e outros mamíferos gera um sistema nervoso mais “plástico”, capaz de modificar bastante em função dos estímulos que recebe, e por isso estes animais também têm comportamento mais flexível. Resumindo, nossa inteligência e flexibilidade comportamental são frutos de uma história evolutiva que merece ser estudada.

Qual é a importância de estudos com animais para compreender o comportamento humano?
     Este é outro assunto que costuma gerar polêmica. Quando um pesquisador compara o comportamento humano com o de outro animal, sempre há quem veja os resultados com ceticismo e reclama que nós humanos somos diferentes. Em parte isto é verdade: somos realmente diferentes... Mas as reclamações não fazem sentido - todas as espécies são únicas de alguma forma, não só os humanos. A ideia do método comparativo não é mostrar que duas espécies são iguais, muito menos mostrar que somos exatamente como os animais. O método consiste em descobrir o que as espécies animais têm em comum e em que diferem, e entender o porquê das semelhanças e diferenças. No caso do ser humano, as comparações devem levar em conta o fato que a evolução nos concedeu um cérebro “enorme” e consequentemente uma inteligência superior que nos permite passar informações através de uma linguagem simbólica e de valores culturais, por exemplo. Apesar disso, a cultura e a inteligência não anulam as influências biológicas, que são fruto de uma história muito mais antiga do que a “curta” história de evolução cultural. Quanto mais estudamos os animais, mais entendemos como a evolução gera uma grande diversidade de padrões comportamentais, e podemos aplicar isto para qualquer espécie, inclusive a humana.

Compartilhamos muitas coisas com outros animais, mas ainda assim “somos únicos”?
Humanos, chimpanzés e bonobos são muito parecidos entre si do ponto de vista genético, e as três espécies compartilham vários padrões de comportamento. Por exemplo, expressam as emoções básicas, como o medo, a raiva, a surpresa, a felicidade e a tristeza de forma bastante semelhante, usando os mesmos músculos. Nas três os filhotes nascem muito despreparados e passam muitos anos sob o cuidado intenso de adultos, e desenvolvem suas habilidades motoras e psicossociais lentamente. Por outro lado, há diferenças marcantes entre estas espécies. Os bebês humanos geralmente são cuidados por ambos os pais dentro de um núcleo familiar, já nossos “primos” primatas são cuidados principalmente pelas mães, dentro de uma sociedade com vários machos e fêmeas promíscuos. Os chimpanzés costumam resolver os conflitos com brigas e hierarquias, os bonobos com sexo, e os humanos de forma bastante variada, incluindo guerras entre países; nos chimpanzés os machos são os dominantes, nos bonobos são as fêmeas, e nos humanos há controvérsias =). Em outras palavras, conhecer o comportamento do chimpanzé ajuda, mas não é suficiente pra explicar o comportamento nem mesmo de seus parentes mais próximos, o bonobo e o ser humano. Como disse anteriormente, é preciso entender como funciona a evolução para entender não só as semelhanças, como também as diferenças. No caso dos humanos, algumas das diferenças que temos com nossos parentes mais próximos tem a ver com o fato que há cerca de 6 milhões de anos  nossos ancestrais passaram a habitar ambientes mais abertos e inóspitos, enquanto a linhagem dos bonobos e chimpanzés permaneceram em ambientes de florestas, e só passaram a habitar ambientes diferentes há muito pouco tempo.

Como se dá está interação complexa entre as nossas predisposições genéticas e a cultura? Você poderia dar um exemplo de como isso acontece?
Acho que o comportamento reprodutivo humano é um bom exemplo desta interação entre as influências da biologia, da inteligência e da cultura. A evolução nos deu diversos mecanismos biológicos para lidar com a tarefa biológica da reprodução. Na adolescência nosso corpo muda em função destes mecanismos biológicos, e de repente passamos a reagir a estímulos e nos comportar de uma forma totalmente nova. Por exemplo, passamos a nos interessar pelo sexo oposto, que antes parecia não tão interessante assim; começamos a emitir sinais não verbais de interesse e paquera que são iguais em todo o mundo; desde cedo somos atraídos por características do sexo oposto que indicam bons genes (simetria, pele bonita, saúde etc.). Há também evidências de algumas diferenças universais entre homens e mulheres adultos em relação ao que procuram em seus parceiros ideais: os homens se preocupam mais com a beleza física do que as mulheres; as mulheres são em geral mais exigentes e se preocupam mais com qualidades relacionadas à capacidade de gerar recursos (escolaridade, nível socioeconômico, ambição). Estes são exemplos que indicam um papel importante da biologia na reprodução humana, e há explicações evolucionistas para a origem dos mecanismos biológicos reprodutivos, como argumenta o psicólogo evolucionista David Buss (ver, por exemplo, o livro traduzido para o português: Paixão Perigosa).
     Por outro lado, a biologia só gera tendências que precisam desenvolver ao longo da vida. Várias áreas da Psicologia mostram como o ambiente familiar, o meio social e os valores culturais modelam estas tendências durante o desenvolvimento do indivíduo. Aprendemos a nos conter quando é preciso, e como usar os sinais biológicos de forma mais eficiente. Também procuramos características em nossos parceiros, como o companheirismo e interesses similares, que ajudam o convívio, quando o interesse é um relacionamento duradouro. Pessoas religiosas querem se casar com pessoas religiosas. Estes são apenas exemplos que ajudam a entender porque tanto homens como mulheres variam muito na forma com que são atraídos pelo sexo oposto, e porque mudamos a forma de nos comportar e procurar parceiros conforme aprendemos com o ambiente.

A PE tem ganhado espaço no Brasil, mas ainda é uma abordagem nova por aqui. Como você vê a situação atual da PE brasileira e a relação dela com outras áreas da psicologia?
A PE é uma área relativamente nova da psicologia, nasceu nos EUA há poucas décadas. No Brasil formou-se um grupo de pesquisa da ANPEPP em 2004, liderado pela Dra Maria Emília Yamamoto da UFRN. O grupo tem crescido bastante desde então. Hoje somos mais de 20 pesquisadores de diferentes Instituições de Ensino Superior que colaboram entre si em diversos projetos. Alguns, como os Drs. Eduardo Ottoni, Patrícia Izar, e o saudoso César Ades da USP, a Dra. Suemi Tokumaru da UFES, e o Dr. Mauro Vieira da UFSC, começaram na etologia; outros, como as Dras. Maria Lúcia Seidl-de-Moura da UERJ, Eulina Lordelo da UFBA, Ângela Donato Oliva da UFRJ, e Regina Brito da UFPA, vieram de outras áreas da psicologia, em particular da psicologia do desenvolvimento.
  Eu acredito que a PE ganha muito quando agrega conceitos e métodos de diferentes áreas. Queremos entender a relevância da evolução para compreender como os humanos pensam e se comportam, mas não podemos ignorar o que outras áreas têm a oferecer, em particular as contribuições da psicologia cognitiva, da psicologia social, da psicologia do desenvolvimento e mais recentemente das neurociências. Podemos fornecer teorias sobre a origem evolutiva, as funções adaptativas e a influência de fatores biológicos no comportamento, mas como vimos acima, isto não é suficiente para explicar a complexidade do ser humano. Entender a evolução e biologia humana sem dúvida é necessário, não deixamos de ser animais porque nos tornamos, nos últimos 10.000 anos, capazes de dominar a natureza... mas precisamos também levar em conta as outras dimensões do ser humano, como a cognição, a sociabilidade e a cultura. Melhor ainda, precisamos entender como estas dimensões interagem com a dimensão biológica, como genes e ambiente andam juntos para gerar nosso comportamento altamente flexível.

É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Para ser um pesquisador em psicologia, é preciso ser professor de uma instituição de ensino superior, de preferência uma que tenha um programa de pós-graduação. Há algum tempo, isto significava principalmente dar aulas e fazer pesquisa. Hoje, acredito que duas mudanças atrapalham um pouco a pesquisa. Primeiro, ser professor virou um emprego multitarefas – ensino na graduação e na pós, pesquisa, extensão, administração, orientação de alunos, representações em comissões, divulgação na mídia, inúmeras reuniões burocráticas... Segundo, há uma ênfase muito grande na quantidade, e menos na qualidade. Isto quer dizer que para ser bem avaliado, o professor tem que fazer muito de cada uma dessas tarefas. Em minha opinião, é a pesquisa que sofre mais com estas demandas. Fazer pesquisa de boa qualidade requer tempo e dedicação – tempo para acompanhar a literatura especializada, para planejar e executar a coleta, para analisar, tempo para pensar! No fim, boa parte dos bons pesquisadores brasileiros trabalham bem mais do que 40 horas semanais, e estão sempre correndo contra o tempo com os prazos de editais e relatórios.

Existem mudanças que facilitariam o seu trabalho?
Não sei como mudar essa situação em curto prazo, só acho muito estranho que para ser professor universitário passamos muito tempo no mestrado e no doutorado aprendendo basicamente a fazer pesquisa, e depois lutamos para poder orientar e conduzir pesquisas no tempo que nos sobra entre reuniões e outra tarefas. Bom, não posso reclamar muito, porque estou em uma universidade muito boa, aonde a pesquisa é valorizada e os alunos são muito bons e interessados em pesquisa. A gente “sofre” um pouquinho, mas consegue levar os projetos adiante.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
  Meu pai gostava muito de uma parábola de um escritor argentino, Constancio C. Vigil, sobre um velho sábio que era famoso pelos conselhos infalíveis que dava aos mais jovens. O velho sempre pedia segredo a respeito da conversa e sempre dava o mesmo conselho: “simplifica meu filho, simplifica”. Ninguém sabia que o velho já era completamente surdo e, portanto, nem fazia ideia de quais eram os problemas daqueles que o procuravam; mas isso não importava, porque o conselho sempre funcionava.
  Acho que a simplicidade e soluções simples podem realmente ter grande utilidade pra muitas coisas, inclusive na pesquisa. Isto não implica em fechar os olhos para as complexidades do mundo, mas sim ter a capacidade de olhar o fenômeno tal e qual ele se apresenta. César Ades, por exemplo, dizia a seus alunos que antes de retorcer uma ou mais teorias para explicar o comportamento dos sujeitos de pesquisa, tínhamos que prestar atenção ao que os animais (sujeitos) nos diziam com seu comportamento, mesmo que eles nos decepcionassem um pouco pela simplicidade. Pensar assim é geralmente útil pra se chegar a boas hipóteses e métodos para testá-las... se a realidade for mais complexa, nos aproximamos dela passo a passo, eliminando primeiro explicações mais simples.   

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Nosso grupo de PE na ANPEPP publicou recentemente um livro pela editora Guanabara Koogan, que acredito ser um bom texto inicial para quem tem interesse em conhecer a área.

Otta, E., & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!

Por que preferimos o mais caro?


Por Felipe Novaes *





Estamos vivendo numa época onde o ter sobrepuja o ser. Essa frase se tornou um clichê. Mas ela diz a verdade, realmente estamos muito mais sensíveis ao que o outro tem do que ao que ele é. Às vezes, o que se tem funciona como um indicador daquilo que se é. Claro que algumas pessoas fogem a essa regra, mas o quanto elas realmente fogem? Será que é possível fugir de tal tendência totalmente? Estudos interessantíssimos mostram que, além de avaliarmos a confiabilidade, beleza, respeitabilidade e status de alguém de acordo com o que essa pessoa possui, também levamos em conta – e muito – o valor gasto. Alguns estudiosos chegam a dizer que esse mecanismo está por trás não só da mente humana, mas também das relações de seleção sexual de outros animais, mostrando que essa é uma tendência antiga que compartilhamos com outros seres. 




Costly Signaling Theory
O pavão é uma das aves mais bonitas que existem. Chama atenção a sua cauda, muito grande em relação ao corpo e coloridíssima.  Certamente ela chama a atenção de muitos predadores [ou talvez seus predadores sejam incapazes de perceber a cor das penas da mesma forma que nós, o que faça essas aves chamarem menos a atenção] mas algum outro benefício deve existir em sustentar uma plumagem tão chamativa e custosa. É sabido que as fêmeas são atraídas pelos machos que exibem a mais graciosa das caudas, isto é, de alguma forma, toda aquela parafernália ajuda na cópula, favorecendo a reprodução de uma maneira que supera o suposto risco de atrair predadores e parasitas. Mas o que chama a atenção das fêmeas ao verem aquela cauda? Será que o esquema de cores e o tamanho tornam aquele arranjo algo irresistível para elas?

A costly signaling theory (Miller, 2009; Saad, 2007) tem sido invocada com sucesso para explicar o uso de recursos que não possuem nenhuma funcionalidade manifesta (prática) (Bliege Bird & Smith, 2005; Cronk, 2005). Segundo essa idéia, o pavão, com todo seu dispendioso rabo, estaria sinalizando que é saudável e apto o suficiente para gastar recursos na manutenção de tal aparato e ainda conseguir obter alimento e sobreviver. Ou seja, é a lógica da ostentação das qualidades invisíveis possuídas. É como um marketingpessoal dos luxuosos recursos do animal. 

O Consumo Conspícuo – Preferindo o cara ao invés do barato
Pássaro-caramancheiro
De acordo com o Global Luxury Retailing,os gastos mundiais com produtos de luxo chegarão a $450 bilhões em 2012, e 41,9% dos gastos se referem somente ao gasto com roupas (citado em Nelissen, 2011). Nelissen (2011) destaca o fato de que não é preciso ter uma renda muito alta para que a preferência pelo luxo se manifeste. De fato, até mesmo pessoas pobres em países em desenvolvimento se comportam dessa forma, por exemplo, preferindo roupas de marca do que sem marca ou de marcas menos luxuosas (mais baratas), o chamado consumo conspícuo (Veblen, 1899). De fato, essa face do comportamento humano acaba com a visão de consumidor racional que alguns economistas alimentam. Mas a lógica da preferência pelo mais caro é regida pelo ganho de status social. Status pode ser definido como a posição mais alta ocupada em algum setor das relações humanas, seja no mundo acadêmico, nas empresas, na rua, em casa, numa tribo e etc (Hyman, 1942).

Estudos de psicologia e outros com viés comparativo sugerem que esse é um fenômeno que rege o comportamento humano (Cummins, 2005; Miller, 2009; Saad, 2007), assim como o de primatas não humanos (de Waal, 1982); isso sem falar no exemplo do pavão, que mostra que essa é uma tendência dos animais em geral. Dessa forma, é coerente refletir sobre o fato de que para que os humanos consigam ostentar algo com sucesso, é de suma importância que o observador consiga processar aquilo como um indício das qualidades do ostentador. E o motivo de a seleção natural ter selecionado uma mente com capacidade para processar esse tipo de relação, é que a ostentação, seja do que for que tenha valor em dado cenário e época, beneficia as relações sociais para o ostentador. Nelissen (2011) realizou experimentos que corroboram essa hipótese. Mas, antes, vamos definir os critérios para que um comportamento seja considerado um consumo conspícuo:



1) Deve ser algo facilmente observável (ex: o rabo do pavão; uma longa capa, coroa brilhante e outros adereços dos reis; ninhos exageradamente ornamentados do pássaro-caramancheiro, um logo de uma roupa de grife);



2) Deve ser um sinal difícil ou/e custoso de se falsificar;

3) O sinal deve estar relacionado a algo que não é observado diretamente, ainda que seja desejável e que denote as qualidades do ostentador, como saúde, proteção e bons genes para uma prole saudável;   


4) O adereço, ou sinal, deve produzir um chamamento corporal.


Os exemplos do item 1 servem para todos os outros itens. Mas ao qual eu quero dar evidência é o último, as marcas de roupas. 

As Marcas de Roupas e a Ostentação do Consumo Conspícuo
Como vimos, os animais tendem a evidenciar os seus atributos não visíveis diretamente através do gastofuncionalmente desnecessário com elementos dispendiosos e chamativos, como uma forma, também, de promover seu status. Os humanos fazem exatamente isso. Observe os trajes e adereços desses indivíduos nas fotos a seguir:



Essa relação entre o consumo conspícuo, ostentação como referência a qualidades invisíveis e status ficou bem evidente, por exemplo, nos 9 experimentos feitos por Nilessen (2011) e sua equipe. No primeiro, um pequeno bloco em que a capa tinha a foto de um rapaz de boa aparência e as outras folhas eram de um também pequeno questionário, foram distribuídos nas ruas. O objetivo do questionário era avaliar o homem nos quesitos status, condição financeira, atratividade, amizade e confiabilidade. O detalhe é que, para um grupo de pessoas foi distribuído um conjunto de testes em que a blusa de gola polo que o homem usava, possuía uma pequena logo de uma famosa marca. Outro grupo de fotos foi manipulado para ter a logo de uma marca menos valorizada. Os blocos que apresentavam a foto do homem com a logo mais famosa foram melhor avaliados nos quesitos status e condição financeira.
Num segundo experimento, um homem saiu por um shopping pedindo doações para uma instituição de caridade. A tarefa foi dividida em duas etapas: primeiro usou uma blusa verde e lisa, e depois, a mesma blusa, porém, com um logo de uma marca bem conceituada. Os resultados mostraram que a coleta realizada com a blusa com a logo foi mais bem sucedida.
Outro estudo mostrou que candidatos a uma vaga de estágio em um laboratório tinham mais chances de serem selecionados quando estavam usando uma blusa de marca também (com o logo da marca visível).

Conclusão dos Experimentos   
Mais outros experimentos foram feitos mas os resultados sempre mostravam que as marcar mais bem conceituadas eram sempre mais bem avaliadas em relação à importância, status e condição financeira, também eram mais aceitas socialmente e conseguiam despertar com mais sucesso a atenção do público e convencê-los de algo, tanto das qualidades necessárias para uma vaga de estágio quanto para convencer alguém a fazer uma doação. 

As Preferências Femininas e o Consumo Conspícuo Masculino
Outro interessante dado é a maior atenção dada  pelas mulheres ao consumo conspícuo durante o período de ovulação (Lens, 2011). Isso é compatível com o modelo da psicologia evolucionista, que considera que a mente humana possui uma cognição moldada no ambiente de adaptação evolutiva (AAE), no Pleistoceno. Isso significa que, caso essa predileção feminina esteja relacionada diretamente a uma tendência evolutiva, relacionada à seleção sexual, o grau dessa característica seria variável ao longo do ciclo menstrual, com uma maior tendência à prestar atenção aos indícios de status social durante a fase da ovulação (período fértil) (Anderson et al., 2010). De fato, já foi verificado que nessa fase, as mulheres apresentam alterações nas preferências de características masculinas, apresentando maior atração por homens altos, com rosto mais másculo do que infantilizado, e com papel social dominante (Gangestad, Thornhill &Garver-Apgar, 2005; Lukaszewski & Roney, 2009). Assim, seria natural pensar também numa consequência para a percepção dos indícios de status masculino, assim como uma eliminação desses efeitos nas mulheres que fazem uso de pílulas anticoncepcionais. O resultado da pesquisa corroborou essas hipóteses, mostrando que produtos relacionados a luxo e que não são destacados por sua funcionalidade, despertavam dignificativamente mais a atenção das que estavam em período fértil.

Conclusão

Todas essas evidências mostram uma estrutura cognitiva comum aos seres humanos e aos animais nãohumanos. Primeiramente, podemos dizer que uma evidência é o fato de que para a lógica do statusfuncionar, precisamos ter uma mente que saiba evidenciá-lo e, por outro lado, uma que saiba percebê-lo como tal. Esse mecanismo é evidente na seleção sexual, como no exemplo do pássaro-caramancheiro,que gasta energia, recursos, tempo, e corre o risco de ficar mais visível aos predadores, ao enfeitar seu ninho da melhor manira possível a fim de “seduzir” as fêmeas. 


O consumo conspícuo é como se fosse uma regra que permanece constante mas que assume diversas faces no caso dos humanos. Hoje podemos dizer que essa estratégia é uma característica que foi mais útil na seleção sexual no nosso AAE até pouco tempo atrás, qundo era bem mais complicado de ostentar luxo sem que isso correspondesse diretamente a uma ampla gama de recursos, saúde e outras características buscadas pelas fêmeas. No caso dos humanos modernos, a possibilidade de comprar usando cartão de crédito, por exemplo, fez com que pessoas com baixa renda pudessem comprar coisas incompatíveis com suas possibilidades financeiras, considerando a compra à vista. Nossos ancestrais caçadores-coletores usavam adereços que mostravam claramente sua posição dentro do grupo. Indivíduos das altas hierarquias sempre eram os de idumentária mais barroca, o que persistiu até não muito tempo atrás, basta olhar as fotos de Reis e Imperadores e suas roupas e adereços barrocos. Porém, mesmo essas táticas não sendo tão eficazes hoje, essas pesquisas mostram que ainda continuamos com um cérebro ancestral.

Isso levanta uma hipótese interessante sobre a origem das roupas. Talvez as primeiras roupas servissem ao propósito de separar os indivíduos de acordo com sua posição social dentro das coalizões dos primeiros Homo sapiens sapiens e não para proteger do frio ou do calor, ou de parasitas. Ou, até, as primeiras roupas tenham servido a todos esses propósitos, matando vários coelhos com uma cajadada só.
  


ResearchBlogging.org
Referências

- ANDERSON, U. S., Perea, E. F., Becker, D. V., Ackerman, J. M., Shapiro, J. R., Neuberg, S. L.et al.,  I only have eyes for you: Ovulation redirects attention (but not memory) to attractive men. Journal of Experimental Social Psychology, 46(5),
804–808, 2010.

- BLIEGE, B., R., & Smith, E. A.; Signaling theory, strategic interaction, and symbolic capital. Current Anthropology, 46, 221–248, 2005.

- CRONK, L. ; The application of animal signaling theory to human phenomena: Some thoughts and clarifications. Social Science Information,
44, 603–620, 2005.

- CUMMINS, D. D., Dominance, status, and social hierarchies. In D. Buss (Ed.), The evolutionary psychology handbook (pp. 676−697).
New York: Wiley, 2005.

- DE WAAL, F., Chimpanzee Politics: Power and Sex Among Apes. London: Jonathon Cape, 1982.

- GANGESTAD, S. W., Thornhill, R., & Garver-Apgar, C. E., Adaptations to ovulation. In D. M. Buss (Ed.), Handbook of evolutionary psychology (pp. 344–371). New York:
Wiley, 2005.

- HYMAN, H. H., The Psychology of Status. New York: Columbia
University, 1942.

- LENS, Inge, Karolien Driesmans, Mario Pandelaere, Kim Janssens, Would male conspicuous consumption capture the female eye? Menstrual cycle effects on women's attention to status products, Journal of Experimental Social Psychology, 2011.

- MILLER, G.; Spent. Sex, Evolution, and Consumer Behavior. New York: Viking Penguin; 2009

- SAAD, G.; The Evolutionary Bases of Consumption. Mahwah, NJ: Erlbaum; 2007.

- NELISSEN, Rob M.A., Marijn H.C. Meijers, Social benefits of luxury brands as costly signals of wealth and status, Evolution and Human Behavior, 32, 343–355, 2011.



- VEBLEN, Thorstein B. (1965). A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Pioneira.


* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING 

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