27.6.11

Você é o que você escuta!

Postado por Marcus Vinicius Alves |

Do toque do tambor aborígene até os acordes mais pesados de guitarras do rock, um fato indiscutível é a força que a música tem para expressão dos indivíduos na sociedade. A expressão musical é reconhecidamente uma das formas mais comuns utilizadas pelas pessoas e grupos em qualquer lugar do mundo e com as mais diferentes culturas. Para os jovens, essa intensidade se torna ainda mais visível, o estilo musical serve como uma insígnia que a priori revelaria para outrem em qual grupo social este jovem estaria incluso e qual o estilo de vida que ele possui. As palavras cantadas displicentemente no meio da rua, a camisa preta de sua banda favorita ou mesmo o adesivo de um bloco de carnaval colado na traseira do carro seriam instrumentos cruciais para a identificação grupal.


Com o avanço dos recursos de comunicação on-line, houve também uma proliferação de lugares onde demonstrar seu estilo musical favorito e, com isso, ser bem ou mal visto por outros. O que você ouve teria se transformado ainda mais em um estandarte do que você é. As pessoas se afiliariam aos clãs de identidade musical parecida, expondo quem são e como devem ser percebidos. É compreensível então que para algumas pessoas o estilo musical seja um cartaz melhor de si do que as roupas que veste, os filmes que vê ou os hobbies que possui, na maioria das vezes influenciando essas escolhas.


Mas que informação os outros realmente percebem?


ResearchBlogging.orgUm estudo realizado por pesquisadores britânicos procurou investigar o quanto os indivíduos usam as músicas que ouvem como meio para comunicar suas preferências na vida como um todo e o conteúdo dos estereótipos que estas tinham de diversos estilos musicais. Tendo a compreensão de que revelar o estilo musical encaixa o indivíduo em um grupo, os pesquisadores propuseram estudar como tais pessoas e seus grupos são percebidos, e mais, como os próprios grupos se percebem, segundo a teoria da identidade social.


A pesquisa tinha algumas perguntas principais, como o quanto as pessoas concordariam sobre aspectos psicológicos e sociais ligados a estereótipos de estilos musicais e como seriam os estereótipos entre os gêneros distintos. Além de questionar a possibilidade de generalização dos estereótipos musicais para diferentes regiões. 



Os participantes do estudo julgavam protótipos de fãs de gêneros musicais específicos (como rock, rap, música clássica etc.) e associavam a esses estereótipos certas características. A pesquisa avaliou a percepção das características psicológicas, sociais, de religiosidade, de personalidade, sociais e étnicas que estariam relacionadas a determinados estilos musicais. Os resultados da pesquisa mostraram que os jovens têm os padrões dos estereótipos dos fãs de certos grupos musicais altamente estruturados e consonantes. Os resultados revelaram que alguns estereótipos foram similares em certos construtos (i.e. a “personalidade” dos fãs de rock e música eletrônica), todavia as particularidades dos estereótipos foram diferenciadas em nível macro. Houve ainda a confirmação do potencial de categorização social acima da psicológica, pois os resultados acerca da classe e da etnia de cada gênero foram mais consistentes que os de personalidade, ou seja, é mais influente para a categorização o grupo social ao qual está relacionado um estilo musical do que a prévia concepção da personalidade dos indivíduos que o escutam. Mas esta talvez também fosse uma categorização cíclica, estariam então relacionados os estilos musicais aos estereótipos sociais e étnicos e assim também a afiliação grupal dos indivíduos se daria a partir da concordância com os ideais dos determinados grupos.


Apesar de o estudo revelar que as pessoas possuem de algum modo uma visão sortida de características psicológicas dos integrantes de certos gêneros musicais, há certas limitações nessa forma de analisar o fenômeno, como só observar os fatores psicológicos, esquecendo os culturais e sociais, afinal, já se sabe que o estilo musical que se adere costuma também estar correlacionado à classe social em que se encontra (i.e. fãs de jazz e música clássica comumente estão mais presentes na classe alta ou com maior grau de instrução, enquanto que a classe trabalhadora ou menos instruída costuma ouvir músicas como gospel, rap e, no Brasil, poderíamos citar o pagode) e que a etnia também está diretamente ligada ao que se ouve, nos EUA, negros tendem a ouvir jazz e rap, enquanto que brancos ouviriam mais o rock, a música clássica e o country.


Estudos anteriores já haviam demonstrado que pessoas preferem estilos musicais que reforcem e reflitam aspectos da sua identidade e personalidade (ou seja, indivíduos procurando sensações intensas ouviriam punk, enquanto que rebeldes ouviriam rock ou rap, e indivíduos que se percebem como extremamente criativos e artísticos ouviriam músicas sofisticadas como jazz ou clássica), então, além do grupo em que a pessoa se sente mais próxima, o gosto musical também revelaria seus valores e personalidade. Sendo assim, se perceber como pertencente a um grupo musical influenciaria o desenvolvimento da identidade e das relações intergrupais, pois a música ouvida informaria também os valores, atitudes e crenças que esta pessoa compartilha, além de características psicológicas. Indo mais além, os estereótipos de grupos musicais chegam mesmo a influenciar escolhas de parceiros, pois ao utilizar de crenças acerca da personalidade de quem escuta determinados tipos de música, as pessoas estariam pouco inclinadas a se relacionar com alguém com características muito diferentes. 


E de que forma isso aconteceria? Primeiramente, todos teriam crenças sobre os estilos musicais e as pessoas que os ouvem, além disso, ouvintes de certos gêneros musicais já teriam em si estereótipos de conduta e personalidade definidos. E assim, os estereótipos encontrados para cada gênero musical possuem um núcleo de realidade quando relacionados com os ouvintes destes gêneros, ou seja, os estereótipos formados não estariam de todo errados.
 
Quer testar?

Recentemente alguns vídeos começaram a circular pela internet onde pessoas perguntam a outras na rua o que elas estão ouvindo - um dos vídeos segue logo abaixo - faça um teste e tente adivinhar o tipo da música que a pessoa está ouvindo e depois tente imaginar um pouco mais sobre a pessoa a partir da resposta dada e você verá que também tem uma ideia bem formada acerca dos ouvintes de diferentes estilos musicais.





Rentfrow, P., McDonald, J., & Oldmeadow, J. (2009). You Are What You Listen To: Young People's Stereotypes about Music Fans Group Processes & Intergroup Relations, 12 (3), 329-344 DOI: 10.1177/1368430209102845

4 comentários:

Letícia Martins disse...

Parabéns pela postagem! Excelente texto!!!

Marcus Vinicius Alves disse...

Obrigado, Letícia!

Anônimo disse...

Quero cursar psicologia e achei ese blog extremamente interessante!! muito legal!
"Voce é o que vc escuta", abordou o assunto de forma atrativa e correta.

Marcus Vinicius Alves disse...

Valeu, "Anônimo". Boa sorte e se jogue na psicologia.

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