23.2.12

Quem tem medo de Estatística? - Parte I

Postado por Marcus Vinicius Alves |


texto escrito por mim e pelo André Luiz Souza do blog Cognando



Se você acabou de passar no vestibular e vai começar a cursar Psicologia, parabéns! Bem vindo ao clube! E se você teve a curiosidade de verificar a grade curricular do seu curso, deve ter notado que, apesar de variar de universidade para universidade, você terá que cursar pelo menos uma ou duas disciplinas de estatística. Isso mesmo! Você não leu errado, não. É estatística mesmo. E já sabemos o que você está pensando: “Poxa vida! Escolhi Psicologia justamente para fugir de matemática e disciplinas exatas! Aí não vale!” É fato: dez em cada quinze graduandos em Psicologia odeiam a simples idéia de ter que lidar com números e fórmulas novamente. Mas não se preocupe. A boa notícia é que a história não precisa ser assim.

Estudar estatística não é um bicho de sete cabeças, estatística não é uma disciplina difícil. E no final das contas, é possível sim chegar à pós-graduação tendo um conhecimento sólido e robusto sobre estatística e, o mais importante, um conhecimento sólido e robusto sobre como utilizá-la.

Mas por que toda essa aversão à estatística por parte de alunos de Psicologia? Por que será que eles temem tanto essa disciplina? Na nossa opinião, são vários os motivos que levam os alunos de Psicologia a não gostarem de estatística. Vamos tentar, nessa postagem, desmascarar alguns desses motivos e mostrar que estudar estatística pode ser até divertido.

Estatística não é matemática.

O primeiro grande motivo que leva os alunos de Psicologia (e em certa medida alunos das ciências sociais e humanas em geral) a odiarem ou temerem estatística é a conexão inevitável (e muitas vezes errônea) que se faz entre estatística e matemática. Vamos começar sendo bem diretos: Estatística não é matemática. Estatística não é nem um ramo da matemática. É óbvio que matemática faz parte da realidade do estudo da estatística, mas o fundamental da estatística não é saber matemática. Um engenheiro, por exemplo, precisa saber matemática, mas ninguém diz que engenharia é um ramo da matemática. E mais ainda: ninguém diz que o simples fato de saber matemática faz de uma pessoa um bom engenheiro. Uma lógica parecida acontece com a estatística: saber matemática não te faz ser uma pessoa boa em estatística. A matemática é, na verdade, a ferramenta que se utiliza para a formalização das idéias estatísticas. A matemática somente passa a ser cogente para o campo da estatística quando o objetivo é desenvolver teorias estatísticas (o que não é o caso da maioria dos psicólogos que a utilizam). A prática da estatística não requer conhecimento profundo de matemática. Pelo contrário. O tipo de conhecimento necessário para o profissional que utiliza estatística é bem diferente do conhecimento necessário para o profissional que desenvolve estatística. Para o profissional que utiliza estatística é necessário um conhecimento mais profundo acerca da utilidade da ferramenta estatística. Esse ponto nos leva para o segundo motivo pelo qual as pessoas odeiam estatística: a maioria das pessoas não sabem nem pra que ela serve.

Para que estudamos estatística?

Uma das principais características da cognição humana é o fato de que, sob condições de incerteza, nossa mente funciona em níveis pouco funcionais. Em outras palavras, quando não sabemos o porquê de algum evento e/ou acontecimento, o nosso sistema cognitivo se ‘sente’  atrapalhado e não funciona direito. É possível que isso aconteça no estudo da estatística. Na maioria das vezes, os alunos não fazem a menor idéia do porquê devem estudar estatística. Não sabem nem para que serve a disciplina e qual é a conexão dela com o estudo da psicologia. Mas afinal de contas, para que estudamos estatística? Essa pergunta pode ser respondida sob duas perspectivas: em termos práticos e em termos científicos. Em termos práticos, você estuda estatística por que ela é uma ferramenta importante no tipo de metodologia que se utiliza na construção de conhecimento em psicologia. Estatística é ferramenta fundamental em um design experimental. Assim, para entender resultados de pesquisa divulgados em um artigo científico, por exemplo, é necessário conhecimento de estatística. Em termos mais práticos ainda, se você pretende fazer um doutorado no exterior, por exemplo, conhecimento de estatística é mandatório na maioria dos programas (alguns programas chegam a exigir comprovação desse conhecimento em forma de certificados, por exemplo).

Em termos teóricos, nós psicólogos estudamos comportamento humano. Por definição, o que caracteriza a beleza do nosso trabalho é o fato de que o comportamento das pessoas varia. A estatística é a ferramenta que nos ajuda a compreender - de maneira sistemática - essa variação. É simples assim. Estatística só faz parte do nosso cotidiano por que lidamos diretamente com variação. Todo e qualquer teste estatístico que você aprender daqui pra frente (não importa o grau de sofisticação do procedimento: ANOVA, Teste t, Regressão Simples ou Múltipla e até mesmos Análises de Agrupamento, PCA, Séries Temporais e Inferência Bayesiana) tenha isso em mente: o que se quer entender é a variação que existe nos dados. Pronto! Se você conseguir pensar assim toda vez que estiver lidando com estatística, você vai notar que (1) ela não é tão difícil assim, pois a maneira que utilizamos para mensurar variação é a mesma em vários testes diferentes e (2) é até divertido entender a variação das coisas de maneira sistemática. É importante ressaltar a idéia de “auxílio” que a estatística tem. Uma das principais frustrações de alunos que estudam estatística é quando eles descobrem que estatística por si só não prova nada.

Estatística não prova nada

É muito comum encontrar pessoas que acreditam que análise estatística é uma maneira de provar os resultados de uma pesquisa, terminando por se afastar desta disciplina a partir da crença de que esta tenderia a ser determinista – onde a pretensão da aplicação estatística às pesquisas em psicologia seria determinar quando e porque comportamentos obrigatoriamente ocorreriam. Essa forma de pensar a estatística está errada. Estatística não prova nada. E quando o aluno descobre isso, vem a frustração. Por isso vale ressaltar a idéia de que “estatística é a simples ferramenta que ajuda a compreender variação”. Ela não explica a variação e nem prova a causa dessa variação. Tudo na vida varia. Nós seres humanos, estamos mais que acostumados com a variação das coisas e a estatística apenas nos ajuda a entender até que ponto a variação que vemos em alguma coisa é uma variação normal (esperada e que não nos causa nenhuma surpresa), ou é uma variação surpreendente, ou seja, uma variação que ninguém espera encontrar. A estatística simplesmente nos ajuda a “localizar” essa variação inesperada. No entanto, ela não faz o nosso trabalho intelectual que é buscar respostas para a causa dessa variação.
Uma análise estatística nos auxilia a corroborar ou refutar hipóteses. Um exemplo: Se você pega um copo de café com leite, é impossível dizer o que foi colocado no copo primeiro, o café ou o leite. Certamente você vai rir da nossa cara se dissermos que Joãozinho tem o poder de adivinhar qual líquido foi colocado primeiro. Mas como cientista, você não deve rir, mas sim testar essa hipótese: Joãozinho tem o poder de adivinhar! Para testar é simples: vamos fazer um copo de café com leite sem que ele saiba e perguntar a ele o que foi colocado primeiro. Vamos fazer isso uma vez. Vamos supor que ele acerte. Isso prova que ele tem o poder de adivinhar? Certamente que não! Ele pode ser acertado “no chute”. Então vamos fazer 2 vezes. Suponhamos que ele acerte as duas. E agora? Isso prova que ele tem o poder de adivinhar? Ainda não. Ok. Vamos fazer 100 copos de café com leite. Suponhamos que ele acerte 97. E agora? Isso prova que ele tem o poder? Ainda não, mas tenho certeza que você vai estar coçando sua cabeça e dizendo “aí tem coisa”. A idéia básica da estatística é essa: te ajudar a perceber que “aí tem coisa”. O seu trabalho como intelectual é levantar hipóteses sobre “o que pode ser” e testar essas hipóteses (assim como fizemos com o copo). No final, você não prova nada, mas fica ou não intrigado por um fenômeno e avança na investigação das suas causas.

Estatística é fundamental para a ciência empírica

A utilização da estatística é fundamental para a construção do saber científico. Embora não seja uma totalidade, grande parte da ciência é pautada em hipóteses que podem ser submetidos a uma testagem e experimentação, e essa testagem vem na forma de análises estatísticas densas. E no final, mesmo a possibilidade de formação de um argumento crítico a alguma teoria depende intensamente do conhecimento acerca das análises feitas. É muito comum estudantes de psicologia passarem a graduação longe das áreas científicas do seu curso e ao se formarem perceberem suas dificuldades com leitura e compreensão de artigos científicos (afinal, não compreendem por inteiro as análises feitas) e assim, tendo pouca capacidade para criticá-los.

Este texto vem como um primeiro passo para entender a importância da disciplina estatística para os psicólogos, há muito ainda a ser discutido, como o que seria o índice ‘p’, de onde ele vem e porque ele é tão utilizado para embasar os estudos realizados. Outro ponto é a importância desta disciplina para o profissional de psicologia, não só para o cientista, mas para aqueles que da área aplicada. Será realmente que não há necessidade alguma de aprender o funcionamento desta ferramenta? Deixamos essas reflexões por enquanto e pretendemos dar continuidade a essas discussões, mas é sempre interessante lembrar que se a uma prática baseada em evidências se faz importante, só a partir da análise criteriosa dos dados encontrados isso será possível. E essa análise cabe a você também, futuro profissional da psicologia.

16.2.12

Podcasts de Psicologia

Postado por Marcus Vinicius Alves |


Podcast é o nome dado a arquivos de áudio publicados na internet onde, basicamente, você poderá sempre ouvir discussões, mesas-redondas, entrevistas e afins sobre o tema que desejar.


Como não poderia deixar de ser, há também os podcasts relacionados com a psicologia e apresentados por grandes professores. Alguns que encontrei recentemente são bons podcasts de psicologia, todavia, esses podcasts são todos em inglês, mas em breve, quem sabe, surjam os Podcasts de psicologia em português, apresentados por professores da área e abordando a realidade das pesquisas nacionais.


Confira uma lista:

60-Second Mind: Um podcast de um minuto sobre as últimas novidades em pesquisas sobre cérebro e comportamento, atualizado aos Sábados.

All in the Mind from ABC Radio Australia: Podcast semanal apresentado por uma jornalista da ciência chamada Natasha Mitchell sobre cérebro e comportamento que aborda temas como sonhos, depressão, vício, inteligência artificial etc.

All in the Mind BBC: Outro podcast semanal. Neste o foco são os limites da mente humana, tratando de distúrbios do sono ou de programas de saúde mental. Em um episódio recente o prêmio Nobel Daniel Kahneman foi entrevistado.

Cognitive Daily Podcast: Podcast gerido por Greta e David Munger, que debate os tópicos recentes em ciência cognitiva.

Psychology 164: Social Cognition: Podcast do professor John Kihlstrom da Universidade da Califórnia. Exclusivo sobre tópicos da Cognição Social, como percepção social, categorização social e julgamento social.

The Brain Science Podcast: O médico Ginger Campbell discute as novidades das neurociências. Um post recente abordou o livro “Muito Além do Nosso Eu” do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.

The Psychology of Attractiviness: Podcast publicado mensalmente onde são abordados temas como traição, ciúme e relacionamentos em geral.

This Is Psychology Podcast: Norman Anderson, chefe executivo da APA, traz discussões acerca de trabalhos que estão sendo publicados atualmente com temas variados como saúde mental e bullying.

The Wise Council Podcast: Podcast para terapeutas. Aqui o psicólogo David Nuys apresenta discussões sobre tratamentos psicoterápicos e entrevistas com outros psicoterapeutas.

11.2.12

O Cogpsi voltou!

Postado por Marcus Vinicius Alves |



Depois de um hiato, uma pausa na publicação de textos – bem longa, admito – o Cogpsi finalmente voltou, ou melhor, está voltando, pois esse não é um texto “oficial”. Espero a partir de agora poder voltar a postar textos sobre psicologia com mais frequência. O motivo principal dessa pouca produção do Cogpsi nesse final de 2011 era a intensa luta deste que vos escreve para conseguir se adaptar não só à capital paulista, como também para poder organizar a vida em relação aos projetos, artigos e trabalhos do mestrado que aparecem aos montes e sem aviso prévio. Depois ainda dizem que mestrando “só” faz estudar... Isso é um emprego!

Bom, passada a tempestade vem... Acredito que outras tempestades, mas agora com uma noção melhor de como lidar com elas.

Alguns planos para melhorar a qualidade dos textos e permitir uma interação legal com autores de outros blogs que gosto muito começaram a surgir, como o com o André do Cognando, onde escreveremos um texto em conjunto. Esse texto tratará sobre estatística e o seu difícil relacionamento com o estudante de psicologia, digo isso porque sempre adorei estatística e tal ponto sempre se fez extremamente visível durante a minha formação. Principalmente pelas reclamações dos meus colegas. A partir daí, deste texto inicial, quem sabe, penso abordar sempre os pontos da formação em psicologia – e em outras áreas – em que os estudantes mais se veem incomodados e desmotivados, às vezes pela inicial motivação e crenças com que entram nos cursos, outras pelo ensino frágil não só da graduação, como também da própria formação colegial. Outro projeto é com outro André, mas o dos blogs Ciência Uma Vela no Escuro e do SocialMente, este ainda está no início e a ideia surgiu do André e por isso talvez seja melhor esperar um pouco antes de anunciar, mas acredito que vai ser muito interessante.

Além disso, continuo aceitando textos de outros autores, dispostos a contribuir com a produção por aqui. Inicialmente o Cogpsi nasceu fruto de uma necessidade pessoal de escrever sobre tudo que eu lia ou via relacionado com psicologia e com a pretensão de desembaçar um pouco a visão daqueles que acompanham os blogs de psicologia por aí, pois via neste meio pouca abertura teórica, a maioria dos blogs retratavam apenas um tipo de compreensão da psicologia, havia poucos textos baseados em artigos e trabalhos realmente atuais e pouca flexibilidade para abordar os mais variados temas da psicologia, muitas vezes apelando sempre para o mesmo autor ou livro, e superestimando o alcance e tamanho das capacidades interpretativas, científicas e históricas destes. Por isso acredito que outras pessoas também sintam esse desejo de debater acerca da psicologia como ela tem sido feita atualmente de verdade, mas não tenham vontade para criar um blog para isso. E o espaço do Cogpsi estará sempre aberto.

Nesse período em que o blog ficou parado, muita gente me perguntou quando eu iria escrever outro texto e reclamou dessa situação, e peço desculpas por esse desleixo. Pelas estatísticas do blog foi possível ver que muita gente ainda continuou clicando por aqui mesmo com ele parado, talvez procurando verificar se ele estaria sendo atualizado, talvez para reler algum texto, enfim, o importante é ver que o blog ainda estava em movimento nesse tempo.

Então é isso, esse post vem mais para relembrar àqueles que liam o Cogpsi da nossa existência e avisar que voltaremos à programação normal.

Por que preferimos o mais caro?


Por Felipe Novaes *





Estamos vivendo numa época onde o ter sobrepuja o ser. Essa frase se tornou um clichê. Mas ela diz a verdade, realmente estamos muito mais sensíveis ao que o outro tem do que ao que ele é. Às vezes, o que se tem funciona como um indicador daquilo que se é. Claro que algumas pessoas fogem a essa regra, mas o quanto elas realmente fogem? Será que é possível fugir de tal tendência totalmente? Estudos interessantíssimos mostram que, além de avaliarmos a confiabilidade, beleza, respeitabilidade e status de alguém de acordo com o que essa pessoa possui, também levamos em conta – e muito – o valor gasto. Alguns estudiosos chegam a dizer que esse mecanismo está por trás não só da mente humana, mas também das relações de seleção sexual de outros animais, mostrando que essa é uma tendência antiga que compartilhamos com outros seres. 




Costly Signaling Theory
O pavão é uma das aves mais bonitas que existem. Chama atenção a sua cauda, muito grande em relação ao corpo e coloridíssima.  Certamente ela chama a atenção de muitos predadores [ou talvez seus predadores sejam incapazes de perceber a cor das penas da mesma forma que nós, o que faça essas aves chamarem menos a atenção] mas algum outro benefício deve existir em sustentar uma plumagem tão chamativa e custosa. É sabido que as fêmeas são atraídas pelos machos que exibem a mais graciosa das caudas, isto é, de alguma forma, toda aquela parafernália ajuda na cópula, favorecendo a reprodução de uma maneira que supera o suposto risco de atrair predadores e parasitas. Mas o que chama a atenção das fêmeas ao verem aquela cauda? Será que o esquema de cores e o tamanho tornam aquele arranjo algo irresistível para elas?

A costly signaling theory (Miller, 2009; Saad, 2007) tem sido invocada com sucesso para explicar o uso de recursos que não possuem nenhuma funcionalidade manifesta (prática) (Bliege Bird & Smith, 2005; Cronk, 2005). Segundo essa idéia, o pavão, com todo seu dispendioso rabo, estaria sinalizando que é saudável e apto o suficiente para gastar recursos na manutenção de tal aparato e ainda conseguir obter alimento e sobreviver. Ou seja, é a lógica da ostentação das qualidades invisíveis possuídas. É como um marketingpessoal dos luxuosos recursos do animal. 

O Consumo Conspícuo – Preferindo o cara ao invés do barato
Pássaro-caramancheiro
De acordo com o Global Luxury Retailing,os gastos mundiais com produtos de luxo chegarão a $450 bilhões em 2012, e 41,9% dos gastos se referem somente ao gasto com roupas (citado em Nelissen, 2011). Nelissen (2011) destaca o fato de que não é preciso ter uma renda muito alta para que a preferência pelo luxo se manifeste. De fato, até mesmo pessoas pobres em países em desenvolvimento se comportam dessa forma, por exemplo, preferindo roupas de marca do que sem marca ou de marcas menos luxuosas (mais baratas), o chamado consumo conspícuo (Veblen, 1899). De fato, essa face do comportamento humano acaba com a visão de consumidor racional que alguns economistas alimentam. Mas a lógica da preferência pelo mais caro é regida pelo ganho de status social. Status pode ser definido como a posição mais alta ocupada em algum setor das relações humanas, seja no mundo acadêmico, nas empresas, na rua, em casa, numa tribo e etc (Hyman, 1942).

Estudos de psicologia e outros com viés comparativo sugerem que esse é um fenômeno que rege o comportamento humano (Cummins, 2005; Miller, 2009; Saad, 2007), assim como o de primatas não humanos (de Waal, 1982); isso sem falar no exemplo do pavão, que mostra que essa é uma tendência dos animais em geral. Dessa forma, é coerente refletir sobre o fato de que para que os humanos consigam ostentar algo com sucesso, é de suma importância que o observador consiga processar aquilo como um indício das qualidades do ostentador. E o motivo de a seleção natural ter selecionado uma mente com capacidade para processar esse tipo de relação, é que a ostentação, seja do que for que tenha valor em dado cenário e época, beneficia as relações sociais para o ostentador. Nelissen (2011) realizou experimentos que corroboram essa hipótese. Mas, antes, vamos definir os critérios para que um comportamento seja considerado um consumo conspícuo:



1) Deve ser algo facilmente observável (ex: o rabo do pavão; uma longa capa, coroa brilhante e outros adereços dos reis; ninhos exageradamente ornamentados do pássaro-caramancheiro, um logo de uma roupa de grife);



2) Deve ser um sinal difícil ou/e custoso de se falsificar;

3) O sinal deve estar relacionado a algo que não é observado diretamente, ainda que seja desejável e que denote as qualidades do ostentador, como saúde, proteção e bons genes para uma prole saudável;   


4) O adereço, ou sinal, deve produzir um chamamento corporal.


Os exemplos do item 1 servem para todos os outros itens. Mas ao qual eu quero dar evidência é o último, as marcas de roupas. 

As Marcas de Roupas e a Ostentação do Consumo Conspícuo
Como vimos, os animais tendem a evidenciar os seus atributos não visíveis diretamente através do gastofuncionalmente desnecessário com elementos dispendiosos e chamativos, como uma forma, também, de promover seu status. Os humanos fazem exatamente isso. Observe os trajes e adereços desses indivíduos nas fotos a seguir:



Essa relação entre o consumo conspícuo, ostentação como referência a qualidades invisíveis e status ficou bem evidente, por exemplo, nos 9 experimentos feitos por Nilessen (2011) e sua equipe. No primeiro, um pequeno bloco em que a capa tinha a foto de um rapaz de boa aparência e as outras folhas eram de um também pequeno questionário, foram distribuídos nas ruas. O objetivo do questionário era avaliar o homem nos quesitos status, condição financeira, atratividade, amizade e confiabilidade. O detalhe é que, para um grupo de pessoas foi distribuído um conjunto de testes em que a blusa de gola polo que o homem usava, possuía uma pequena logo de uma famosa marca. Outro grupo de fotos foi manipulado para ter a logo de uma marca menos valorizada. Os blocos que apresentavam a foto do homem com a logo mais famosa foram melhor avaliados nos quesitos status e condição financeira.
Num segundo experimento, um homem saiu por um shopping pedindo doações para uma instituição de caridade. A tarefa foi dividida em duas etapas: primeiro usou uma blusa verde e lisa, e depois, a mesma blusa, porém, com um logo de uma marca bem conceituada. Os resultados mostraram que a coleta realizada com a blusa com a logo foi mais bem sucedida.
Outro estudo mostrou que candidatos a uma vaga de estágio em um laboratório tinham mais chances de serem selecionados quando estavam usando uma blusa de marca também (com o logo da marca visível).

Conclusão dos Experimentos   
Mais outros experimentos foram feitos mas os resultados sempre mostravam que as marcar mais bem conceituadas eram sempre mais bem avaliadas em relação à importância, status e condição financeira, também eram mais aceitas socialmente e conseguiam despertar com mais sucesso a atenção do público e convencê-los de algo, tanto das qualidades necessárias para uma vaga de estágio quanto para convencer alguém a fazer uma doação. 

As Preferências Femininas e o Consumo Conspícuo Masculino
Outro interessante dado é a maior atenção dada  pelas mulheres ao consumo conspícuo durante o período de ovulação (Lens, 2011). Isso é compatível com o modelo da psicologia evolucionista, que considera que a mente humana possui uma cognição moldada no ambiente de adaptação evolutiva (AAE), no Pleistoceno. Isso significa que, caso essa predileção feminina esteja relacionada diretamente a uma tendência evolutiva, relacionada à seleção sexual, o grau dessa característica seria variável ao longo do ciclo menstrual, com uma maior tendência à prestar atenção aos indícios de status social durante a fase da ovulação (período fértil) (Anderson et al., 2010). De fato, já foi verificado que nessa fase, as mulheres apresentam alterações nas preferências de características masculinas, apresentando maior atração por homens altos, com rosto mais másculo do que infantilizado, e com papel social dominante (Gangestad, Thornhill &Garver-Apgar, 2005; Lukaszewski & Roney, 2009). Assim, seria natural pensar também numa consequência para a percepção dos indícios de status masculino, assim como uma eliminação desses efeitos nas mulheres que fazem uso de pílulas anticoncepcionais. O resultado da pesquisa corroborou essas hipóteses, mostrando que produtos relacionados a luxo e que não são destacados por sua funcionalidade, despertavam dignificativamente mais a atenção das que estavam em período fértil.

Conclusão

Todas essas evidências mostram uma estrutura cognitiva comum aos seres humanos e aos animais nãohumanos. Primeiramente, podemos dizer que uma evidência é o fato de que para a lógica do statusfuncionar, precisamos ter uma mente que saiba evidenciá-lo e, por outro lado, uma que saiba percebê-lo como tal. Esse mecanismo é evidente na seleção sexual, como no exemplo do pássaro-caramancheiro,que gasta energia, recursos, tempo, e corre o risco de ficar mais visível aos predadores, ao enfeitar seu ninho da melhor manira possível a fim de “seduzir” as fêmeas. 


O consumo conspícuo é como se fosse uma regra que permanece constante mas que assume diversas faces no caso dos humanos. Hoje podemos dizer que essa estratégia é uma característica que foi mais útil na seleção sexual no nosso AAE até pouco tempo atrás, qundo era bem mais complicado de ostentar luxo sem que isso correspondesse diretamente a uma ampla gama de recursos, saúde e outras características buscadas pelas fêmeas. No caso dos humanos modernos, a possibilidade de comprar usando cartão de crédito, por exemplo, fez com que pessoas com baixa renda pudessem comprar coisas incompatíveis com suas possibilidades financeiras, considerando a compra à vista. Nossos ancestrais caçadores-coletores usavam adereços que mostravam claramente sua posição dentro do grupo. Indivíduos das altas hierarquias sempre eram os de idumentária mais barroca, o que persistiu até não muito tempo atrás, basta olhar as fotos de Reis e Imperadores e suas roupas e adereços barrocos. Porém, mesmo essas táticas não sendo tão eficazes hoje, essas pesquisas mostram que ainda continuamos com um cérebro ancestral.

Isso levanta uma hipótese interessante sobre a origem das roupas. Talvez as primeiras roupas servissem ao propósito de separar os indivíduos de acordo com sua posição social dentro das coalizões dos primeiros Homo sapiens sapiens e não para proteger do frio ou do calor, ou de parasitas. Ou, até, as primeiras roupas tenham servido a todos esses propósitos, matando vários coelhos com uma cajadada só.
  


ResearchBlogging.org
Referências

- ANDERSON, U. S., Perea, E. F., Becker, D. V., Ackerman, J. M., Shapiro, J. R., Neuberg, S. L.et al.,  I only have eyes for you: Ovulation redirects attention (but not memory) to attractive men. Journal of Experimental Social Psychology, 46(5),
804–808, 2010.

- BLIEGE, B., R., & Smith, E. A.; Signaling theory, strategic interaction, and symbolic capital. Current Anthropology, 46, 221–248, 2005.

- CRONK, L. ; The application of animal signaling theory to human phenomena: Some thoughts and clarifications. Social Science Information,
44, 603–620, 2005.

- CUMMINS, D. D., Dominance, status, and social hierarchies. In D. Buss (Ed.), The evolutionary psychology handbook (pp. 676−697).
New York: Wiley, 2005.

- DE WAAL, F., Chimpanzee Politics: Power and Sex Among Apes. London: Jonathon Cape, 1982.

- GANGESTAD, S. W., Thornhill, R., & Garver-Apgar, C. E., Adaptations to ovulation. In D. M. Buss (Ed.), Handbook of evolutionary psychology (pp. 344–371). New York:
Wiley, 2005.

- HYMAN, H. H., The Psychology of Status. New York: Columbia
University, 1942.

- LENS, Inge, Karolien Driesmans, Mario Pandelaere, Kim Janssens, Would male conspicuous consumption capture the female eye? Menstrual cycle effects on women's attention to status products, Journal of Experimental Social Psychology, 2011.

- MILLER, G.; Spent. Sex, Evolution, and Consumer Behavior. New York: Viking Penguin; 2009

- SAAD, G.; The Evolutionary Bases of Consumption. Mahwah, NJ: Erlbaum; 2007.

- NELISSEN, Rob M.A., Marijn H.C. Meijers, Social benefits of luxury brands as costly signals of wealth and status, Evolution and Human Behavior, 32, 343–355, 2011.



- VEBLEN, Thorstein B. (1965). A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Pioneira.


* Felipe Novaes é graduando em Psicologia pela UFRJ e escreve para o blog NERDWORKING 

4.11.11

A Ciência torna a crença em deus obsoleta?

Postado por Marcus Vinicius Alves |



Essa foi a pergunta feita a diversos cientistas, filósofos e teólogos pela John Templeton Fundation, fundação que incentiva a pesquisa sobre temas como amor, perdão, criatividade e crenças religiosas em diversas áreas da ciência, como física teórica, ciências cognitivas, biologia e ciências sociais.

As respostas dadas para essa pergunta por cientistas ou relacionados com ela como Steven Pinker, William Phillips, Michael Shermer e muitos outros, podem ser encontradas no link:



Steven Pinker é um dos cientistas a opinar sobre tal questão.

É certo que uma resposta definitiva dificilmente surge a partir de um trabalho como esse, mas o diálogo proveniente dele e a possibilidade de conhecer um pouco mais dos argumentos sobre o tema é muito interessante, além disso, para aquele que lê esses ensaios a sua própria resposta – seja afirmativa, negativa ou neutra – poderá ser embasadas com o discurso de um grande cientista da área, um prêmio Nobel ou um jornalista que escreve sobre o assunto. Os ensaios estão em inglês.

Vale a leitura.

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