* Texto "Um Bom Momento Para o Estudo da Neurociência Cognitiva Social", publicado no Boletim da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia de Maio de 2012.

O aumento expressivo da visibilidade dos argumentos neuropsicológicos no cenário mundial parece denotar uma força crescente da Neuropsicologia entre os psicólogos. Visibilidade esta que parece estar também se expandindo progressivamente no âmbito nacional, tendo em vista que os tópicos abordados na área e os achados provenientes de estudos neuropsicológicos tem sido foco de um interesse cada vez mais intenso não só por parte de estudantes do comportamento, mas como da mídia e da população em geral. Observando este quadro, talvez este seja um bom momento para que os neuropsicólogos nacionais possam se dispor a investigações interdisciplinares, não só visando aumentar sua área de atuação, como também a solidez das suas teorias. Partindo da interdisciplinaridade natural da Neuropsicologia e a possibilidade de possíveis bons frutos provenientes desta postura, uma sugestão é a de que os neuropsicólogos brasileiros passem a integrar cada vez mais em suas investigações e práticas o estudo social do comportamento, tema central da Psicologia Social.

Uma característica da Psicologia Social é a de que mesmo durante os anos em que imperou o argumento condutivista na psicologia, esta disciplina foi uma das poucas áreas da ciência do comportamento a não se privar do uso de estratégias de análise e conceitos implicados em uma perspectiva mentalista (Pereira, 2011). Ainda assim, embora exista uma atual posição hegemônica do estudo da cognição social nesta disciplina, foi somente a partir de 1980 que os manuais de Psicologia Social passaram a fazer referência explícita à cognição como parte fundamental da compreensão do comportamento, pois anteriormente – apesar de mentalistas – as teorias não atribuíam à cognição esse papel (Pereira, 2011). Não diferente do estudo da cognição já conhecido por neuropsicólogos (Teoria do Processamento de Informação), o estudo da Cognição Social também diz respeito à investigação de como as pessoas processam, codificam, armazenam, representam e acessam informações, embora esta esteja focada na natureza social deste processo (Haase, Pinheiro-Chagas & Arantes, 2009; Lieberman, 2007; Pereira, 2011). Sendo assim, parece possível estabelecer uma relação produtiva entre a neuropsicologia e a psicologia social, estabelecendo entre elas uma relação de trocas metodológicas, teóricas e de questões empíricas (Hasse e cols., 2009).

A Neurociência Cognitiva Social (NCS) é um campo interdisciplinar que representa uma oportunidade para o estudo destes pontos de forma contígua, ao atribuir ênfase ao conceito de mediadores cognitivos e a tentativa de identificar como estes dispositivos mentais se inserem em uma posição intermediária na tríade constituída pelo comportamento e experiências sociais e emocionais e os substratos neurais envolvidos com eles (Haase e cols., 2009; Ochsner, 2007; Pereira, 2011), ao combinar as ferramentas da Neuropsicologia e da Neurociência Cognitiva com as questões e teorias de várias ciências sociais, incluindo a economia e as ciências políticas (Lieberman, 2007). Logo, a dimensão cognitiva nessa disciplina é o elo entre o comportamento social investigado pelos psicólogos sociais e as bases neurobiológicas do comportamento, investigado pelos neuropsicólogos (Haase e cols., 2009).

O principal benefício para os neuropsicólogos na interação com psicólogos sociais é poder usufruir de sua rica tradição teórica e empírica consolidada em décadas sobre os mais diferenciados comportamentos relevantes para a interação social humana, ganhando valor heurístico para as suas próprias teorias (Haase e cols., 2009). Apesar de sua existência recente, estudos da NCS já apontam achados importantes tanto do ponto de vista teórico, quanto clínico. Um bom exemplo do uso de alguns conceitos da psicologia social para os neuropsicólogos vem de evidências que têm demonstrado que as ações humanas são determinadas pela atuação concomitante de dois grandes sistemas cognitivos (Pereira, Dantas & Alves, 2011). Um deles, biologicamente mais antigo, responsabiliza-se pela expressão dos comportamentos automáticos, processos rápidos, não-intencionais, emocionais e motivacionais, enquanto o segundo sistema, de resposta mais lenta, destina-se a gerenciar as ações controladas e mais sujeitas à intencionalidade, relacionadas com a atenção e intenção (Lieberman, 2007; Pereira e cols., 2011). No quadro 1 são apresentadas algumas diferenças da atuação destes sistemas:

Características
Sistema 1
Sistema 2
Quantidade de esforço intencional
Exigem pouco ou nenhum esforço intencional
Exige esforço intencional
Grau de consciência
Geralmente fora do conhecimento consciente
Exige conhecimento consciente
Uso dos recursos de atenção
Pouco uso
Muito uso
Tipo de processamento
Realizados pelo processamento paralelo
Realizados serialmente
Limiar de processamento
Processamento de estímulo subliminar
Processamento de estímulo supraliminar
Erros de processamento
Poucos erros
Muitos erros
Carga de trabalho
Não reduzem a capacidade de realizar outras tarefas
Reduzem a capacidade de realizar outras tarefas
Tipos de memórias relacionadas
Memória não declarativa
Memória declarativa e memória operacional
Quadro 1: Características dos sistemas 1 e 2 de processamento de informações. Adaptado de Pereira, Dantas & Alves (2011)

Utilizando esse exemplo do sistema dual de processamento de informação, é possível questionar até em que medida eles poderiam estar relacionados com a expressão ou não de inibição de certos comportamentos em, por exemplo, crianças com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Estaria tal criança sob a regência imperiosa do Sistema automático de processamento de informações e por isso não conseguiria controlar de forma plena sua expressão comportamental? Tal investigação poderia resultar em evidências ainda mais sólidas para a existência desse transtorno e também para o tratamento? É esperado que, com o avanço de estudos neuropsicológicos na área da cognição social, seja possível trazer uma maior compreensão de doenças cujo déficit na interação social é pronunciado e auxiliar o tratamento de pacientes a partir do entendimento de alguns fundamentos neuro-sociocognitivos (Haase e cols., 2009).

Outro ponto positivo nessa troca entre disciplinas é o retorno na consistência teórica que os estudos promovidos por neuropsicólogos disporiam para os psicólogos sociais, pois ao passo que os neuropsicólogos obtêm os ganhos supracitados, estes terminam por conferir a estes mesmos modelos teóricos sociocognitivos critérios biológicos elegantes (Haase e cols., 2009). Como exemplo, dados que evidências que tais processamentos seriam também regidos por diferentes regiões neurais, se tornando ainda mais sólida a apuração desta teoria no momento em que se mostram corroborados com estudos neurocognitivos (Lieberman, 2007).



A NCS ocupa um ponto de intersecção entre grandes disciplinas, como é possível ver na Figura 1. Os três círculos maiores representam disciplinas tradicionais, enquanto que a NCS, pelo seu caráter interdisciplinar, está localizada entre os campos das Ciências Sociais e Neurociências, mas também podendo estabelecer contato com a área da Saúde (Ochsner, 2007), o que manifesta uma clara riqueza em possibilidades metodológicas e teóricas.
Ademais, tendo em vista que a investigação da cognição seja basicamente o escrutínio da diversidade dos processos mentais, acrescenta-se ao bojo do estudo neurocognitivo social a ideia de que tal ciência se trata, antes de qualquer coisa, sobre entender como entendemos as pessoas, sejam as outras ou a nós mesmos, sejam grupos ou indivíduos (Lieberman, 2007). Na medida em que vivemos em um mundo de constante interação social, é inegável a importância da compreensão dos processos fundamentais que guiam tal interação (Haase e cols., 2009; Lieberman, 2007). E a NCS, sendo uma disciplina recente, nos traz um leque repleto de possibilidades de pesquisa e atuação ainda não exploradas. E tal exame vai depender menos de impossibilidades teóricas ou técnicas, e mais da criatividade e disposição dos neuropsicólogos para entender de forma mais completa o ser humano e suas particularidades.


Referências:

Haase, V. G.; Pinheiro-Chagas, P.; & Arantes, E. A. (2009) Um Convite à Neurociência Cognitiva Social. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, 2 (1), 43-49.

Lieberman, M. D. (2007) Social Cognitive Neuroscience: A review of core process. Annual Review of Psychology, 58, 259-289.

Ochsner, K. (2007) Social Cognitive Neuroscience: Historical Development, Core Principles, and Future Promise. Em: A. Kruglanski & Higgins, E. T. (Org.) Social Psychology: Handbook of Basic Principles, p. 39-66, 2ª Ed. New York: Guilford Press.

Pereira, M. E. (2011) Cognição Social. Em: L. Camino, A. R. R. Torres, M. E. O. Lima & M. E. Pereira (Org.) Psicologia Social: Temas e teorias. Brasília: Technopolitick.

Pereira, M. E.; Dantas, G. S.; & Alves, M. V. (2011). Estereótipos, automatismos, controle e a identificação de armas e ferramentas em diferentes contextos: resultados preliminares. Cultura e produção das diferenças: estereótipos e preconceito no Brasil, Espanha e Portugal, 77-105

4.6.12

Earworms

Postado por Marcus Vinicius Alves |


* publicado inicialmente no blog Feminino e Além

Em um mundo onde músicas de bandas pop estouram o tempo todo e possuem cada vez mais alcance, é quase impossível escapar destas pequenas gladiadoras do tormento humano, cada vez mais grudentas e insuportáveis. E algo similar a maioria das músicas deste estilo musical é a capacidade que elas tem de se apropriar do seu pensamento de forma intrusiva a qualquer momento em um looping infinito de tchus e tchás. Normalmente tal intrusão não dura muito mais que algumas horas, mas em alguns casos podem até durar por dias nessa repetição. Se você já passou por este sofrimento atormentador, ao menos uma boa notícia eu posso lhe dar: tem gente estudando o cérebro com o intuito de acabar de uma vez por todas com elas (as músicas, não as bandas… Ainda!).
Em primeiro lugar, vamos às definições, essa experiência de ter uma música repetindo constantemente em sua mente possui um nome, o termo usado para conceituar essa repetição de músicas desagradáveis é earworms (algo como “vermes de ouvido”). O neurocientista Oliver Sacks em um de seus últimos lançamentos, o livro “Alucinações Musicais”, sugeriu chamar esse fenômeno de “brainworms” devido ao fato dessa repetição acontecer em um nível cerebral, ou seja, você está processando a música como se houvesse um rastro de informações dela ainda despertas em nível neural (não é a toa que só pequenas partes são lembradas, como o refrão). Esse fenômeno também é conhecido na literatura científica como Síndrome da Música Encalhada/Presa (stuck song syndrome).
Em um pequeno conto, chamado de “A Melodia Definitiva”, Arthur Clarke – consagrado autor de “2001: Uma Odisséia no Espaço” – conta a história de um cientista chamado Gilbert Lister, que busca criar uma melodia que seja tão consonante com os processos elétricos do cérebro que consiga captura-los eternamente, digamos que uma espécie de música pop definitiva. O problema para o professor Lister é que assim que consegue a criação de sua “obra-prima” um revés ocorre: o poder de sua música é tamanho que ele mesmo termina a história em um estado semelhante a um coma. Esperamos que nenhuma música pop tenha a capacidade de fazer isso por enquanto, mas o exemplo do conto de Clarke serve para ilustrar razoavelmente bem o poder das earworms.
O fato de tal situação possuir até uma definição científica que permita investigá-la e estudos se aprofundando no tema para desvendá-lo pode sugerir que, no mínimo, este fenômeno seja bem comum. E realmente é, estudos confirmam que as earworms já foram experimentadas por um grande número de pessoas, acredita-se que em torno de 98% das pessoas já passou por esta experiência em algum momento em sua vida. Embora seja bastante comum, uma proporção inversa a essa presença habitual pode ser estabelecida para a sua capacidade de causar danos. As earworms tendem a ser bem pouco problemáticas. Para ser mais exato, com exceção de indivíduos que trabalhem com música ou que precisem em estar atento a tipos específicos de sons, ter uma música reverberando em seus pensamentos pouco te incomodará, provavelmente a earworm apenas vai lhe gerar certa frustração por não conseguir esquecer uma musica ruim ou até um pouco de constrangimento ao cantá-la baixinho no elevador ao lado de seus colegas de trabalho.
Devido a essa característica pouco deletéria, pouco se voltou para estudos sobre o tema, buscando entender ele e, quem sabe, criar estratégias para pará-los. Neurocientistas procuram buscar respostas para esse fenômeno, mas principalmente no aspecto clínico dele, como, por exemplo, pensamentos intrusivos que podem ser deletérios para pacientes com algum tipo de obsessão e que se assemelham de certa forma a essa repetição incontrolável experimentada nos earworms.
E o que faz essas músicas serem tão intrusivas assim? E em relação ao conteúdo, por que – normalmente – são as músicas que vão de encontro ao gosto musical do indivíduo que parecem possuir ainda maior poder de reverberação? Provavelmente as respostas para tais perguntas já foram encontradas. A tendência das certas músicas à repetição vem exatamente por sua estrutura simples, ou seja, batidas fortes e “fáceis” somadas a letras e melodias repetitivas. Em outras palavras, estamos extremamente mais suscetíveis à reverberar uma música de Justin Bieber do que uma complexa sonata.
Em relação à segunda pergunta, um psicólogo chamado Daniel Wegner criou uma teoria que chamou de “Teoria do Processamento Irônico”, que parece explicar bem o que acontece com as earworms e porque normalmente as músicas lembradas são as mais avessas aos gostos musicais pessoais. Pela teoria dele, sempre que tentamos forçadamente excluir algum pensamento de nossas mentes eles se tornam ainda mais fortes. É como se nossa consciência fosse um palco e o pensamento intrusivo estivesse na penumbra, sendo processado automaticamente e inconscientemente, até surgir debaixo dos holofotes e quanto mais intenso o esforço para expulsá-lo, mais focado nele o indivíduo fica.
Então a partir desta teoria é possível refletir um pouco sobre a solução para problemas de intrusão musicais. Se a consciência é um palco onde o pensamento earworms tenta surgir a todo momento, a proposta de alguns pesquisadores seria a de que, para afastá-lo, basta focar em outras tarefas que exigem muita concentração, o foco atencional em excesso acabaria gerando uma espécie de sobrecarga cerebral, não deixando espaço para mais um ator no palco, muito menos um indesejado. É uma hipótese.
Da próxima vez que você estiver com uma música presa em sua cabeça, tente utilizar esta estratégia e, se der certo, avise ao mundo.

ResearchBlogging.org Beaman CP, & Williams TI (2010). Earworms (stuck song syndrome): towards a natural history of intrusive thoughts. British journal of psychology (London, England : 1953), 101 (Pt 4), 637-53 PMID: 19948084

21.5.12

A guerra reduz seu cérebro

Postado por Marcus Vinicius Alves |


Que a guerra não é algo muito bom qualquer um poderia dizer, com exceção de alguns políticos inescrupulosos e grandes empresas que se sustentam do lucrativo mercado bélico. Que a violência tende a ser relacionada com desinteligência também não é algo novo, normalmente esse é até o argumento usado para tentar explicar atos agressivos por parte do senso comum. Embora esses pontos não sejam novos, resultados preliminares de um estudo parecem corroborar com esses dois argumentos. Os resultados indicam que soldados que combateram na Guerra do Golfo Pérsico e que apresentaram múltiplos sintomas negativos relacionados com a saúde tiveram uma redução do volume de duas áreas cerebrais relacionadas com a memória e a aprendizagem.
Neste estudo, os pesquisadores dividiram os veteranos de guerra em dois grupos por presença de sintomas – baixo e alto – baseado nos resultados de avaliação da saúde respondidos por eles após o retorno da guerra. Depois disso os pesquisadores classificaram os sintomas apresentados pelos soldados em vinte possíveis (incluindo esquecimento, dor de cabeça, fadiga, náusea, pele irritada e dores nas juntas), onde o normal seria apresentar no máximo cinco. O grupo experimental, com alta incidência de sintomas apresentava mais de cinco entre os vinte, e o grupo de baixa incidência apresentava menos de cinco sintomas.
Com técnicas de neuroimagem, os pesquisadores descobriram que os veteranos que apresentavam mais de cinco sintomas possuíam uma série de discrepâncias nas áreas cerebrais, principalmente a redução do volume de duas diferentes áreas, sendo elas o córtex e o giro do cíngulo anterior e rostral (este, por sinal, muito relacionado com analgesia por placebo).
Após a realização de uma bateria de testes de memória e atenção, os pesquisadores encontraram que o grupo com alto índice de sintomas obteve um desempenho pior na avaliação. Ainda é cedo para dizer que esses sintomas – e mesmo a redução das áreas cerebrais – estão relacionadas com a chamada “Síndrome da Guerra do Golfo”, doença relacionada com o enfraquecimento do sistema imunológico, ou mesmo que participantes de qualquer tipo de guerra estejam sujeitos a tal redução, mas ao menos uma conclusão é possível (mesmo que sirva só para terminar esse texto com uma afirmação humanista): guerra emburrece.

Lundberg, D. (1984). The American Literature of War: The Civil War, World War I, and World War II American Quarterly, 36 (3) DOI: 10.2307/2712739

Odegard, T., Cooper, C., Farris, E., Arduengo, J., Bartlett, J., & Haley, R. (2012). Memory impairment exhibited by veterans with Gulf War Illness Neurocase, 1-12 DOI: 10.1080/13554794.2012.667126


O Dida, como é mais conhecido o professor Francisco Dyonisio C. Mendes, é atualmente professor de psicologia evolucionista (PE) na Universidade de Brasília (UnB). A sua carreira acadêmica está diretamente associada ao programa de psicologia experimental da Universidade de São Paulo (USP), no qual ele fez a maior parte da sua pós-graduação sob a orientação do professor César Ades.
Apesar de possuir um especial interesse e atuação na etologia ao longo de sua carreira, o professor Dida, assim como muitos outros etólogos brasileiros, tem se aproximado cada vez mais da psicologia evolucionista e desenvolvido projetos especialmente situados nesta área. Ele explorou com clareza algumas questões, muitas vezes mal compreendidas, sobre o estudo dos animais na perspectiva evolucionista nesta ótima entrevista cedida gentilmente por ele. Além disso, acreditamos que muitos comentários do Dida acerca da realidade que pesquisadores brasileiros enfrentam para conduzir suas pesquisas soarão familiares a muitos.

Dida, você pode nos contar um pouco sobre os projetos de pesquisa que você está desenvolvendo em seu grupo de pesquisa atualmente e sobre os projetos que estão a caminho?
Cheguei há dois anos na UnB, e mantive o tema geral de pesquisa que desenvolvia antes na PUC-GO: evolução da flexibilidade comportamental.  No momento temos um grupo de pesquisa sobre evolução humana que inclui dois projetos de mestrado. O Vinícius estuda como a experiência prévia de relacionamentos influencia a forma com que homens e mulheres sentem ciúmes. O outro projeto, da Ana Flávia, é sobre dieta – investiga a relação entre neofobia alimentar (aversão a alimentos novos) e doenças como a diabetes e obesidade mórbida.
               Também pesquisamos o comportamento de um primata muito interessante sob o ponto de vista da flexibilidade comportamental – o macaco-prego. Este macaco se adapta a uma grande variedade de ambientes devido a sua capacidade de explorar de formas inovadoras – chega a usar pedras e outros objetos como ferramentas para conseguir alimentos, por exemplo. Há dois projetos de mestrado em andamento. Murilo está realizando experimentos para estabelecer se o uso de ferramentas pode diminuir o estresse e melhorar as relações sociais de macacos em cativeiro. Já o Túlio pesquisa a influência do fornecimento de alimentos por humanos na forma com que os macacos se alimentam e se comportam socialmente.
            A caminho temos um projeto da Thalita, em parceria com a Dra Clotilde Tavares do ICB, e o Dr. Sérgio Leme, sobre as interações entre os macacos-prego e humanos que visitam o Parque Nacional de Brasília. Além de investigar a flexibilidade destes macacos (como se adaptam à presença humana), o projeto irá ajudar o Parque a "controlar" o número de conflitos entre os macacos e humanos, já que os macacos às vezes roubam e ameaçam os visitantes.
       Tenho ainda algumas parcerias, como, por exemplo, um projeto que iniciei com o Dr. César Ades da USP, que infelizmente faleceu recentemente, e que estou dando continuidade com o Dr. Didier Demolin da IT-Grenoble (França), sobre a comunicação vocal de outro primata brasileiro, o muriqui. Este projeto é uma retomada de minha pesquisa de doutorado, e temos planos de enviar alunos para dar continuidade ao estudo. Participo também de um grupo de pesquisa do CNPq chamado “Etologia Cognitiva”, coordenado pelos Drs. Eduardo Ottoni e Patrícia Izar (USP) – o principal interesse é o uso de ferramentas por macacos-prego. Com o Dr. Sérgio Leme, aqui do PPB, colaboro com trabalhos sobre estresse e enriquecimento ambiental, como, por exemplo, em um projeto sobre estresse e eficiência dos cães farejadores da Polícia Federal de Brasília.

Como surgiu o seu interesse pela sua área de pesquisa?
     Eu “cismei” que ia estudar comportamento animal aos 12 anos de idade, e deixei meus pais loucos com isso =); na época quase ninguém falava em ecologia e meio ambiente, muito menos em etologia ou PE. Meu interesse então era apenas os animais (não humanos), e fui falar com o Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha da USP, um pioneiro da etologia no Brasil. Ele ficou meio surpreso com meu interesse meio precoce, mas me deu ótimas dicas e alguns anos mais tarde fui estudar fora, nos EUA. Na Universidade meu interesse pelos animais foi se tornando cada vez mais comparativo, ou seja, comecei a me intrigar pela complexidade do comportamento humano e sua relação com o comportamento de outros animais. Acabei me formando em Antropologia Física, e me especializando em primatas não-humanos, o que inevitavelmente me fez pensar em como o comportamento pode ser complexo e flexível. Com o tempo fui acomodando também pesquisas sobre a flexibilidade do comportamento humano, e acabei ingressando no grupo de “Psicologia Evolucionista” brasileiro. Hoje, a maioria das pesquisas de que participo tem esse aspecto comparativo entre o comportamento humano e o de outros animais, com ênfase na evolução da flexibilidade comportamental.

A ideia de flexibilidade comportamental é compatível com a perspectiva evolucionista?
“Evolução da flexibilidade” é realmente uma expressão que pode gerar certa desconfiança, já que por muito tempo se acreditou que a evolução de fatores biológicos, como a genética e a ação de hormônios, levariam inevitavelmente a comportamentos pouco flexíveis, com pouca ou nenhuma influência do meio ambiente. Mas isso é lenda... Nem genes, nem ambiente determinam sozinhos o comportamento, e a interação entre estes fatores pode ou não gerar flexibilidade.
     Para entendermos a evolução do comportamento humano temos que entender como a evolução gerou nossa enorme capacidade de nos adaptar, de forma flexível, a diferentes contextos ambientais e sociais. Nosso cérebro, principal responsável pela nossa flexibilidade comportamental, é fruto da evolução biológica, mas é enorme e desenvolve lentamente, de acordo com os estímulos que recebe do ambiente. A forma exata com que ele vai produzir pensamentos, emoções e comportamentos depende, portanto, da interação entre os genes que a pessoa herdou e o ambiente em que ela vive, e esta interação é bastante complexa. Por exemplo, Einstein certamente tinha genes muito favoráveis a um cérebro eficiente – genes que permitiram estruturas cerebrais saudáveis, muitas sinapses, boa mielinização das células, etc... Mas todas estas estruturas não teriam desenvolvido se não tivessem sido reforçadas pela experiência ao longo de sua vida, com os estímulos e contextos adequados. Se ele não tivesse nascido e crescido em um ambiente estimulante, provavelmente não chegaria à teoria da relatividade.
     Esta relação entre genes, sistema nervoso e ambiente do indivíduo tem uma história evolutiva. O sistema nervoso de uma minhoca, por exemplo, muda pouco em função de sua experiência de vida, e por isso o comportamento destes animais é pouco flexível. Por outro lado, a genética de animais mais próximos aos humanos, como os macacos, golfinhos e outros mamíferos gera um sistema nervoso mais “plástico”, capaz de modificar bastante em função dos estímulos que recebe, e por isso estes animais também têm comportamento mais flexível. Resumindo, nossa inteligência e flexibilidade comportamental são frutos de uma história evolutiva que merece ser estudada.

Qual é a importância de estudos com animais para compreender o comportamento humano?
     Este é outro assunto que costuma gerar polêmica. Quando um pesquisador compara o comportamento humano com o de outro animal, sempre há quem veja os resultados com ceticismo e reclama que nós humanos somos diferentes. Em parte isto é verdade: somos realmente diferentes... Mas as reclamações não fazem sentido - todas as espécies são únicas de alguma forma, não só os humanos. A ideia do método comparativo não é mostrar que duas espécies são iguais, muito menos mostrar que somos exatamente como os animais. O método consiste em descobrir o que as espécies animais têm em comum e em que diferem, e entender o porquê das semelhanças e diferenças. No caso do ser humano, as comparações devem levar em conta o fato que a evolução nos concedeu um cérebro “enorme” e consequentemente uma inteligência superior que nos permite passar informações através de uma linguagem simbólica e de valores culturais, por exemplo. Apesar disso, a cultura e a inteligência não anulam as influências biológicas, que são fruto de uma história muito mais antiga do que a “curta” história de evolução cultural. Quanto mais estudamos os animais, mais entendemos como a evolução gera uma grande diversidade de padrões comportamentais, e podemos aplicar isto para qualquer espécie, inclusive a humana.

Compartilhamos muitas coisas com outros animais, mas ainda assim “somos únicos”?
Humanos, chimpanzés e bonobos são muito parecidos entre si do ponto de vista genético, e as três espécies compartilham vários padrões de comportamento. Por exemplo, expressam as emoções básicas, como o medo, a raiva, a surpresa, a felicidade e a tristeza de forma bastante semelhante, usando os mesmos músculos. Nas três os filhotes nascem muito despreparados e passam muitos anos sob o cuidado intenso de adultos, e desenvolvem suas habilidades motoras e psicossociais lentamente. Por outro lado, há diferenças marcantes entre estas espécies. Os bebês humanos geralmente são cuidados por ambos os pais dentro de um núcleo familiar, já nossos “primos” primatas são cuidados principalmente pelas mães, dentro de uma sociedade com vários machos e fêmeas promíscuos. Os chimpanzés costumam resolver os conflitos com brigas e hierarquias, os bonobos com sexo, e os humanos de forma bastante variada, incluindo guerras entre países; nos chimpanzés os machos são os dominantes, nos bonobos são as fêmeas, e nos humanos há controvérsias =). Em outras palavras, conhecer o comportamento do chimpanzé ajuda, mas não é suficiente pra explicar o comportamento nem mesmo de seus parentes mais próximos, o bonobo e o ser humano. Como disse anteriormente, é preciso entender como funciona a evolução para entender não só as semelhanças, como também as diferenças. No caso dos humanos, algumas das diferenças que temos com nossos parentes mais próximos tem a ver com o fato que há cerca de 6 milhões de anos  nossos ancestrais passaram a habitar ambientes mais abertos e inóspitos, enquanto a linhagem dos bonobos e chimpanzés permaneceram em ambientes de florestas, e só passaram a habitar ambientes diferentes há muito pouco tempo.

Como se dá está interação complexa entre as nossas predisposições genéticas e a cultura? Você poderia dar um exemplo de como isso acontece?
Acho que o comportamento reprodutivo humano é um bom exemplo desta interação entre as influências da biologia, da inteligência e da cultura. A evolução nos deu diversos mecanismos biológicos para lidar com a tarefa biológica da reprodução. Na adolescência nosso corpo muda em função destes mecanismos biológicos, e de repente passamos a reagir a estímulos e nos comportar de uma forma totalmente nova. Por exemplo, passamos a nos interessar pelo sexo oposto, que antes parecia não tão interessante assim; começamos a emitir sinais não verbais de interesse e paquera que são iguais em todo o mundo; desde cedo somos atraídos por características do sexo oposto que indicam bons genes (simetria, pele bonita, saúde etc.). Há também evidências de algumas diferenças universais entre homens e mulheres adultos em relação ao que procuram em seus parceiros ideais: os homens se preocupam mais com a beleza física do que as mulheres; as mulheres são em geral mais exigentes e se preocupam mais com qualidades relacionadas à capacidade de gerar recursos (escolaridade, nível socioeconômico, ambição). Estes são exemplos que indicam um papel importante da biologia na reprodução humana, e há explicações evolucionistas para a origem dos mecanismos biológicos reprodutivos, como argumenta o psicólogo evolucionista David Buss (ver, por exemplo, o livro traduzido para o português: Paixão Perigosa).
     Por outro lado, a biologia só gera tendências que precisam desenvolver ao longo da vida. Várias áreas da Psicologia mostram como o ambiente familiar, o meio social e os valores culturais modelam estas tendências durante o desenvolvimento do indivíduo. Aprendemos a nos conter quando é preciso, e como usar os sinais biológicos de forma mais eficiente. Também procuramos características em nossos parceiros, como o companheirismo e interesses similares, que ajudam o convívio, quando o interesse é um relacionamento duradouro. Pessoas religiosas querem se casar com pessoas religiosas. Estes são apenas exemplos que ajudam a entender porque tanto homens como mulheres variam muito na forma com que são atraídos pelo sexo oposto, e porque mudamos a forma de nos comportar e procurar parceiros conforme aprendemos com o ambiente.

A PE tem ganhado espaço no Brasil, mas ainda é uma abordagem nova por aqui. Como você vê a situação atual da PE brasileira e a relação dela com outras áreas da psicologia?
A PE é uma área relativamente nova da psicologia, nasceu nos EUA há poucas décadas. No Brasil formou-se um grupo de pesquisa da ANPEPP em 2004, liderado pela Dra Maria Emília Yamamoto da UFRN. O grupo tem crescido bastante desde então. Hoje somos mais de 20 pesquisadores de diferentes Instituições de Ensino Superior que colaboram entre si em diversos projetos. Alguns, como os Drs. Eduardo Ottoni, Patrícia Izar, e o saudoso César Ades da USP, a Dra. Suemi Tokumaru da UFES, e o Dr. Mauro Vieira da UFSC, começaram na etologia; outros, como as Dras. Maria Lúcia Seidl-de-Moura da UERJ, Eulina Lordelo da UFBA, Ângela Donato Oliva da UFRJ, e Regina Brito da UFPA, vieram de outras áreas da psicologia, em particular da psicologia do desenvolvimento.
  Eu acredito que a PE ganha muito quando agrega conceitos e métodos de diferentes áreas. Queremos entender a relevância da evolução para compreender como os humanos pensam e se comportam, mas não podemos ignorar o que outras áreas têm a oferecer, em particular as contribuições da psicologia cognitiva, da psicologia social, da psicologia do desenvolvimento e mais recentemente das neurociências. Podemos fornecer teorias sobre a origem evolutiva, as funções adaptativas e a influência de fatores biológicos no comportamento, mas como vimos acima, isto não é suficiente para explicar a complexidade do ser humano. Entender a evolução e biologia humana sem dúvida é necessário, não deixamos de ser animais porque nos tornamos, nos últimos 10.000 anos, capazes de dominar a natureza... mas precisamos também levar em conta as outras dimensões do ser humano, como a cognição, a sociabilidade e a cultura. Melhor ainda, precisamos entender como estas dimensões interagem com a dimensão biológica, como genes e ambiente andam juntos para gerar nosso comportamento altamente flexível.

É difícil ser um pesquisador em psicologia no Brasil?
Para ser um pesquisador em psicologia, é preciso ser professor de uma instituição de ensino superior, de preferência uma que tenha um programa de pós-graduação. Há algum tempo, isto significava principalmente dar aulas e fazer pesquisa. Hoje, acredito que duas mudanças atrapalham um pouco a pesquisa. Primeiro, ser professor virou um emprego multitarefas – ensino na graduação e na pós, pesquisa, extensão, administração, orientação de alunos, representações em comissões, divulgação na mídia, inúmeras reuniões burocráticas... Segundo, há uma ênfase muito grande na quantidade, e menos na qualidade. Isto quer dizer que para ser bem avaliado, o professor tem que fazer muito de cada uma dessas tarefas. Em minha opinião, é a pesquisa que sofre mais com estas demandas. Fazer pesquisa de boa qualidade requer tempo e dedicação – tempo para acompanhar a literatura especializada, para planejar e executar a coleta, para analisar, tempo para pensar! No fim, boa parte dos bons pesquisadores brasileiros trabalham bem mais do que 40 horas semanais, e estão sempre correndo contra o tempo com os prazos de editais e relatórios.

Existem mudanças que facilitariam o seu trabalho?
Não sei como mudar essa situação em curto prazo, só acho muito estranho que para ser professor universitário passamos muito tempo no mestrado e no doutorado aprendendo basicamente a fazer pesquisa, e depois lutamos para poder orientar e conduzir pesquisas no tempo que nos sobra entre reuniões e outra tarefas. Bom, não posso reclamar muito, porque estou em uma universidade muito boa, aonde a pesquisa é valorizada e os alunos são muito bons e interessados em pesquisa. A gente “sofre” um pouquinho, mas consegue levar os projetos adiante.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?
  Meu pai gostava muito de uma parábola de um escritor argentino, Constancio C. Vigil, sobre um velho sábio que era famoso pelos conselhos infalíveis que dava aos mais jovens. O velho sempre pedia segredo a respeito da conversa e sempre dava o mesmo conselho: “simplifica meu filho, simplifica”. Ninguém sabia que o velho já era completamente surdo e, portanto, nem fazia ideia de quais eram os problemas daqueles que o procuravam; mas isso não importava, porque o conselho sempre funcionava.
  Acho que a simplicidade e soluções simples podem realmente ter grande utilidade pra muitas coisas, inclusive na pesquisa. Isto não implica em fechar os olhos para as complexidades do mundo, mas sim ter a capacidade de olhar o fenômeno tal e qual ele se apresenta. César Ades, por exemplo, dizia a seus alunos que antes de retorcer uma ou mais teorias para explicar o comportamento dos sujeitos de pesquisa, tínhamos que prestar atenção ao que os animais (sujeitos) nos diziam com seu comportamento, mesmo que eles nos decepcionassem um pouco pela simplicidade. Pensar assim é geralmente útil pra se chegar a boas hipóteses e métodos para testá-las... se a realidade for mais complexa, nos aproximamos dela passo a passo, eliminando primeiro explicações mais simples.   

Você recomenda alguma leitura para quem se interessa pela sua área?
Nosso grupo de PE na ANPEPP publicou recentemente um livro pela editora Guanabara Koogan, que acredito ser um bom texto inicial para quem tem interesse em conhecer a área.

Otta, E., & Yamamoto, M. E. (2009). Psicologia evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

---
Esta série de entrevistas é uma parceria entre os blogs SocialMente e Cogpsi. Visite-nos para conhecer um pouco mais sobre psicologia!

4.4.12

Se mantendo longe das redes sociais!

Postado por Marcus Vinicius Alves |




Esse post serve mais como utilidade pública do que qualquer outra coisa. Hoje comecei a utilizar um serviço disponibilizado pelo site http://keepmeout.com/en/ que visa fortalecer o "auto-controle" em relação a todas as mil possibilidades distrativas da net. Comigo funcionou! E se você estiver perdendo muito tempo nas redes sociais da vida ou em sites de humor talvez essa seja uma solução. O site é simples e você aprende a usá-lo com muita facilidade, é só tentar.

A ideia deste programa é trazer à consciência o quanto automaticamente clicamos clicamos nos sites que estão à nossa disposição nas nossas barras de favoritos. 




Apresento-lhes a minha Barra de Favoritos e a culpada por todos os meus textos atrasados (Facebook, 9GAG e Twitter = procrastinação)... Creio.








Eu mesmo já me peguei clicando do nada no botãozinho do Facebook para tomar um susto com o "aviso" de que já estive ali há 20 minutos e poderia esperar mais alguns outros. Conforme o aviso ocorre, passamos a automatizar o controle e a reduzir a quantidade de visitas (isso é o que espero, pelo menos, veremos). Outro fator que permite essa ideia é que não há de fato a proibição de entrar na página "marcada", pois é só escrever o endereço dela na URL que você a acessa normalmente. O importante é reduzir esse comportamento de clicar sem prestar atenção nos ícones da barra de favoritos, começando a percebê-los e controlá-los... E, acredito, possibilitando que seu trabalho seja feito.

Subscribe