Maria Emília Yamamoto pode ser considerada uma das “mães” da psicologia evolucionista brasileira. Pioneira na área, ela hoje é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e tem participação fundamental na promoção e no desenvolvimento da psicologia brasileira, especialmente da psicologia evolucionista (PE). Ela editou em co-autoria com a professora Maria Seidl o livro Psicologia evolucionista, primeiro manual brasileiro da área.
Assim como o Dida, a Maria Emilia veio da etologia, mas sua carreira foi se direcionando cada vez mais também para a PE. A professora Maria Emilia se tornou uma porta-voz da área e tem divulgado o seu trabalho em diversos congressos, palestras e eventos. Ela gentilmente nos cedeu uma entrevista rica, na qual foram discutidos diversos assuntos que ela, assim como muitos pesquisadores no mundo todo, tem tentando relacionar na sua pesquisa, como a evolução, a prosocialidade, a religião e a moralidade.

Maria Emilia, você pode nos contar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você está desenvolvendo em seu grupo de pesquisa atualmente e sobre os projetos que estão a caminho?
Meu principal interesse de pesquisa é o comportamento cooperativo sob uma ótica evolucionista. Investigo os moduladores desse comportamento, principalmente sob o ponto de vista próximo. Entre esses moduladores encontram-se, principalmente, as variáveis sociais, como a influência de grupos de pertinência, a vigilância, a ocorrência de punições e sanções, a trapaça. Há muitos anos a Psicologia vem mostrando que nós, humanos, somos não apenas animais sociais, mas também animais grupais. Por essa razão, é fácil induzir o favorecimento de grupos com os quais nos identificamos e a hostilidade em relação àqueles que consideramos como rivais. Nossas pesquisas e aquelas de outros pesquisadores sugerem que essas predisposições têm suas raízes em nosso passado ancestral, que favoreceu a aptidão daqueles que as possuíam. Atualmente, embora o ambiente seja muito diferente daquele experimentado por nossos ancestrais, várias dessas predisposições permanecem e influenciam nosso comportamento. Em função de nossa predisposição em nos filiarmos a grupos, os marcadores sociais associados a eles, sejam os de escolha, como religião, time de futebol, ou aqueles próprios ao indivíduo, como etnia e naturalidade, afetam nossas escolhas de parceiros de associação e cooperação.
Uma questão anterior àquela da associação diz respeito à classificação que fazemos dos indivíduos e que resulta na atribuição de pertinência a grupos. Estamos trabalhando essa questão usando a variável etnia e contrapondo-a à questão de coalizão de grupo, e nossos resultados até o momento sugerem que a composição étnica e social do local em que as pessoas vivem afetam essa classificação.
Ainda no tema de comportamento pró-social, avaliamos a cooperação com o grupo em crianças, em situação de jogos públicos. Investigamos a influência de variáveis tais como tamanho de grupo, vigilância e feedback positivo e negativo no comportamento pró-social.
Outro tema que investigamos bastante até alguns anos atrás e estamos retomando é o do comportamento alimentar. O que comemos é fortemente influenciado pelo nosso passado evolutivo, caracterizado por escassez ou, pelo menos, irregularidade da disponibilidade de alimentos. Essas condições deram oportunidade para um tipo de comportamento que Rozin chama do dilema do onívoro, que consiste na relutância em experimentar alimentos novos, pois alimentos novos no nosso passado ancestral podiam ser tóxicos, mas, por outro lado, a tentação de incorporar novos itens à dieta, frente à escassez regular ou sazonal de alimentos. Atualmente, a probabilidade de ingerirmos alimentos tóxicos entre os disponíveis é muita baixa, mas muitos indivíduos apresentam uma reação neofóbica a alimentos não familiares, e recusam-se a ingeri-los. Investigamos quais as condições que favorecem essa reação e quais a atenuam. Ainda dentro do comportamento alimentar, a obesidade é um comportamento frequente e induzido, entre outros fatores, por nossa tendência a preferir alimentos calóricos, principalmente aqueles ricos em gordura e açúcares, novamente uma predisposição moldada em ambientes nos quais esses tipos de alimentos eram escassos. É claro que hoje, com supermercados à disposição isto não é mais verdade, e a facilidade em conseguir esse tipo de alimentos resulta em obesidade e em doenças que Nesse e Williams chama de doenças da civilização. Estamos retomando esta linha atualmente com o objetivo de investigar o craving, e seus fatores desencadeantes.
Como o altruísmo faz sentido a partir da ótica evolucionista? Não seria evolutivamente mais vantajoso agir apenas em nosso favor?
Esta foi uma questão que preocupou tanto ao Darwin, que ele chegou a acreditar que ela seria o fim de sua teoria. Ela começou a ser resolvida por Hamilton, que propôs a seleção de parentesco, que diz que ajudamos nossos parentes porque isto equivale, dependendo de quantos parentes são ajudados e de nosso grau de parentesco com eles, a ajudar a nós mesmos. Isto acontece porque, do ponto de vista evolutivo, quando falamos em altruísmo estamos nos referindo a capacidade de passar nossos genes para a próxima geração. Portanto, podemos ser altruístas do ponto de vista moral (ou próximo) e ao mesmo tempo egoístas do ponto de vista evolutivo (ou distal). É o que acontece quando ajudamos nossos parentes.
Mais tarde, Trivers apresenta a hipótese do altruísmo recíproco, que explica o comportamento altruísta dirigido a não parentes. Segundo esta teoria, em espécies com longo tempo de vida e boa capacidade de memória, como é o caso dos humanos, haveria a possibilidade de prestar favores a indivíduos não aparentados na expectativa de uma retribuição futura. A capacidade de memória nos permitiria lembrar e reencontrar nossos devedores, e o longo tempo de vida, oportunidades de cobrar nossas dívidas. Dessa maneira, como na seleção de parentesco, ao ajudar outros estaríamos ajudando a nós mesmos.
Porém, nem só da retribuição direta vive o homem. Na realidade, vivemos em grande parte de nossa reputação, ou do altruísmo indireto, que nada mais é do que praticar uma boa ação na frente de uma audiência interessada. Vários estudos têm demonstrado (dentre os quais os excelentes trabalhos de Milinski) que ao exibir nossa boa vontade e disposição para cooperar, atraímos a boa vontade e a cooperação de outros, que reagem a nossa boa reputação.
É importante destacar que a maior parte dessas ações não são planejadas de forma maquiavélica ou calculista. Embora alguns indivíduos possam se aproveitar de nossa tendência a cooperar com parentes, a retornar favores e boas ações ou a cooperar com aqueles que temos em alta conta, na maior parte das vezes agimos assim porque consideramos que essa é a maneira correta de agir. Ou seja, seguimos predisposições que foram selecionadas durante nosso passado evolutivo e reforçadas pelas regras da vida social, razão pela qual somos o que Wright chama de animais morais. Ao agir dessa forma, ao nos comportarmos altruisticamente, favorecemos outras pessoas, somos éticos, mas também aumentamos as chances de sermos, nós mesmos, os receptores do altruísmo de outros. Portanto, nosso altruísmo é em grande parte egoísta, do ponto de vista biológico.
Alguns autores argumentam que a religião, e que, em especial, os rituais religiosos, surgiram, entre outros motivos, como uma solução para o problema social da não cooperatividade (e.g. trapaceiros), como os proponentes da teoria da sinalização dispendiosa (costly signaling theory). Nesse sentido, qual é a relação entre a religião e a cooperação?
Há dois argumentos, na abordagem evolucionista, para o aparecimento da religião na espécie humana: a hipótese adaptacionista, descrita em sua pergunta, e a hipótese do spandrel, que sugere que a religião é um subproduto da mente evoluída.
A primeira hipótese faz todo sentido, pois uma das questões mais complicadas da vida social, até hoje, é evitar que outros se aproveitem de sistemas sociais que deveriam beneficiar apenas seus membros. Uma boa parte das normas sociais, até os dias atuais é dedicada a estabelecer obrigações e prever punições aos que não as cumprem. Nossos ancestrais provavelmente tiveram que lidar com esses mesmos problemas e a religião pode ter cumprido uma função adaptacionista ao estabelecer rituais de entrada e de manutenção tão custosos, que só valeria a pena cumpri-los caso houvesse um real comprometimento. Trapaceiros evitariam passar por experiências dolorosas ou de privação incluídas nesses rituais, e isto permitiria selecionar aqueles que realmente estariam identificados com o grupo.
A segunda hipótese sugere que a religião é um subproduto do crescimento exacerbado do cérebro humano, que deu margem ao desenvolvimento de mecanismos que favoreceriam o desenvolvimento de explicações sobrenaturais. Mais especificamente, Pascal Boyer, em seu livro Religion Explained, sugere o desenvolvimento de mecanismos tais como: o de detecção de agentes, que levaria a imaginar agentes por trás de eventos difíceis de ser explicados, como relâmpagos e trovões, e à proposição de suas causas a agentes sobrenaturais; à melhor memória para eventos minimamente contra intuitivos, o que estaria de acordo com deuses antropomórficos à semelhança dos humanos, porém mais poderosos; e mecanismos de prevenção de perigo, que poderiam ter levado ao desenvolvimento de rituais religiosos como forma de prevenir males futuros.
Evidências têm sido obtidas para as duas hipóteses, porém não foi possível, até o momento, descartar nenhuma delas. Fala a favor da hipótese adaptacionista o fato de que grupos religiosos, especialmente aqueles que são mais estritos e/ou minoritários, demonstrarem alto grau de cooperação entre seus membros. Porém, outros grupos, não religiosos, também mostram disposição para cooperar, até mesmo grupos não estruturados, como o de ateus.
Portanto, existe claramente uma relação entre religião e cooperação, porém essa relação não é universal. Há grupos religiosos mais “frouxos”, nos quais a pertinência ao grupo não age necessariamente como referência para seus seguidores, e, por outro lado, há grupos não religiosos que mostram essa disposição, como grupos políticos (a história recente da União Soviética seria um exemplo interessante de analisar).
Prefiro pensar que a religião e cooperação estão relacionadas, da mesma maneira como a cooperação pode ser favorecida em outros grupos, não religiosos. Isto fala muito mais a favor de, como espécie, mostrarmos uma tendência a fazer parte de grupos do que a sermos religiosos.
Você tem investigado recentemente alguns aspectos relacionados à moralidade, à formação de grupos e à cooperação em crianças. Você poderia comentar um pouco sobre essa sua pesquisa e sobre como estes fenômenos sociais interagem?
Desde que a Psicologia começou a se interessar pelo comportamento moral a questão de quando ele aparece, durante o desenvolvimento, esteve presente. Somos naturalmente morais ou aprendemos a nos comportar moralmente? Na realidade, estudos recentes sugerem que as duas coisas acontecem. Os trabalhos de Paul Bloom, Karen Wynn e sua equipe na universidade de Yale, mostram que existe um senso moral desde muito cedo. Dois pontos a destacar aqui: primeiro, isto é muito diferente do que a Psicologia tradicional tem afirmado sobre o desenvolvimento da moralidade, sugerindo que nascemos animais amorais (ver, por exemplo, Piaget e Kohlberg); em segundo lugar, estas descobertas poderiam sugerir que a socialização não é importante no desenvolvimento da moralidade. Na realidade, como eu havia mencionado antes, os dois aspectos se complementam.
Todos, independente do tipo de criação que recebemos ou da cultura na qual vivemos, temos, desde muito cedo, algum senso do certo e do errado, do justo ou do injusto. No entanto, a cultura e a criação constroem sobre e modelam esta nossa predisposição. A moralidade, tal como a conhecemos e que a maioria de nós exerce, é uma síntese de predisposições biológicas e da socialização. Ela está solidamente fundada em um aparato básico que faz com que os bebês, nos estudos citados acima, prefiram os bichinhos e objetos que ajudam e são gentis em relação aos que atrapalham ou são maus. Mas a moralidade é mais do que isso – ela também é o produto da nossa cultura e de normas que são comunitariamente acordadas.
Nesse sentido, o que entendemos por comportamento moral ou altruísta na perspectiva evolucionista, pode ser bastante diverso daquilo que se chama comportamento moral em outras áreas ou disciplinas. Estamos interessados nos impactos desses comportamentos sobre a aptidão individual, e por essa razão, comportamentos que são genuinamente morais ou altruístas do ponto de vista ético podem não o ser do ponto de vista evolutivo. Crianças e outros indivíduos indefesos ou desprotegidos são frequentemente o alvo de comportamentos de ajuda e solidariedade. Crianças, principalmente aquelas que parecem mais desprotegidas, fracas ou aquelas que têm características infantis mais pronunciadas, frequentemente induzem comportamentos de ajuda e proteção. Porém, isto acontece principalmente quando o protetor é um adulto. Resultados iniciais de um estudo que estamos desenvolvendo sugerem que crianças mais velhas não se mostram tão complacentes em relação a crianças mais jovens. Portanto, este é um padrão de comportamento que se desenvolve ao longo da vida e sofre o efeito da socialização, como enfatizei acima.
Investigamos também se crianças de 6 a 11 anos cooperavam com seu grupo, abrindo mão de uma recompensa imediata em favor de uma recompensa maior mais tarde. Descobrimos que elas tem maiores chances de fazer isto quando algumas circunstâncias estão presentes, como um grupo pequeno e mais vigilante, umfeedback relativo ao comportamento do grupo, entre outras. Tal como adultos, crianças avaliam as condições presentes, e decidem qual a melhor estratégia.
Finalmente, investigamos também o efeito do grupo de pertinência sobre a generosidade. Vimos que grupos religiosos ou ateus tendem a ser mais generosos com seu pares, e igualmente generosos (ou pouco generosos) com outros indivíduos. A ideia de fazer o bem sem olhar a quem, tão cara a algumas religiões, não parece se manter – fazer o bem sim, porém com uma seleção muito cuidadosa de quem recebe o benefício. Este é um comportamento de favorecimento do grupo, bastante estudado em psicologia social. Acrescentamos uma explicação mais ampla, baseada no modo de vida ancestral, quando nossos ancestrais dependiam de seu grupo para sobrevivência e temiam estranhos. Considero que esta abordagem complementa as explicações dadas pela psicologia social, inserindo na equação as predisposições biológicas, que irão modular a expressão do comportamento.
Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
Fiz minha formação pós-graduada na área de comportamento animal. Meu interesse pelo estudo do comportamento animal foi despertado ainda na graduação. Trabalhei muitos anos com saguis, peixes e golfinhos. Na realidade, as perguntas que fazemos em relação aos humanos, na abordagem evolucionista, são as mesmas que fazemos para as outras espécies. Claro que há, eu não diria complicadores, mas especificidades. Folley diz que somos apenas mais uma espécie única, e eu não poderia concordar mais. Pelo fato de ser psicóloga e orientar vários psicólogos, a ampliação de minha área de trabalho incluindo humanos foi uma coisa natural. Continuo até hoje interessada em estudar saguis, que são animais extremamente interessantes, e faço também alguns trabalhos com peixes.
É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Esta resposta é necessariamente comparativa. Eu vivi os anos difíceis da pesquisa no Brasil, quando os recursos eram poucos e o trabalho, principalmente na área de humanas e sociais, pouco valorizado. Hoje temos recursos, temos laboratórios temos reconhecimento e, principalmente, temos uma mudança de mentalidade no que diz respeito a pesquisa. Ela deixou de ser considerada, pelos nossos dirigentes, como um artigo supérfluo e de luxo, principalmente nas ciências humanas e sociais. É claro que há dificuldades inerentes ao trabalho do pesquisador, mas essas dificuldades todos nós enfrentamos.
Existem mudanças que facilitariam o seu trabalho?
Claro! Fazer pesquisa em uma universidade pública tem muitas vantagens, mas lidamos com a lentidão paquidérmica da burocracia estatal. Costumo dizer que às vezes é mais difícil gastar os recursos do que consegui-los. Outro entrave são os comitês de ética, formados for pessoas bem intencionadas mas mal informadas, que equiparam estudos altamente invasivos e potencialmente danosos com estudos que utilizam um questionário. Além disso, algumas vezes acreditam que devem dizer ao pesquisador que metodologia utilizar sem sequer conhecer a área de trabalho em exame. Isto tem atrasado e prejudicado imensamente o trabalho do pesquisador em ciências humanas.
Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
Mais do que conselhos, o que me ajudou foram exemplos de conduta. De meu orientador, que nunca teve medo de arriscar e sair de sua zona de conforto, para tocar uma investigação inovadora e de resultados altamente incertos. De meus colegas, que nos tempos mais difíceis persistiram fazendo pesquisa e tentando publicar, contra todos os empecilhos.
Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Eu recomendaria o livro que editei junto com a professora Emma Otta, da USP,Psicologia Evolucionista. Porém (e coloque isto na conta das dificuldades), com a edição completamente esgotada, a editora nos avisou que não irá reimprimir o livro por não haver um retorno comercial adequado. Felizmente, há vários outros livros, a maioria traduzidos, interessantes e valem a pena ser lidos, como os de Frank de Waal, Matt Ridley e outros. Claro que se o interesse é mais acadêmico, há necessidade de recorrer aos papers, que são mais atualizados e rigorosos. Publicamos em 2010 um dossiê na revista Estudos de Psicologia que também pode servir de referência a quem quer um primeiro contato com a área.
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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!

O professor Gerson A. Janczura estuda a memória humana no Laboratório de Processos Cognitivos da Universidade de Brasília (UnB). Sendo um dos pioneiros da área, Gerson teve um papel importante na introdução e expansão da psicologia cognitiva no Brasil. Nesta entrevista que ele gentilmente nos cedeu, o professor explorou um pouco do conhecimento que possuímos hoje acerca de como a memória humana funciona, de como somos capazes de formar memórias falsas, das intervenções práticas que a psicologia cognitiva pode subsidiar e das dificuldades que a psicologia cognitiva enfrenta para ganhar espaço no Brasil.


Gerson, você poderia nos falar brevemente sobre os projetos de pesquisa que você tem conduzido no seu grupo de pesquisa? 
A maioria dos projetos desenvolvidos no Laboratório de Processos Cognitivos/UnB estão associados à investigação da Memória Humana. Duas questões centrais de interesse orientam os projetos: a primeira se relaciona à representação mental do conhecimento na memória e, a segunda, sobre a interação entre a Memória e outros Processos Cognitivos. Seguem alguns projetos em andamento:

1)      Normas de Associação Semântica: este projeto está mapeando as redes associativas de material verbal (palavras) que incluem medidas de força associativa, tamanho do conjunto, conectividade e ressonância. A produção deste material permitirá investigar as influências de mecanismos implícitas (e.g., priming) em medidas de memória diretas e indiretas, assim como a sua influência em outros processos cognitivos como o Raciocínio Lógico e a Categorização.

2)      Categorização e Memória: investiga o efeito de mecanismos da memória no desempenho de tarefas que envolvem conceitos e categorias, classicamente conhecidas como “aprendizagem de conceitos”. As questões de interesse se relacionam à aquisição e representação mental de conceitos naturais e artificiais, o efeito da tipicidade em tarefas de classificação, o efeito da força do traço e outras dimensões representacionais em problemas que envolvem o raciocínio dedutivo.

3)      Dicionário de Verbetes da Memória: este projeto está sendo desenvolvido junto ao GT da ANPEPP “Memória: Modelos, pesquisa básica e aplicações” que congrega 9 pesquisadores vinculados a sete universidades no Brasil e Portugal. O livro apresentará mais de 300 verbetes sobre a teoria e pesquisa sobre a Memória, assim como termos da Ciência Cognitiva.

4)      Projetos desenvolvidos junto aos alunos do Mestrado ou Doutorado:
a.       Treino da Memória para Idosos: Este projeto visa desenvolver um programa de intervenção e avaliação da memória para idosos focalizando a reabilitação das funções mnemônicas e a aquisição de estratégias de enfrentamento do comprometimento observado nesta etapa do desenvolvimento humano.

b.      Processo de facilitação e inibição na memória implícita de idosos: O projeto investiga o desempenho da memória na terceira idade verbal focalizando o papel das etapas de processamento implícito no acesso à informação em tarefas que solicitam a recuperação direta do material auxiliada por pistas.

c.       O desempenho de enxadristas em função da especialização e fases do jogo: Este projeto se insere no campo da Resolução de Problemas e Expertise pretendendo colaborar na compreensão das diferenças entre novatos e especialistas, assim como no curso do desenvolvimento da especialização.
d.      Programa de Reabilitação de Indivíduos com Lesão do Plexo: O objetivo deste projeto é desenvolver um programa de intervenção, baseado em técnicas imagísticas e atividades fisioterápicas, para indivíduos que sofreram a lesão do plexo e, em conseqüência, têm os movimentos do braço respectivo comprometido.

E quais são os projetos de pesquisa para o futuro?
Geralmente, os projetos desenvolvidos pelos pesquisadores estão inseridos em Programas de Pesquisa. No Laboratório de Processos Cognitivos da UnB desenvolvemos estudos em dois grandes programas de pesquisa: um programa direcionado ao desenvolvimento de intervenções relacionadas a diferentes tipos de dificuldades cognitivas (por exemplo, problemas relacionados à memória), e outro programa voltado para a pesquisa básica (por exemplo, desenvolvimento da expertise, investigação de dificuldades de leitura, fatores que influenciam o desempenho da memória). Estes programas de pesquisa interagem, isto é, promovemos uma troca entre as pesquisas básica e aplicada.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
Meu interesse na pesquisa psicológica iniciou na época da graduação. Na ocasião, atuava como monitor do Laboratório de Aprendizagem Animal na PUCRS. Este interesse foi se consolidando quando passei a coordenar o Laboratório de Percepção e Psicofísica na mesma IES, e desenvolvi minha primeira pesquisa no campo da Percepção e Psicofísica investigando a Ilusão de Myller-Lyer. Na mesma época, fui convidado para colaborar na montagem do Laboratório de Aprendizagem Animal da UCS/RS. Naquele período não tinha, ainda, entrado em contato com a Psicologia Cognitiva Experimental. O primeiro contato com a área ocorreu quando fiz o mestrado na UnB, na década de 1980. No início do mestrado esperava desenvolver a pesquisa de conclusão seguindo a abordagem da Análise Experimental do Comportamento. Entretanto, experienciava muitas dúvidas e insatisfações teóricas, metodológicas e empíricas com esta perspectiva. Minhas críticas eram semelhantes àquelas relatadas na história da Psicologia Cognitiva nas décadas de 1950 e 1960. Durante o mestrado tive a oportunidade de conhecer a abordagem do processamento da informação e desenvolver minha pesquisa no campo da representação mental do conhecimento.

Alguns dos seus projetos indicam que o conhecimento produzido pela psicologia cognitiva tem permitido o desenvolvimento de intervenções efetivas em indivíduos com prejuízos na memória (e.g. idosos). Conte-nos um pouco sobre este tipo de aplicação da psicologia cognitiva e como tem sido a sua experiência com estas aplicações.
Desenvolvemos um programa de intervenção e avaliação da memória para idosos institucionalizados. Nossa motivação era promover qualidade de vida de um grupo que tem recebido pouca atenção. Os procedimentos, desenvolvidos em sessões com 60 minutos, duas vezes por semana durante quase quatro semanas, evidenciaram que a intervenção melhorou o desempenho em testes de memória. Além disso, foi verificado que os idosos também obtiveram uma avaliação melhor em testes de avaliação neuropsicológica após o treinamento. Os procedimentos implementados no treino de memória foram delineados a partir do conhecimento científicos acerca dos processos da memória e dos fatores que podem favorecer ou dificultar o seu desempenho. Esta proposta será, agora, estendida e ampliada para idosos sem comprometimento cognitivo severo. O termo “envelhecimento cognitivo normal” está associado às características cognitivas observadas na terceira idade que não são atribuídas a condições patológicas como, por exemplo, a Doença de Alzheimer.
Outra derivação tecnológica que estamos desenvolvendo se apóia em estudos experimentais e clínicos sobre a influência da imagística no indivíduo. Pesquisas e a prática clínica têm evidenciado que o uso de imagens mentais pode afetar o comportamento humano e o próprio funcionamento cerebral. Este fato pode ser útil no programa de intervenção que estamos desenvolvendo, baseado em técnicas imagísticas e atividades fisioterápicas, para indivíduos que sofreram a lesão do plexo e, em conseqüência, têm os movimentos do braço(s) respectivo comprometido. A origem desta lesão é, usualmente, acidentes com motocicletas sendo que a maioria dos pacientes com esta condição é homem. Este projeto se encontra em avaliação pelo Comitê de Ética, e será brevemente iniciado. Ou seja, pacientes com esta condição serão submetidos a um programa de exercícios mentais associados a fisioterapia durante um conjunto de sessões. Nossa expectativa é que estes pacientes alcançarão maior recuperação dos movimentos comparados aos pacientes que somente receberão a fisioterapia.

Como você avalia as implicações do avanço das neurociências no estudo de aspectos cognitivos e comportamentais?
As neurociências têm impactado muito positivamente as hipóteses cognitivas sobre o comportamento humano. As evidências produzidas, por exemplos, pelas técnicas de neuroimagem têm confirmado muitas afirmações sobre o funcionamento da mente e evidenciado a necessidade de compreendermos e investigarmos os fenômenos psicológicos em, pelo menos, dois níveis: o nível neurológico e o nível cognitivo. Estes níveis interagem impondo limites mutuamente, tanto no comportamento quando nos modelos teóricos propostos pelos pesquisadores.

Considerando o panorama atual na psicologia cognitiva, o que nós sabemos hoje sobre o que é a memória e como ela funciona?
Trata-se de uma pergunta ambiciosa. A investigação científica da memória começou há mais de 100 anos e tem produzido uma vasta literatura científica que se dedica a relatar nosso conhecimento sobre a memória do ponto de vista cognitivo. Tentarei apontar alguns aspectos que considero relevantes. A memória é uma propriedade do cérebro que permite ao indivíduo manter sua história de aprendizagem ao longo do tempo. Sabemos que vários fatores influenciam a aquisição, retenção e recuperação destes conteúdos. Isto significa que o desempenho da memória pode ser beneficiado ou comprometido por diferentes processos, ou momentos, que designamos de codificação, armazenamento e recuperação. Estes fatores incluem as características da informação a serem memorizadas, as diferenças individuais, a natureza do teste de memória, as estratégias administradas pelo indivíduo no momento da memorização e da recuperação, como a informação é apresentada para memorização, o tempo decorrido entre a experiência e sua lembrança, entre outros fatores. Mas, é importante destacar que, além de suas contribuições individuais, as variáveis que afetam as diferentes etapas podem interagir influenciando a probabilidade de lembrarmos-nos de experiências e conhecimentos.
Um fator que mudou nossa compreensão sobre o funcionamento da memória foi relatado em vários estudos experimentais na década de 1970 com amnésicos e indivíduos sem danos aparentes de memória. Estes estudos mostraram que a chance de um amnésico lembrar informações também era influenciada pela maneira como aqueles pacientes eram testados. Demonstrou-se que os pacientes registravam experiências anteriores mesmo que não tivessem consciência destas no momento em que a memória era avaliada e, apesar disto, aquelas informações estavam influenciando seu comportamento atual. Estes resultados são semelhantes em indivíduos com memória intacta, ou seja, formamos nossas memórias com e sem a participação da consciência e evocamos informações com e sem intenção consciente. Atualmente, nossa compreensão sobre a memória contempla mecanismos conscientes (denominados de processos estratégicos) e inconscientes (denominados de processos automáticos). Neste sentido, a memória também se refere às influências dos conteúdos conscientes e inconscientes e dos mecanismos estratégicos e automáticos sobre o comportamento humano.
Sabemos que este funcionamento está sujeito a falhas incluindo esquecimentos temporários, esquecimentos parciais, e falsas lembranças (ou, falsas memórias). Estes fatos têm sido discutidos em função do caráter construtivo ou reconstrutivo da memória e têm influenciado nossa compreensão sobre diversos fenômenos cotidianos como a testemunha ocular e o depoimento assistido de crianças.
Além dos avanços na compreensão dos processos da memória, a pesquisa tem contribuído na concepção da memória como um sistema. Evoluímos do modelo clássico de um armazenador breve de experiências imediatas (i.e., Memória de Curto-Prazo) para um modelo mais satisfatório (i.e., Memória de Trabalho) que atende às demandas e complexidade das tarefas momentâneas. Vários modelos teórico-experimentais (e.g., MATRIX, PIER2, Modelos Conexionistas, TODAM, ACT*, CONJOINT RECOGNITION, MINERVA, CHARM) estão sendo testados e aprimorados para respondermos às questões fundamentais sobre como o conhecimento é armazenado, como é representado e retido durante longos períodos de tempo (i.e., Memória de Longo-Prazo).
Os comentários acima mencionaram, muito brevemente, apenas detalhes sobre nosso conhecimento atual sobre a memória humana. Vários campos de estudos que não citei incluem avanços nos temas: metamemória, memória sensorial, memória não-declarativa, memória episódica, memória autobiográfica, memória para o espaço e tempo, memória semântica, memória visual, desenvolvimento da memória, distúrbios da memória, memória na terceira idade, memória prospectiva, métodos de investigação da memória, e neurociência da memória.

O testemunho de pessoas que presenciaram determinados episódios (como um assassinato) pode ter um peso considerável no julgamento de um caso. Entretanto, muitas pesquisas na psicologia cognitiva indicam que modificamos frequentemente nossas memórias episódicas quando as recuperamos. Podemos confiar na nossa capacidade de recuperar estes episódios passados?
A observação de que o indivíduo pode gerar falsas memórias não implica que toda recordação seja falha, ou que devemos desconfiar de todas as nossas lembranças. As falsas memórias podem se relacionar a episódios específicos e traumatizantes, como um assassinato, mas também podem refletir experiências comuns do cotidiano. Entretanto, a maioria de nossas recordações é acurada. É importante lembrar que a memória não atua independentemente de outros processos mentais como, por exemplo, o raciocínio, a atenção. Isto significa que uma recordação pode sofrer o “filtro” de outras atividades mentais levando o indivíduo a concluir que determinada memória é falsa, verdadeira ou duvidosa. Além disso, não podemos excluir a contribuição de outros componentes da experiência humana como, por exemplo, a emoção e sua relação com a cognição.

É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Sim, é difícil. A pesquisa de ponta sobre a cognição humana é cara. Considere, por exemplo, que cada vez mais a pesquisa têm se apoiado em variáveis biológicas. Tanto as variáveis cognitivas quanto as biológicas demandam especialização metodológica de alto custo operacional. Como coletar dados de imagem cerebral sem a aparelhagem apropriada (RMF, fMRI, etc)? Outra dificuldade se relacionada à escassez de especialistas na área no país e ao ensino desta abordagem. Quantos cursos de graduação incluem Psicologia Cognitiva nos cursos de graduação? Quantos cursos de pós-graduação têm linhas de pesquisa e programas de pesquisa nesta abordagem? Apesar de esta perspectiva teórico-metodológica estar consolidada em outros países há muitas décadas, no Brasil somente mais recentemente a área cognitiva tem logrado participação e reconhecimento na comunidade científica e nos meios acadêmicos.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
 Um dos conselhos mais úteis que recebi durante meu doutoramento foi sempre “fazer o melhor possível em minhas tarefas”. Este conselho foi dado pelo meu orientador, Dr. Douglas L. Nelson da University of South Florida/USA, lá nos anos 1990.

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Vários livros sobre a área já estão disponíveis no Brasil. Se a pessoa não tem familiaridade com a área sugiro que leia um manual ou livro texto. Um panorama amplo da área é oferecido por:

- Sternberg, R.J. (2010). Psicologia Cognitiva (Tradução da 5a.ed.). São Paulo: CENGAGE.
- John R. Anderson (2004), Psicologia Cognitiva e suas Implicações Experimentais, 5a. Edição, Editora LTC.
- Matlin, M. (2004). Psicologia Cognitiva. 5. ed. São Paulo: LTC.
Se a pessoa tem interesse em Terapia Cognitiva, sugiro que inicie com a leitura de:
- Beck, J. S. (1997). Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Porto Alegre: ARTMED.

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Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia


O premio Nobel pode ser considerado a congratulação máxima hoje existente para um cientista. Os maiores nomes da ciência após anos de intenso trabalho, publicação e estudo podem conseguir essa premiação com descobertas admiráveis e que provocaram ou provocarão mudanças significativas no mundo.
Todo psicólogo ou estudante de psicologia já ouviu falar na história de um psicólogo que conseguiu ganhar um premio Nobel, único cientista do comportamento genuinamente formado em psicologia a conseguir tal feito. Há uma lenda urbana que inclusive diz que Freud – que se considerava psicólogo, apesar da formação em Medicina – teria vencido um premio Nobel de literatura, o que não é verdade. O primeiro psicólogo a vencer o prêmio Nobel se chama Daniel Kahneman. 

Atual professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Princenton, o israelense Kahneman foi laureado com o Prêmio em Ciências Econômicas em Homenagem a Alfred Nobel em 2002, prêmio este que de fato não é um Nobel, pois não é entregue pela academia suíça, mas figura e tem o valor estimado como um dos prêmios originais criados por Alfred Nobel, sendo considerado o Prêmio Nobel de Economia. Em sua carreira ensinou e pesquisou em diversos centros de estudo em psicologia experimental e cognitiva, se dedicando e sendo valorizado pelos seus trabalhos em tomada de decisão na economia.

Kahneman desenvolveu sua teoria com Amos Tversky, que faleceu devido a um câncer antes de poder ver o fruto de seus trabalhos vencer um prêmio da magnitude de um Nobel, mas que sempre foi lembrado pelo seu colaborador como tão merecedor do prêmio quanto ele.  Kahneman e Tversky usavam teorias das ciências cognitivas para poder analisar como a motivação e o comportamento influencia a economia, usando bases cognitivas para erros comuns, como heurísticas e vieses psicológicos. A teoria, chamada de Prospect Theory, se baseia na premissa de que as pessoas tendem a se assegurar em suas crenças acerca das possibilidades de lucro quando surge a necessidade de tomar decisões econômicas incertas. Ou seja, as pessoas confiam em um número limitado de heurísticas que serviriam para reduzir a complexidade da tarefa de acessar as probabilidades dos resultados advindos de uma decisão qualquer – com um foco na economia, no caso de Kahneman – a fim de tomar a melhor decisão.



Como característica principal, a Prospect Theory foi criada como um modelo descritivo de tomada de decisão sob riscos que fosse de encontro e servisse de crítica ao modelo teórico anteriormente vigente na economia, inserindo nos modelos econômicos o fator psicológico da domada de decisão. Kahneman – e Tversky – são exemplos claros da grande possibilidade de inserção do psicólogo nas mais diversas áreas de atuação e estudo, afinal, com o conhecimento acerca dos processos fundamentais que guiam o comportamento dos indivíduos, o psicólogo se estabelece como peça de importante valor em qualquer área em que esse conhecimento seja requerido. A Psicologia Organizacional – talvez a área mais próxima à de Kahneman – se posicionará futuramente como uma área de ainda mais valor para o entendimento dos processos básicos que direcionam toda a economia. 

O prêmio Nobel sempre foi muito bem relacionado com estudos psicológicos. Além de Kahneman, há outros vencedores de prêmios Nobel com trabalhos que podem ser relacionados à Psicologia, como Frisch, Konrad Lorenz e Tinbergen que em 1973 foram premiados pelos seus estudos sobre etologia e comunicação animal; Sperry, Hubel e Wiesel, pela descoberta de diferenças entre o hemisfério esquerdo e direito do cérebro; ou mesmo os estudos de Carlson, Greengard e Kandel que resultaram em um Nobel em 2000, sobre a transdução de sinal do sistema nervoso (Kandel sendo um dos autores do famoso livro – considerado a bíblia da neurociência – Principles of Neural Science). Além destes e outros tantos não citados, há ainda os cientistas que, embora muito bem quistos na psicologia, ganharam o prêmio com pesquisas em outras áreas, um deles, por exemplo, é o médico Pavlov, laureado com o Nobel de Medicina de 1904 por trabalhos sobre fisiologia da digestão.


Para o futuro o desejo maior é de que muitos prêmios possam vir para profissionais relacionados com estudos psicológicos e que mais psicólogos de formação ganhem prêmios ao se inserir com coragem em outras áreas, levando para elas um pouco mais do conhecimento ainda inicial, mas já robusto da psicologia científica.


Update: No dia 06 de Outubro mais um psicólogo foi laureado com o Prêmio Nobel, desta vez o de Literatura. O suéco Tomas Transtömer foi premiado pelas suas poesias. Transtömer é considerado um dos poetas mais importantes da Suécia, mas nunca teve nenhum de seus livros traduzidos para o português.

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Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision Under Risk. Econometrica, 47 (2), 263-292. http://www.jstor.org/pss/1914185

Tversky, A., & Kahneman, D. (1973). Availability: A heuristic for judging frequency and probability Cognitive Psychology, 5 (2), 207-232 DOI: 10.1016/0010-0285(73)90033-9

Tversky, A., & Kahneman, D. (1974). Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases Science, 185 (4157), 1124-1131 DOI: 10.1126/science.185.4157.1124 

Tversky, A., & Kahneman, D. (1992). Advances in prospect theory: Cumulative representation of uncertainty Journal of Risk and Uncertainty, 5 (4), 297-323 DOI: 10.1007/BF00122574 


A correria das cidades, a falta de tempo para realizar todas as tarefas requeridas diariamente, o afastamento das pessoas com que se convive, o embotamento afetivo e a presença cada vez mais intensa de estímulos distratores tem feito vir à tona um número expressivo de casos em que pessoas se encontram inquietas e incapazes de focar sua atenção, e assim, a mídia vai considerando esta incapacidade como um possível mal do século. Veja esse vídeo:







Achei esse vídeo interessante, é de um grupo que resolveu filmar uma série chamada “Fala que eu não te escuto”, nele, um dos integrantes pede informações para as pessoas e aproveita emendando frases absurdas em sua fala. Frases estas que acabam passando despercebidas. No vídeo as perguntas vão progressivamente sendo feitas com mais clareza, mais altas e, inclusive, com auxílios visuais, como tirar a camisa para tentar fazer o estímulo ser mais perceptível. Mesmo assim as pessoas se atém somente em responder à pergunta feita. Seria esse apenas um sinal de desinteresse com o dito após a pergunta ou uma incapacidade relacionada ao processamento corrente da própria pergunta feita e que interfere a apreensão de informações que seriam possivelmente irrelevantes?



A atenção pode ser definida como a alocação preferencial de recursos cognitivos para eventos que sejam mais relevantes para o indivíduo, é um tipo de processamento que permite a seleção de estímulos, e se caracteriza como o nome dado ao caráter direcional e à seletividade dos processos mentais organizados. A atenção não é mediada por uma única região cerebral, e nem pelo cérebro como um todo, mas por redes neurais, sendo uma delas difusa, que se caracteriza pela atenção global, ocorrendo no Tálamo e nos dois hemisférios cerebrais, e a focal, possuindo especialização espacial, se localizando em regiões frontais e parietais, principalmente no hemisfério direito do cérebro.



A atenção, ao permitir o processamento de uma quantidade limitada de informações de forma qualitativamente independente, pode ser dividida em subtipos, como a atenção seletiva, onde ocorre o foco em um estímulo de cada vez. A atenção seletiva ocorre quando há a seleção de parte de estímulos disponíveis para o processamento, onde as outras informações disponíveis ficariam então ‘suspensas’, direcionando o foco para estímulos relevantes em detrimento de distratores – tanto internos (que seriam traços de memória), quanto externos (como exemplo, no vídeo, a fala ignorada pelas pessoas). A atenção seletiva pode modular o processamento de informação antes mesmo de serem apresentadas tarefas ou estímulos, sendo crucial para a eficiência da tarefa posterior. Ou seja, quando um carro se aproxima de um indivíduo parado na rua, já se inicia uma preparação para a tarefa que está por vir – pois a pessoa previamente deve supor que alguma informação será pedida - e assim, o processamento direcionado para a resolução da tarefa, uma seleção que exclui qualquer informação desnecessária. Outra característica do processo atencional é que nele ocorre também uma alternância no direcionamento do foco dos estímulos, poderíamos supor que se o nome dessas pessoas fosse chamado ela tenderia a prestar atenção novamente ao que falava o indivíduo, mesmo que somente em algumas informações, ou, por exemplo, se ao invés de um homem sem camisa, estivesse na direção do veículo uma mulher, pois tal quadro é muito mais incomum.

Diversas funções cognitivas dependem da atenção. A incapacidade de selecionar estímulos e prestar atenção neles acaba por influenciar também o esquecimento, pois a atenção é altamente relacionada com a memória, a recordação de informações necessitam antes que estas tenham sido percebidas de forma precisa, com atenção. Ademais, esta incapacidade favorece o automatismo, ou seja, onde as pessoas agem sem ter um controle consciente das suas ações, devido, por exemplo, a ter um grande número de estímulos disponíveis e pouco tempo para selecioná-los. 

Outro fator que age diretamente na atenção é o interesse e a necessidade do indivíduo, pois estes motivam e guiam a seleção dos estímulos, como exemplo temos o dito pelas mães sobre os filhos que conseguem prestar atenção em um videogame ou um programa de televisão, mas não às suas “sugestões” de arrumar o quarto ou nas instruções básicas do manual materno de como evitar morrer por hipotermia ao usar o casaco ao sair de casa (em qualquer horário, com qualquer temperatura). Diversas desordens psiquiátricas sofrem déficits atencionais, como exemplo, o famoso Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No TDAH o que acontece não é uma incapacidade de selecionar os estímulos mais interessantes para si, mas sim o impedimento da 'inibição ativa' de estímulos, ou seja, a criança ou adulto não consegue impedir que estímulos distratores façam com que ela perca a atenção em uma tarefa, por mais motivadas que estejam a conseguir esse foco. Essa é uma compreensão importante do TDAH, pois como é um transtorno infantil e muitas vezes relacionado com um mau desempenho escolar, acabam-se criando justificativas plausíveis, porém irreais, para a desatenção que acomete esses indivíduos, como a pobreza, diferenças entre classes sociais, uma má relação familiar, entre outros. A atenção é sim influenciada por diversos fatores, tanto ambientais quanto internos, tanto sociais quanto fisiológicos, e mesmo o sistema de crenças e a memória dos sujeitos, mas os déficits atencionais encontrados em crianças e adultos com TDAH estão presentes em famílias de qualquer classe social, com crianças bem ou mal estimuladas, e em famílias estruturadas ou não. Todos esses pontos podem agravar um caso de TDAH, mas não causá-lo.



Voltando ao vídeo, ele seria um retrato do desleixo com o ouvir ou é uma apresentação da forte concorrência entre o processamento requerido com o pedido de informação e a capacidade de atenção? Em texto anterior, foi falado sobre a categorização que ocorre entre as pessoas e como uma indisponibilidade atencional facilita pensamentos estereotipados, igualmente, com a sobrecarga do processamento ao realizar diversas tarefas, o resultado é uma seleção de estímulos que acaba por não se considerar as frases ditas posteriormente. No vídeo do "Fala que eu não te escuto" a tarefa interfere na possível aquisição das outras informações. 

Só mais um vídeo, esse de uma campanha antiga e você já deve conhecer, mas vale a pena vê-lo de novo:




Resumindo, a Atenção é importante e existe por ter sido um processo que durante a evolução foi fundamental para a sobrevivência, permitindo o foco em informações mais pertinentes para esta, e até hoje pode ser a linha que garante que algumas vidas sejam salvas ou pelo menos não sejam tiradas, como em acidentes de trânsito. Ou quando nós formos explodir uma bomba no Ibirapuera algum dia...



Hã? 


 ResearchBlogging.orgBenczik, E; & Casella, E. B. (2007). Atenção. Alguns Domínios da Avaliação Psicológica.
 
Coutinho, G.; Mattos, P.; & Abreu, N. (2010). Atenção. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed.

Karatekin, C. (2001). Developmental disorders of attention. In C. A. Nelson & M. Luciana (Eds.), Handbook of Developmental Cognitive Neuroscience (pp. 561-576). Cambridge, MA:  MIT Press.

Por André Rabelo*


ResearchBlogging.orgEm inúmeras situações do nosso cotidiano, fazemos coisas aparentemente sem pensar muito, como quando dirigimos um carro, trancamos a porta de casa mas logo em seguida não lembramos se de fato fechamos, ou subimos escadas de um edifício. “Aonde eu estava com a cabeça” uma pessoa pode dizer ao se dar conta de que jogou na máquina de lavar a roupa limpa que ia usar e vestiu a roupa suja que ia colocar na máquina.

Em casos mais extremos, agir de forma “instantânea” pode ter resultados muito piores do que trocar roupas. Vejamos um exemplo dado por Fiske e Taylor (2008): Pedro está no shopping e vê de repente dois homens negros sendo perseguidos por um segurança branco, ambos vindo em sua direção. Quando Pedro se dá conta do que está acontecendo, o primeiro dos dois homens estava passando ao seu lado, mas ao ver o segundo homem se aproximar Pedro se levanta e o segura, achando que poderia deter ao menos um dos ladrões que o segurança perseguia. O homem agarrado diz que é o dono da loja e que o ladrão (o primeiro homem) estava fungindo.

Esses são exemplos de situações onde as pessoas parecem não estar muito atentas ao que fazem, de tão acostumadas que já estão em realizar certas ações ou de tão pouco tempo que dispõe para tomar uma decisão. Uma parte dos nossos comportamentos parece se dar de forma automática, sem que precisemos deliberar e planejar de forma consciente cada detalhe das nossas ações. A maioria das situações cotidianas demanda que nos comportemos de forma rápida e eficiente, sendo que se tornaria inviável para fins práticos se tivessemos que pensar sobre cada detalhe das nossas ações antes de realizá-las. Isso é o que vários estudos em Cognição Social tem investigado nos últimos anos.

Os pesquisadores dessa área formularam modelos teóricos que buscaram explicar as operações mentais envolvidas no comportamento social das pessoas. Muitos modelos de processamento da informação foram sistematizados por diversos autores nos últimos anos, mas, em geral, boa parte das propostas compartilham de algumas características comuns. Para fins didáticos, podemos nos referir à esses pontos comuns entre os modelos como constituintes do Modelo Duplo de Processamento da Informação.


De forma sucinta, esse modelo busca explicar a diversidade dos pensamentos, sentimentos e comportamentos das pessoas (Fiske e Taylor, 2008), a partir do entendimento de como as pessoas processam as informações e de como variáveis podem influenciar esse processamento.

Algumas nomenclaturas foram sugeridas para designar os componentes desse modelo, entre elas a de Sistema 1 para a dimensão mais automática do processamento de informações, e Sistema 2, para a mais controlada. Na tabela ao lado, são apresentadas algumas características desses dois pólos de processamento da informação (Fiske e Taylor, 2008).

Mais antigo do ponto de vista evolutivo, o Sistema 1 representa um sistema de processamento de informação mais rápido, inconsciente e inflexível, envolvido, por exemplo, na formação das primeiras impressões que criamos de outras pessoas. Algumas áreas cerebrais como a amígdala, o córtex pré-frontal ventromedial, os gânglios basais e o córtex temporal lateral parecem estar especialmente relacionadas à esses sistemas de processamento (Fiske e Taylor, 2008).

O Sistema 2, entendido por alguns autores como sendo único do ser humano e responsável pela nossa capacidade de pensamento abstrato descontextualizado (Evans e Frankish, 2009), representa um sistema de processamento de informação mais lento, consciente e flexível, que pode atuar, por exemplo, quando estamos realizando cálculos durante um exercício de matemática. Esse sistema tem sido relacionado com áreas cerebrais como o córtex pré-frontal lateral, o lobo temporal medial e o córtex parietal lateral (Fiske e Taylor, 2008).

Para compreender como as pessoas transitam entre esses dois sistemas de processamento da informação, motivações como a necessidade de pertencer à grupos, de compreensão do seu ambiente, de controle do seu ambiente, de percepção positiva de si mesmo e de confiança no grupo de pessoas que faz parte tem sido apontadas como importantes variáveis no entendimento da dinâmica entre o Sistema 1 e Sistema 2.

O modelo geral proposto se baseia em um continuum onde o nível de automatismo do processamento da informação varia. Alguns níveis deste continuum foram detalhados por Fiske e Taylor (2008), como são apresentados na tabela abaixo.

Ao longo dos anos foram criados paradigmas experimentais (formas de conduzir uma investigação) que testassem o modelo. Um dos mais importantes foram os estudos de priming, que analisam os componentes mais automáticos do processamento da informação.

Não existe tradução adequada para esse termo, porém a idéia geral do priming é parecida com a de ativação, onde um estímulo ativa determinados pacotes de representações mentais associadas, tornando mais acessível ao indivíduo essas representações e outras que estejam associadas a elas. A melhor forma de entender o que é o priming, e como ele pode ser usado para testar empiricamente o modelo é através da descrição desse paradigma.

Imagine que você é um estudante da Universidade de Nova York em 1996 e foi convidado para participar de um estudo de psicologia (Bargh, Chen e Burrows, 1996). Os estudantes viam de 4 a 25 círculos coloridos em uma série de telas por 2 ou 3 segundos em um computador, e era pedido que eles dissessem se o número de círculos era par ou ímpar (uma tarefa bem monótona e desinteressante).

Depois de 130 apresentações, aparecia uma mensagem de erro na tela do computador dizendo que nenhuma resposta havia sido salva, e que o experimento precisaria de reiniciar. Sem conhecimento prévio, os estudantes tiveram suas faces gravadas, registrando-se suas reações à mensagem, e, posteriormente, sendo revelado e pedida a autorização dos mesmos para utilização do material. Sem o conhecimento deles também, antes de cada apresentação dos círculos eles viam fotos em preto e branco de um “americano africano” ou de um “americano europeu”, a velocidades subliminares (de 13 a 26 milisegundos).

Todos os participantes eram “americanos europeus”. As expressões faciais foram significativamente mais hostis no grupo experimental que foi exposto às imagens de americano africano do que no grupo exposto às imagens de americano europeu. Nesse experimento, emoções hostis foram eliciadas nos participantes através das imagens, que foram mais facilmente expressas devido ao contexto propício para tal manifestação (a situação de irritabilidade diante do erro do computador).

Esse estudo pode sucitar lembranças relativas ao caso das mensagens subliminares em cinemas, onde imagens de refrigerante apresentadas abaixo do limiar da consciência fariam as pessoas tomarem mais refrigerante, o que não foi apoiado por estudos mais acurados feitos logo em seguida. O paradigma de priming não se baseia em uma idéia tão simples quanto à das mensagens subliminares, já que uma série de variáveis podem infuenciar o grau que tal manipulação poderia afetar o comportamento. Porém, teoricamente, esse tipo de efeito é possível de ser obtido, sob determinadas condições experimentais. Uma nota importante é que propagandas supraliminares, ou seja, apresentadas em um nível consciente de percepção, como um panfleto, apresentam efeitos mais robustos que as subliminares, segundo estudos em psicologia do consumidor apontam.

Outro experimento obteve evidências de que ativar conceitos relacionados à velhice pode ter efeitos no comportamento dos indivíduos, como andar mais devagar em um corredor, em relação a indivíduos que foram ativados com categorias desconectadas de velhice (Bargh, Chen e Burrows, 1996).

Esse paradigma experimental foi tão importante que se popularizou na pesquisa da área desde os anos 90. Um exemplo de artigo muito recente foi o que saiu no número do mês de maio do Journal of Personality and Social Psychology, um dos periódico mais importante de psicologia social no mundo atualmente, que realizou estudos experimentais envolvendo o paradigma do priming para estudar a relação entre segurança, autenticidade e honestidade (Gillath, Sesko, Shaver e Chun, 2010).


Referências:

Bargh JA, Chen M, & Burrows L (1996). Automaticity of social behavior: direct effects of trait construct and stereotype-activation on action. Journal of personality and social psychology, 71 (2), 230-44 PMID: 8765481

Evans, J. S. B. T., & Frankish, K. (2009). In two minds: Dual processes and beyond Oxford University Press

Fiske, S. T., & Taylor, S. E. (2008). Social cognition: From brains to culture (1 ed.) New York: McGraw-Hill.

Gillath, O., Sesko, A., Shaver, P., & Chun, D. (2010). Attachment, authenticity, and honesty: Dispositional and experimentally induced security can reduce self- and other-deception. Journal of Personality and Social Psychology, 98 (5), 841-855 DOI: 10.1037/a0019206



* André Rabelo é estudante de graduação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Além de ser editor do Blog Ciência - Uma Velha no Escuro, é colaborador do Blog de Astronomia do astroPT e do Bule Voador.

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