5.5.11

Fidelidade, uma questão de escolha

Postado por Paula Soares |

Uma famosa psicanalista defende, com argumentos muito sedutores (ainda que simples e datados), que o ser humano deve abrir mão da monogamia. A cobrança de fidelidade do parceiro seria prejudicial e traria desnecessário sofrimento. Seus argumentos incluem, por exemplo, o de que nenhum animal (irracional) é monogâmico, e que ter vários parceiros concomitantemente é instintivo, natural e milenar.

Não entendo esse hábito de balizar o comportamento humano com explicações que envolvem todas as classes de seres vivos. Dizer que podemos - ou devemos - ter determinada atitude porque 350 espécies de animais o fazem não é, em minha opinião, nada razoável

O homem é uma espécie singular por uma série de motivos. O grande diferencial entre nós e o resto das formas de vida é que somos dotados de linguagem. A partir dela, nós pudemos nos socializar. Quais são as implicações disso? Ser social e, conseqüentemente, viver em sociedade prevê uma série de símbolos e convenções, direitos e deveres.

Talvez a fidelidade seja, de fato, contra nosso instinto. Talvez tenhamos sido socialmente condicionados para agir assim. A grande questão é: Qual é o problema disso? Por que, em pleno século XXI, uma profissional ganha enorme espaço na mídia, disseminando a idéia de que devemos nos comportar como selvagens? Que resistência é essa que temos em reconhecer que somos limitados por nossas convenções? Que somos, sim, domesticados e que precisamos ser? (Uso essa palavra forte, leitor, para ter sobre você exatamente o efeito de espantá-lo. Você se arrepia por eu dizer que você é domesticado, mas você o é).

Nós somos domesticados para a hora de dormir e acordar, para a hora de comer, para fazer exercícios físicos, para estudar, para respeitar e amar nossos pais. Somos condicionados para dar bom dia ao porteiro do prédio e para olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Nós dependemos de regras para viver. A rotina é uma regra. O hábito é uma regra. O que são as leis, senão mero instrumento de ordem social, ainda que muitas vezes sejam arbitrárias e controversas?

Sou contra essa anarquia marital que propõe a psicanalista em questão porque, em última análise, o discurso dela nos equipara a insetos. Uma mariposa não pensa, não se questiona, não tem uma profissão e não tem sentimento. E eu me recuso – veementemente - a ocupar um lugar de mariposa, quando sou dotada de um excepcional aparelho psíquico, que me permite ESCOLHER. Seguir seus instintos é, simplesmente, abrir mão do seu direito de escolher. Você joga fora a sua capacidade de tomar decisões, de pesar prós e contras e age igualzinho ao cachorro da vizinha que late sem saber exatamente por que está latindo. Animais não têm poder de escolha.

Você já parou para pensar no privilégio que é poder escolher o que fazer com a sua vida? Quando uma pessoa diz que é da minha natureza ser infiel e que eu devo obediência a isso, ela me resume ao meu órgão sexual. Eu escuto que estou à disposição dos meus hormônios, que não tenho discernimento. E isso, meus caros, é inadmissível.

5 comentários:

alemdoreflexo disse...

Existem animais monogâmicos.
Entendo seu argumento de que certos condicionamentos e regras são necessários para a convivência social e a monogamia pode ter sido (e ser) um deles.
Mas eu vejo a idéia de naturalizar há POSSIBILIDADE de se ter muitos parceiros ou parceiras como uma tentativa de diminuir a "culpa católica" de quem sente atração ou afeto por mais deu ma pessoa e de ter menos discriminação com quem o faz.
A monogamia, além de outros motivos (relacionados a Evolução, cultura ...) se propagou muito devido a sua herança no patriarcado, como forma de garantia do chefe de família de que seus herdeiros eram seus filhos.
Entendo seu argumento de que nossa vida em sociedade precisa de regras, e que somos condicionados há muitas coisas. Mas se uma convenção não está sendo positiva pra alguém, e não afeta a vida da sociedade em que ela vive (como suas escolhas sexuais), pra que cumpri-lá?
Posso ter entendido errado, mas acho que o argumento da psicanalista nao é que todo mundo seja poligâmico, mas pelo direito de escolha de quem queira ser.

Paula Soares disse...

Júlia, entendo seu argumento e concordo que a liberdade de cada um deve ser preservada. O que cada um faz com a própria vida, desde que não afete negativamente os demais, só diz respeito a ele. Se para um casal a poligamia ou a 'relação aberta' funciona bem, não há motivos para serem criticados. Aliás, não tenho aqui a intenção de criticar o modo de vida de ninguém.

O intuito do texto é mostrar que o argumento da psicanalista é ruim. Um casal que opta por formas não-tradicionais de se relacionar deve ser respeitado, ninguém tem nada a ver com isso. Porém, esse funcionamento é fruto de uma escolha, e não de uma impossibilidade de frear seus instintos. Esse é o ponto.

A Drª Navarro propõe uma liberdade sexual que nada tem a ver com escolha e foi isso que eu quis mostrar. Um de seus argumentos é que "o que o parceiro faz quando não está com você não é problema seu". Já ouvi uma amiga dizer que a postura radical da psicanalista é decorrente de esse ser um assunto novo, que precisa chocar pra se fazer ouvido. Eu discordo.

Obrigada pelo seu comentário! Volte mais vezes, continue participando! :)

alemdoreflexo disse...

Oi Paula. Valeu pela resposta. Acho que entendi. É, minha impressão é que parte do que ela fala, e por isso ela ganha tanto espaço midiático, é pra causar choque, e assim chamar atenção (se para ela ou para a causa eu nao sei). Talvez daí o foco no nosso lado selvagem maior do que nas escolhas...

Marcus Vinicius Alves disse...

Acho que há também no argumento da psicanalista a necessidade de estar consonante com o discurso atual da psicologia, já que o próprio discurso da psicanálise não se sustenta sozinho como há anos atrás.
Nós vemos hoje a psicologia evolucionista ganhar muita força, principalmente em se tratando de relacionamentos, e é um pouco normal que se cometam erros ao focar e se empolgar com um paradigma, neste caso, somente argumentar baseado nos aspectos filogenéticos do nosso comportamento e esquecer o impacto da cultura na vida das pessoas, que ao falarmos de monogamia ou poligamia, me parece mais influente.

Paula Soares disse...

Marcus, você pegou um ótimo ponto. A apropriação de termos que não dominamos quase sempre resulta nessa salada de conceitos, que é evidenciada por análises superficiais.

Não dá pra misturar a evolutivo-biológica com a estrutural-linguística impunemente. O resultado é esse aí.

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